A Terceira Margem – Parte CDXCVII

Descendo o Rio Branco 

BBC Brasil – The Economist, 19.01.2004

Campo de Concentração Brasileiro

Um grandioso acontecimento se está preparando no céu para fazer pasmar as gentes. Far-se-á uma grande reforma entre todas as nações, e o mundo irá misturar-se como um oceano. (São João Bosco)

A preservação de grupos étnicos em redomas que os mantenham distantes de contatos humanos não passa de uma tentativa de fazer parar o tempo, como se isso fosse possível, em zonas cujas dimensões e natureza tornam impossível um policiamento protetor. O artificialismo condena esse equívoco, e o resultado final ameaça ser a contaminação dos grupos primitivos pela ação clandestina do que há de pior na sociedade moderna, enquanto o que há de melhor é mantido à distância pelo respeito à lei. (Editorial “A Redoma Fatal” – Jornal “O Globo”)

Repercussão Internacional e a Cegueira Nacional

Em 19.01.2004, a revista inglesa “The Economist” publicou um artigo com o título “Um novo Israel” que retrata o clima de segregação entre índios e não-índios em Roraima. Segundo a revista, a Reserva dividiu o estado. Essa divisão levou o autor do artigo a traçar um paralelo com a antiga Iugoslávia: “Boa Vista tem um clima etnicamente carregado, mais caracte­rístico dos Bálcãs do que do Brasil”. A Revista antevia conflitos indígenas, falava em “Balkanização” o que a imprensa nacional, sectária e comprometida, evitava publicar, preferindo utilizar termos mais sutis.

Perseguição Racial

Os últimos governos foram responsáveis e a his­tória os julgará por incentivar a segregação e o racismo criando imensas reservas, privilegiando minorias indígenas e estimulando contravenções e cisões.

Movimentos Raciais

Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. (Darcy Ribeiro)

Diversos movimentos, de todos os matizes, continuam tomando corpo, buscando privilégios especiais, esquecendo que a grande maioria do povo brasileiro é mestiça. As identidades étnicas tendem a desaparecer no processo histórico e todas tentativas históricas de “congelá-las” fracassaram. O brasileiro é por definição um ser mestiço e que abrange as diversas manifestações de um mesmo processo. A identidade mestiça brasileira é dinâmica e tem como origem o amálgama de diversos povos que se encontraram no espaço e tempo da nação brasileira.

Perseguição Religiosa

A FUNAI acionou até o Supremo Tribunal Federal (STF) para retirar os missionários brasileiros da denominada Assembleia de Deus, argumentando que os evangélicos devem sair vivem nessa área são estrangeiros e estão incentivando os índios a lutar contra os evangélicos que não concordam com o monopólio do catolicismo na área. (Deputado Márcio Junqueira)

A Fundação Nacional de Assistência ao Índio (FUNAI), proíbe a presença de missionários evangélicos nas tribos indígenas de Pacaraima-RR, mas não toma a mesma atitude em relação aos padres e freiras estran­geiros enviados pela Igreja Católica.

The Economist ‒ Jan 15th 2004

Índios do Brasil: as Guerras Indígenas da Amazônia (Tradução Livre de Hiram Reis e Silva)

O Estado de Roraima exala um ar de conflito civil iminente. No início deste mês, elementos contrários à demarcação contínua da reserva indígena bloquearam as estradas de acesso à Boa Vista, capital do Estado, e ocuparam os escritórios das agências de reforma agrária federal e assuntos indígenas. A disputa não acirrou os ânimos apenas em Roraima, mas chamou a atenção, também, sobre os conflitos radicais entre os ambientalistas e defensores da cultura tradicional, de um lado, e aqueles que defendem o progresso e o crescimento econômico, de outro.

O Brasil está salpicado de reservas indígenas. Geralmente, são vastas áreas contendo poucos indivíduos, mas com recursos abundantes, da madeira ao ouro e à água. A terra e o subsolo pertencem ao Governo Federal, mas os índios controlam o acesso e a atividade econômica. A maioria dos estrangeiros, que se preocupam com isso, consideram isso correto. Essas gigantescas reservas parecem ser baluartes contra as forças que podem colocar em risco tanto a Amazônia, quanto os direitos de uma minoria nativa indefesa. Esta visão tem adeptos influentes, como ONGs internacionais e a Igreja Católica do Brasil.

Mas para os fazendeiros, mineiros e madeireiros, isso tem cara de conspiração para impedir o progresso. Paulo Cesar Quartiero, arrozeiro, afirma que a polêmica reserva em Roraima é um ato de “extermínio”, faltando apenas os crematórios. Embora discussões sobre os recursos naturais muitas vezes possam ser sangrentas [acredita-se que vários líderes indígenas tenham sido mortos no ano passado por causa dessas riquezas], elas geralmente são setorizadas, mas essa disputa, no entanto, está chamando a atenção de todo o Estado.

O gatilho é a iminente declaração do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, de uma nova Terra Indígena que cobre 8% de Roraima, a Raposa/Serra do Sol, com mais de 1,7 milhões de hectares de extensão. A “Desintrusão” deve vir logo a seguir. Isso significa remover a população não índia de várias aldeias e de uma pequena cidade – o número de pessoas é controverso – além de diversas plantações de arroz, entre as quais a de Quartiero. Para seus defensores, Raposa/Serra do Sol é uma restauração e não expropriação.

Por décadas, os 15.000 indígenas da área tentam recuperar suas terras de mineradores e agricultores, que trouxeram consigo a bebida, a sujeira e prostituição. Manuel Tavares, da FUNAI, a agência federal dos índios, mostra pacotes de veneno agrícola que, segundo ele, foram encontrados em uma das fazendas de arroz. A limpeza final ocorrerá quando a reserva for aprovada. Essa perspectiva não invoca nenhuma simpatia em Boa Vista, residência de mais da metade da população do estado. Um magnífico monumento na Praça Principal não personaliza o indígena brasileiro, mas seu arqui-inimigo, o garimpeiro, que poluiu e extraiu das terras indígenas o ouro e diamantes nas décadas de 1930 a 1980, e agora resiste apenas como um monumento dourado em Boa Vista. O governador, Flamarion Portela, reclama de administrar um “estado virtual”, onde metade da terra é indígena e a maioria do restante é controlada por agências federais. Isso frustra os sonhos de participar do boom da soja no Brasil e de explorar as conexões rodoviárias à Venezuela, Guiana e além.

Boa Vista tem uma atmosfera etnicamente carregada, mais característica dos Bálcãs do que do Brasil. “As pessoas ou gostam dos índios ou os odeiam”, diz Ana Paula Souto Maior, advogada pró-indígena. “Não existe opção intermediária”. A ideia de colocar áreas do estado fora dos limites para os não-índios parece não-brasileira para muitos. No entanto, alguns indígenas estão entre os críticos mais radicais da demarcação da reserva em área contínua. Os apoiadores dessa forma de demarcação afirmam que os adversários são pagos pelos plantadores de arroz, mas esses, por sua vez, acusam a igreja e as ONGs de lhes impor um tipo de vida e isolamento que eles não desejam mais.

Em vez disso, eles querem “TVs, carros, tudo”, diz Gilberto Macuxí, presidente da Arikom, um grupo indígena. Se Raposa for demarcada como planejado, ele acrescenta: “haverá uma guerra entre nós”. Os problemas mais graves do estado são auto-infligidos. Sua população passou de 41.000, em 1970, para 360.000 hoje. As riquezas minerais atraíram alguns mineradores, mas a maioria da população atual veio atrás de empregos e subsídios do governo. Metade da força de trabalho está na folha de pagamento do governo e muitos “funcionários fantasmas” foram “demitidos” ([1]).

A economia do Estado depende de sua lavoura de arroz, uma indústria responsável por 10% da renda do estado.

19.01.2004, a revista inglesa “The Economist” publicou um artigo com o título “Um novo Israel” Os fazendeiros e seus aliados indígenas querem excluir os arrozais, estradas e assentamentos da área demarcada para a reserva. Portela espera que o Governo Federal entregue terras federais não indígenas ao Estado. Mas isso não salvaria a lavoura de Quartiero. Os apoiadores da demarcação contínua da Raposa esperam que a luta termine assim que a reserva for declarada. Seus oponentes dizem que é quando ela realmente começará. (THE ECONOMIST)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 17.10.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

THE ECONOMIST. Brazil’s Indians: The Amazon’s Indian Wars ‒ Inglaterra ‒ Londres, 15.01.2004  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Escândalo dos gafanhotos: o salário de servidores fantasmas era desviado para políticos locais. (Hiram Reis)

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