A Terceira Margem – Parte CDXLV

Descendo o Rio Branco 

Hiram Reis e Silva – O canoeiro

Antônio Ladislau Monteiro Baena ([1])
Parte II  

MEMÓRIA [1840]  

Sobre o intento dos ingleses de Demerara de usurpar as terras ao Oeste do Rio Rupununi adjacentes à face austral da cordilheira do Rio Branco para amplificar a sua colônia  

[…] Da segunda o General João Pereira Caldas, aquele Presidente não dirigiria, como dirigiu, o seu juízo na formação do seu discurso nesta parte, consultando uma carta inglesa puramente geográfica da América Meridional, e assim mesmo assaz imperfeita, e por conseguinte não cometeria erro notável em matéria de tanta importância num escrito oficial.

Quero dizer, não proferiria em prova de que o missionário inglês havia assentado a sua Missão nas terras da Província, que o Padre transpusera a natural linha divisória da serra Pacaraima e do Rio Rupununi, sendo ele próprio quem com estas expressões, sem a “Lira de Amphion” ([2]), trasladou a dita serra do Ocidente da cordilheira para o Oriente dela, fazendo-a avançar no rumo de Oeste-Leste setenta léguas.

Nem mencionaria Latitudes inexatas, sem declarar de que banda do arco do equinócio elas eram contadas, nem diria que a Latitude em que o Rupununi topa com o Essequibo é a de 3°58’, e na Longitude de 58° seja ela deduzida de que primeiro Meridiano for, que ele não expressou, nem, finalmente, que a distância da Missão ao Forte de S. Joaquim, que está edificado na Latitude Boreal de 3°01’, e na Longitude de 317°, era obra de 60 milhas, quando ela, caminhando-se por terra, é de 99 milhas marítimas, ou 33 léguas de 20 em grau.

A ponta do Uanai, pela qual passa o Rupununi antes da sua difusão no Essequibo, jazendo na mesma Latitude de 4° ao Norte do Equador, que é a da cordilheira, e, na Longitude de 318° numerados do Meridiano da ilha do Ferro, como podia o Rupununi descarregar as suas correntes no Essequibo, seguindo a carreira referida no discurso que tenho citado?

Papeis que encerram semelhantes inexatidões danam o interesse nacional, e ocasionam meios de chicana ([3]) a estrangeiros ávidos, que de ordinário sabem tirar partido das mínimas circunstâncias acidentais, e a quem tudo serve para entenebrecer ([4]) a matéria, erguendo debates arriscados, em que se perde tempo sem proveito, e que põem o negócio na borda do precipício. Os ingleses não desconhecem ser o território cobiçado possessão do Império Americano Meridional, pois muito bem sabem quais são os limites do Brasil por aquela parte assinalados pela derradeira demarcação. Eles nenhumamente ignoram que as terras que pelo Sul beijam a linha reta começada na ponta do Uanai, e terminada no berço do Rio Oiapoque, são todas extra domínio seu. Esta gente bem atinada em seus interesses possui cartas e memórias tipográficas, e sabe tratar todos os meneios de agenciar a sua posse para ter conhecimento das partes do globo que lhe merecem contemplação.

Quando os portugueses estão divisando com vergonhosa indiferença mapas desencaminhados pendentes das paredes do arsenal da marinha em Lisboa, os ingleses os compram e os fazem imprimir.

Portanto, o pretexto de não terem possessor ([5]) as terras que medeiam entre o alto da cordilheira do Rio Branco e o Forte de S. Joaquim, é uma fraca máscara do projeto de amplificar a sua breve Colônia, excogitada pela ambição que os aguilhoa à vista da apurada notícia que tem de que elas indicam gênio de serem produtivas em todo o gênero de plantações e culturas e de que há nelas muitos gêneros nativos, ótimos campos para armentios ([6]) e cavalos, ilhas e serras, e montes acobertados de árvores profícuas, que abrem grandes vales, onde a terra brota plantas valiosas para os usos da vida, serras de cristais e de outras produções minerais, grandes Rios e Lagos, numerosos animais e aves para exercício dos caçadores, e grã ([7]) cópia de cabildas ([8]) silvícolas para empregar na força produtiva.

Tudo isto são úteis ([9]) que enchem os olhos a eles, e não menos o ouro, que em algumas serras parece estar regurgitando das betas ([10]).

Talvez sobre a exuberância deste belo metal ainda não se tenha esvanecido a prístina ([11]) opinião da existência do Lago Dourado na cordilheira do Rio Branco, que tantas lidas fez empreender aos espanhóis, aos holandeses, e aos mesmos ingleses, como se viu no seu desfortunoso ([12]) Raleigh no tempo de Jacob I. Não só compadece esta advertida vontade de usurpar as ditas terras com a civilização de que se jactam os filhos da magna Albion, e com a sua filosofia da humanidade, que os tem conduzido a empenharem-se de todos os modos no acabamento da escravidão africana.

Essa vontade é mais própria dos que viviam nos tempos passados, em que um Marquês d’Argenson, Ministro de Luiz XV, nos seus discursos sobre os verdadeiros princípios de governo ou política natural, dizia que a primeira via que uma Nação tem para se enriquecer é a das conquistas. E será possível que em nossos dias este meio se renove? Oh! Bom Deus!!!

A preciosidade das últimas terras Setentrionais do Brasil tem feito que em diferentes tempos os estrangeiros arraianos ([13]) inclinem o seu desejo a requestá-las. São admiráveis sem dúvida a fisionomia e as riquezas de que a natureza as prendou, e é também sem dúvida que destas riquezas pouco ou nada tem usado a indústria humana. Outras gerações virão, que judiciosamente cravem todo o seu intento em colher o proveito, que até aqui não se há colhido, passem elas para as suas mãos na atual integridade, é este o patriótico desiderato de todo o Brasileiro bom cidadão.

Se já houve quem opinasse que seria interessante ao Brasil ceder a maior parte do torrão fendido pelos Rios Japurá, Negro, Amazonas e Branco, para adquirir em compensação as terras Meridionais até à margem Oriental do Paraná e Província de Entre Rios, haja igualmente quem demonstre não ser justo adelgaçar a cabeça do continente brasílico para lhe engrossar a cauda.

Valha-nos a divisão dos povos contérminos ([14]) do Brasil em tantos estados, pois que ela apresenta muitos obstáculos à prática daquela opinião, e que por isso dispensa não só os seus sectários de insistirem em a pôr por obra, como também os seus antagonistas de patentearem a sem razão dela.

Foi o zelo e eficácia com que sirvo à Pátria, e o interesse que tomo pela glória do Instituto, quem me determinou a expor a este corpo egregiamente benemérito quanto entendi necessário para o claro conhecimento do objeto da presente memória, a qual, depois de ser aprovada pelo vosso iluminado exame, pode servir a futuros historiadores que tratarem deste fato digno de conservar-se em recomendação perpétua.

É arredado de dúvida tudo o que tenho relatado à Sociedade, contudo verificai-o Senhores, com as cartas desta parte do Império do Brasil, e mormente com a carta do Rio Branco ilustrada com a memória tipográfica do Coronel Manoel da Gama, que explorou e discorreu sisuda e prolixamente todo aquele Rio, as quais todas foram mandadas, em 1809, para o arquivo central de ordem do Ministério pelo General Jozé Narciso de Magalhães de Menezes, ilustrada com a memória tipográfica do Coronel Manoel da Gama, que explorou e discorreu sisuda e prolixamente todo aquele Rio, as quais todas foram mandadas, em 1809, para o arquivo central de ordem do Ministério pelo General Jozé Narciso de Magalhães de Menezes, e pelo brigadeiro Comandante das tropas Jerônimo José Nogueira de Andrade, e delas é provável que hajam cópias fieis entre as propriedades literárias de que sois depositários e administradores. (BAENA)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 17.06.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

BAENA, Antônio Ladislau Monteiro. Memória – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista Trimestral do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico ‒ Volume 03 – Tipografia de J. E. S. Cabral, 1841.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Tenente-Coronel de Artilharia, e Membro Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.

[2]   Lira de Amphion: segundo a lenda grega, o som desta lira teria erguido as muralhas de Tebas.

[3]   Chicanas: sutilezas e formalidades da justiça.

[4]   Entenebrecer: turvar.

[5]   Possessor: dono.

[6]   Armentios: gado.

[7]   Grã: grande.

[8]   Cabildas: tribos.

[9]   Úteis: benfeitoras.

[10]  Das betas: dos veios, dos filões.

[11]  Prístina: antiga.

[12]  Desfortunoso: desafortunado.

[13]  Arraianos: fronteiriços.

[14]  Contérminos: confinantes, vizinhos, limítrofes.

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