A Terceira Margem – Parte CDXXXVIII

Descendo o Rio Branco

Catarata Natal, Rio Berbice (Charles Bentley).

Robert Hermann Schomburgk (1836/1837) 

Diário de uma subida pelo Rio Berbice, na Guiana Britânica, em 1836-7. Por Robert Hermann Schomburgk. Parte II 

1° de fevereiro de 1837 – Deixamos o Essequibo bem cedo, e depois de uma caminhada de três horas e vinte minutos, chegamos ao nosso acampamento. Como sei, por experiência própria, que ando 4,8 km em uma hora, o caminho percorrido foi de 16 km. O resultado de minha travessia do Berbice para o Essequibo será de grande importância para a geografia, o curto espaço de tempo que é necessário para atravessar de um Rio para o outro situa, inegavelmente, o curso do Rio Berbice muito mais à Oeste do que é desenhado usualmente na nossa atual cartografia. […]

02 de fevereiro de 1837 – Iniciamos nosso retorno. Como eu esperava, nos deparamos com dificuldades ainda maiores, a profundidade d’água tinha menos de 20 cm.

04 a 06 de fevereiro de 1837 – Começou a chover forte e, no dia 06, o Rio estava consideravelmente cheio e graças à isso progredimos rapidamente em nossa descida.

07 de fevereiro de 1837 – Passamos pelo Rio Blackwater, vindo de Oeste, apenas um mês depois de o termos visto pela primeira vez. […]

09 de fevereiro de 1837 – Chegamos ao ponto mais alto da série de quedas, que, por falta de um nome indígena, a chamamos de Catarata Natal. Não encontramos mais a corial que havíamos deixado para traz e os maiores dentes das cabeças de jacarés, tinham sido arrancados. Os Caribes e quase todos os demais nativos, atribuem poderes mágicos a esses dentes ([1]), não há dúvida, portanto, de que Acouritch e os Caribes roubaram a corial e os dentes de jacaré. Como o Rio estava cheio, as rochas, que encontramos em nossa ascensão, estavam agora cobertas e mormente, as quedas mais poderosas. Cornelius achou, portanto, que poderia se aventurar a descê-las, e como eu sabia que ele tinha grande experiência nesses assuntos, eu não o contestei. Tomei, porém, a precaução de remover o cronômetro e todos os meus instrumentos, e ainda bem que o fiz, já que uma onda forte, na catarata, quase afundou a corial, e foi com muita dificuldade que conseguimos chegar até à próxima ilha. As outras corials foram levadas por uma estrada mais trabalhosa, porém mais segura, até o pé da primeira queda. Para ultrapassar as outras quedas, ordenei que as corials fossem descarregadas e que a bagagem transportada por terra, enquanto ainda éramos obrigados a arriscar-nos em nossas corials. É uma cena emocionante ver uma corial, na torrente, descendo com a rapidez do relâmpago e, ao chegar na borda da catarata, se equilibrar por um instante e, a seguir, mergulhar a proa, arrojando-se velozmente no canal ladeado de rochas, de repente sobe e é levada adiante. A grande corial que carregava nossas provisões estava, prestes a descer, e eu e o Sr. Reiss fomos até o pé da catarata para observar a proeza. Como o Rio faz uma curva fechada e desce obliquamente, só conseguimos observar a corial quando ela já estava na corrente e voando em direção à queda, pilotada por um timoneiro e um remador de proa, aparentemente disparou em direção às rochas e, quando achávamos que ela seria despedaçada contra as pedras, ela foi, com destreza afastada dos penedos escapando ilesa. A descida da corial tornou-se o assunto de uma conversa prolongada entre o Sr. Reiss e eu, e expressei o desejo de que a minha corial, que era de longe a mais cara, não se arriscasse, se houvesse qualquer outra maneira de descê-la. Estávamos agora a cinco dias de viagem do primeiro acampamento. Durante uma conversa informal, fiquei surpreso quando o Sr. Reiss me confessou melancolicamente que: “sabia que iria morrer jovem”. Nós rimos de sua afirmativa. Como o céu estava mais favorável do que de costume, à noite saí, a fim de observar a altitude dos Meridianos de Canopus, assistido pelo Sr. Reiss.

12 de fevereiro de 1837 – Cornelius relatou esta manhã; que ele havia examinado a catarata e achava impossível baixar a corial por cordas, já que as rochas marginais não permitiam um apoio seguro para os índios. O Sr. Reiss, achou que eu estava muito apreensivo; e comentou que havia menos perigo para minha corial do que para aquela que havia descido na manhã anterior. Foi decidido, então, que a corial ia descer a catarata e foram feitos os arranjos necessários para a sua descida. Fiquei muito surpreso quando o Sr. Reiss expressou sua intenção de descer na corial, a fim de orientar melhor sua descida. Eu protestei considerando que ele não era um bom nadador e que esta não era sua especialidade, pensei, na oportunidade, tratar-se de um mero capricho e que ele logo abandonaria essa ideia depois de refletir um pouco. Eu estava conversando com o Sr. Vieth, quando vieram me avisar que a corial ia a iniciar a descida. Fui diretamente para o pé da catarata, e ao avistar a corial, surpreendi-me e preocupei-me ao ver o senhor Reiss, embarcado de pé na corial, quando a prudência determinava que ele estivesse sentado. Daquele instante, para a catástrofe que se seguiu, não se passaram mais de dois segundos. Tentando evitar os perigos do dia de ontem, eles resolveram descer por um local diferente onde, porém, a queda era bem mais abrupta. O choque, quando a proa atingiu a onda, fez com que Reiss perdesse o equilíbrio, e, ao desiquilibra-se, ele agarrou-se a um dos pilares de ferro do toldo. A corial virou e, no momento seguinte, seus tripulantes, em número treze, foram vistos lutando contra a corrente carregados rapidamente para a próxima catarata. Meus olhos estavam fixos no pobre Reiss, ele se manteve acima da água, mas em pouco tempo, afundou e reapareceu mais adiante, e, quando eu tinha esperanças de que ele conseguisse se agarrar a uma das rochas, a corrente do próximo rápido o pegou, e temo que ele tenha se chocado com alguma rocha submersa, pois seu corpo girou completamente e afundou no redemoinho ao pé do rápido. […] Imediatamente reuni alguns homens para conduzir uma corial e dar início a uma diligente busca, auxiliados por uma segunda corial. Nas duas horas seguintes, todos os nossos esforços foram infrutíferos, até que, por fim, encontramos seu corpo em um local menos provável para onde uma corrente submersa deve tê-lo arrastado. Embora tenhamos recorrido a todos os meios conhecidos para recuperar pessoas afogadas não obtivemos sucesso, o Sr. Reiss se fora. Agora é meu doloroso dever tomar providências para depositar os restos mortais do nosso pobre companheiro em sua última morada. À noite, selecionei para esse propósito um local isolado, oposto ao local onde ele se afogou, em um terreno alto onde a água, mesmo durante a inundação, não chegará. […]

Inscrição no Túmulo de Reiss.

13 a 14 de fevereiro de 1837 – Hoje de manhã levamos nosso pobre amigo ao túmulo. Na ausência de um caixão, nós o envolvemos em sua rede como uma mortalha e o colocamos na corial em que perdeu a vida. Nós o levamos para a margem oposta, e de lá ele foi carregado, pelos jovens que professavam o cristianismo, para alto do morro, seu lugar de descanso eterno, que havíamos preparado. Enquanto eu lia o belo e expressivo texto para o enterro dos mortos, não havia um olho seco por parte dos cristãos, e até os índios, decentemente vestidos, estavam de olhos baixos em volta do túmulo […] olhando fixamente para pequena placa que ele mesmo trouxera, para gravar seu nome, e deixá-lo como lembrança para o caso de alcançarmos as montanhas Acaraí.

15 de fevereiro de 1837 – Podem imaginar os sentimentos que nos acompanharam ao deixarmos nosso acampamento e continuarmos nossa jornada esta manhã. Foram muitas as cachoeiras e corredeiras que ultrapassamos, acho que quarenta e oito até as Cataratas de Natal, foi um processo doloroso para uma tripulação enfraquecida e abalada pelas recentes lembranças de nossos acidentes e perdas. […]

16 de fevereiro de 1837 – Acompanhado por alguns índios saí cedo, esta manhã, para subir as colinas à Sudoeste. Caminhamos Berbice acima margeando-o, até ele fazer uma curva ao Norte. Nunca vi uma tão grande variedade de samambaias em uma área tão restrita como aqui encontrei, totalizando mais de quinze espécies, algumas delas por demais interessantes. Atravessamos repetida­mente um riacho de montanha, que serpeava e subia gradualmente, formando diminutos vales. Depois de meia hora de caminhada, chegamos ao sopé da colina Oriental, que tem a forma de um cone.

20 de fevereiro de 1837 – Chegamos, esta manhã, à Aldeia Waccaway, a primeira morada humana que avistamos nos últimos 2 meses desde que daqui partimos, acompanhados pelo Chefe Andres e seus homens que nos abandonaram quando subíamos as Cataratas Natal. Como era de se esperar, nenhum dos que nos abandonaram foi encontrado na Aldeia. Há sempre índios estranhos por aqui, a vizinhança com a rota superior do Berbice ao Demerara a torna conveniente como local de descanso. Continuamos nossa subida, marchando com muito esforço, para o cume, encontrando, ao longo do caminho, grandes fragmentos de rocha contendo pedaços de quartzo arredondado, até o pico que se eleva abruptamente. O céu estava nublado, e uma névoa espessa pairava sobre o vale arborizado, a vista era obstruída por árvores gigantescas, e embora eu tenha subido em uma das pedras, não consegui ter uma visão ampla. […] Continuamos caminhando ao longo da crista por 2,4 km, até chegarmos ao ponto mais alto das montanhas. […]

17 de fevereiro de 1837 – Chegamos, à tarde, na Catarata de Itabru.

Catarata Itabru, Rio Berbice

19 de fevereiro de 1837 – Nosso aprestamento foi concluído até as doze horas de hoje, e deixamos a última catarata onde o risco podia ser deduzido em razão das grandes demonstrações de alegria dos nossos índios, que pareciam ter recebido força adicional em seus músculos para impulsionar as corais. Hoje, encontramos Waccaways e Macúsies, que vinham trabalhando há alguns meses para um dos lenhadores e como fruto de seu trabalho, cada um tinha uma arma e algumas peças de chita que eram exibidas ostensivamente.Aparentemente eles não tinham a menor desconfiança de nós, pois saíam da cabana várias vezes sem esconder suas propriedades, embora toda a nossa equipe fosse estranha a eles. Ao contornar uma curva do Rio, na vizinhança de um terreno cultivado, observei alguns índios se aproximando, mas assim que eles avistaram minha corial, remaram com toda pressa para a praia, desembarcaram e fugiram, deixando para trás suas corials e seus pertences. Deduzi serem alguns dos Waccaways que nos tinham abandonado ([2]). Um deles acompanhado de duas mulheres, remou direto para o povoado, o outro, mais novo, desembarcou e correu como uma gazela em direção à mata. Nós reconhecemos a esposa de Andres. Ele próprio devia estar escondido no bosque, identificamos sua arma dele e cartucheira, mas como não consegui apreendê-lo, não senti nenhum desejo de caçar os outros nem de amedrontar suas mulheres, portanto, continuamos nossa jornada.

21 a 26 de fevereiro de 1837 – Ao meio-dia, chegamos a Moracco, onde fomos recebidos, pelo Sr. McCullum, com a mesma hospitalidade que experimentamos na nossa subida. Tudo o que era necessário foi providenciado, e meus pobres índios, depois de seis semanas de escassez e privação, foram mais uma vez autorizados a desfrutar do luxo de uma lauta refeição. Muitos deles apresentavam inchaços, enquanto outros, e nós entre eles, estávamos tão esquálidos que nossos conhecidos irromperam em um grito de surpresa, contudo, embora tivéssemos sofrido muito, quase tudo poderia ter sido esquecido se não tivéssemos que amargurar a morte prematura do Sr. Reiss. Em nosso retorno a Wickie, descobri que o clima era mais favorável nas regiões costeiras do que no interior. Resolvi, portanto, fazer uma excursão ao Rio Demerara, em parte por meio do Wieronie, um afluente do Berbice, e em parte por terra pelas savanas.

27 de fevereiro de 1837 – Partimos de Wickie e descemos o Rio até Peereboom, a residência do Sr. Duggin, que nos dedicou toda a atenção e civilidade. Este cavalheiro tem um estabelecimento de corte de madeira na Wieronie, e como eu me propus subir o Rio o máximo que pudesse, para avaliar sua possibilidade de navegação por barcos de fundo chato, empurrado à vara, e outras embarcações fluviais. Aceitei com muita gratidão a oferta do seu superintendente, de me disponibilizar Moses, um chefe Arawaak, como guia através das savanas e afirmou que devo me preparar para uma navegação muito complicada.

01 de março de 1837 – O cenário do Rio tornou-se muito interessante: expandiu-se algumas vezes como o Alto Berbice, mas seus alargamentos semelhantes a Lagos eram geralmente cercados por terras mais altas e repletas de pequenas ilhas, nas quais havia números da majestosa buriti [Mauritia flexuosa]. Sua altura elevada suporta numerosas folhas em forma de leque, e um gigantesco cacho de sementes quase redondas com cerca de 6,4 centímetros diâmetro, e marcadas como o cone de um pinheiro. Uma trilha vai da enseada Catacabura, através das savanas, até o Rio Demerara, mas como eu não tinha guia, preferi seguir para Yucabura, 14,5 km mais ao Norte, a fim de obter o guia prometido.

O Rio torna-se mais raso onde se alarga e, embora tenha nesses lugares a profundidade de 1,2 a 1,5 metros, a quantidade de madeiras flutuantes dificulta muito a navegação. Descobri que seria aconselhável deixar a corial aqui e prosseguir a pé pelas savanas. […]

22 de março de 1837 – Continuamos nossa rota. Uma hora de caminhada pela densa floresta, abundante em árvores de madeira nobre, nos levou à pequena Aldeia Arawaak, às margens do rio Canje. […]

28 de março de 1837 – Demos adeus ao Sr. Duggin, e com um guia, súdito de Jandje, para me informar dos nomes dos Riachos em nossa descida do Berbice, de Wieronie até a costa, partimos, orientando nossa navegação de acordo com as marés. Eu estava ansioso para obter informações tão precisas sobre o Rio Berbice, quanto as circunstâncias e o tempo me permitissem. Usei com grande sucesso o método de agrimensura medindo distâncias por som, que achei suficientemente preciso, e assim obtive uma série de dados que, comprovados por observações astronômicas, podem ser úteis para a construção de um mapa topográfico do Rio em grande escala. […]

30 de março de 1837 – Na plantação de Mara, na margem direita do Rio, ou na margem Leste, medi uma linha de base para determinar a largura e encontrei 764 m de largura a cerca de 37 km do mar, sua profundidade média de 5,4 a 7,3 m e os atuais 7,4 km/h. […]

Buriti (Mauritia flexuosa)

31 de março de 1837 – Após uma ausência de quatro meses e vários dias, chegamos esta tarde em Nova Amsterdã. […] Eu não podia deixar de sentir que estávamos retornando sem um de meus companheiros e, embora consciente de que em todas as ocasiões cumpri plenamente meu dever e me esforcei ao máximo, ainda assim a lembrança da perda de alguém que compartilhava de nossas vicissitudes ofuscava esta sensação de Missão cumprida que naturalmente sentíamos ao retornar das solidões da vida selvagem para a morada do homem civilizado. (SCHOMBURGK, 1837)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 01.06.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

SCHOMBURGK, Robert Hermann. Diário de uma Subida pelo Rio Corentyne, na Guiana Britânica, em 1836 / Diário de uma Ascensão do Rio Berbice, na Guiana Britânica, em 1836-7 ‒ Inglaterra – Londres ‒ The Journal of the Royal Geographical Society of London, Volume The Seventh, páginas 285 a 301 & 302 a 350, 1837.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Se principiou a estimar como cousa preciosa o dente de jacaré, como excelente contraveneno; e cada vez se foi confirmando a sua virtude, por experimentada em muitos casos, dos quais foi muito notável o seguinte. Indo de jornada um Ministro português, lhe mordeu uma cobra surucucu o cavalo em um pé, que começou logo a sentir os efeitos do mortal veneno, lançando sangue por todas as vias, boca, olhos, e ouvidos, e já estirado agonizava com as ânsias da morte, e agoniado também o Ministro com a perda da cavalgadura, se lembrou do dente de jacaré, que o seu pajem levava consigo, e atando-lhe ao pescoço, pouco a pouco foi parando o sangue, e o animal restituído às suas forças brevemente pode continuar a jornada. (DANIEL)

[2]   22 de dezembro de 1836.

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