Biodiversidade do Parque Nacional da Serra do Divisor, no Acre, é ameaçada por projeto de rodovia que liga Brasil ao Peru

ACRE – O projeto de construção da Rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul, passando por áreas do Parque Nacional da Serra do Divisor (PSDN), no Sudoeste do Acre, ameaça a maior biodiversidade da Amazônia e a proteção de Territórios Indígenas (TIs).

Diovana Rodrigues – Da Revista Cenarium

O engenheiro florestal Leonardo Melo, que atualmente trabalha com licenciamento ambiental de Planos de Manejo Florestal Sustentável, destaca a relevância dos impactos causados por rodovias em áreas de conservação, levando em consideração os inúmeros ecossistemas atingidos, desde as camadas mais profundas do solo até as copas das árvores.

“Em uma primeira etapa, onde temos a construção da rodovia, os impactos são bem diretos como, por exemplo, a supressão da vegetação e destruição do habitat de várias espécies da fauna. Em seguida, temos também a retirada de várias camadas de solo em algumas regiões e aterros em outras para adequação do relevo, e essa movimentação de solo, além de gerar danos à biota desse ambiente, também pode causar o surgimento de erosões em encostas, assoreamento e represamento dos cursos d’água”, afirma

A Unidade de Conservação (UC) representa um controle favorável de preservação da diversidade biológicas, no que tange os últimos 30 anos. Segundo dados divulgados pela revista “Environmental Conservation”, da Cambridge University Press, em nome da Foundation for Environmental Conservation, na sexta-feira, 22, a área teve uma redução de somente 1% da sua cobertura florestal, em comparação aos 10dos arredores. O estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal do Acre (Ufac) e da University of Richmond.

“A produção de farinha de mandioca juntamente com outras culturas agrícolas está relacionada com a expansão das áreas de uso misto no SDNP (455 ha em 1988 aumentando para 2972 ​​ha em 2018) e no seu entorno (340 ha em 1988, aumentando para 5.282 ha, em 2018). A farinha de mandioca é o produto regional mais importante e a principal fonte de renda da maioria dos moradores da região de estudo”, de acordo com a pesquisa.

A construção de rodovias impacta o grande fluxo de pessoas, além de que o uso de maquinário pesado provoca o afugentamento da fauna e desequilíbrio do ecossistema da região. “Contudo, não podemos nos esquecer dos impactos indiretos. Dentre os quais podemos citar a fragmentação dos habitats, aumento do risco de incêndios, aumento da caça predatória, extração de espécies vegetais protegidas, biopirataria, extração mineral ilegal, conflitos por questões fundiárias, ameaças a populações indígenas, tudo isso é resultado da pressão antrópica gerado pelo aumento do fluxo de pessoas devido à existência da rodovia em áreas onde prevalece o ecossistema nativo preservado”, alerta Leonardo Melo, em entrevista à CENARIUM.

Com as obras da rodovia internacional, as mudanças do uso do solo aumentariam bem mais do que as imagens de satélites monitoradas, entre 1988 e 2018. “No entanto, uma nova rodovia internacional por meio do SDNP forneceria acesso e aceleraria o desmatamento em áreas anteriormente remotas, fronteiriças e montanhosas, ao mesmo tempo em que provavelmente aumentaria o transbordamento por estradas secundárias e ofereceria oportunidades para mais desmatamento induzido por preços e políticas ao longo das estradas”, alerta o estudo.

Com riqueza de espécies de mamíferos e anfíbios, a rodovia atravessará terras indígenas e zonas de narcotraficantes no Peru. Para que os recursos naturais sejam extraídos, de forma legal e consciente, o estudo sugere a mudança de classificação de UC para Área de Proteção Ambiental (APA). Dessa forma, permite a continuidade da BR-364 até o Peru e a exploração comercial e uso sustentável dos recursos naturais. “Uma proposta de rebaixamento deste parque nacional para uma APA impactaria as mais de 400 famílias que vivem no Parque, assim como uma estrada proposta que dividiria o Parque. Estudos mostram a inviabilidade econômica do projeto rodoviário e os prováveis ​​impactos no desmatamento, na biodiversidade e no regime climático regional e continental”, concluem os pesquisadores responsáveis em documento.

Rodovia cruza comunidades

O local não só demarca a Terra Indígena Nukini, do povo Nawa, que luta ainda para a demarcação oficial da região à margem direita do Rio Moa, como também corta cerca de dez comunidades indígenas na região da Amazônia peruana. De acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), o PNSD é o quarto maior em todo o território nacional e abriga 1.233 espécies animais, dessas quais são 76 vertebrados e 14 invertebrados, totalizando 90, em estado de conservação. O Parque conserva 98% de sua floresta primária e 48% do total que foi desmatado até 2018 agora tem vegetação secundária.

“Os ecossistemas naturais são, em sua maioria, muito frágeis, nos quais qualquer alteração no número de indivíduos, perda de variabilidade genética, diminuição dos processos reprodutivos, pode chegar a um ponto em que não tem mais volta e a espécie não consegue se recuperar. Dessa forma, podemos, sim, ter a extinção de espécies”, avisa o engenheiro florestal.

As rodovias possuem a vantagem de movimentar a economia do País. “Contudo, esse tipo de empreendimento deve ser pensado de maneira a respeitar todos os agentes envolvidos, por meio de estudos prévios onde se criem estratégias de proteção visando sempre a atender o ambientalmente correto, o economicamente viável e o socialmente justo, constituindo assim o tripé da sustentabilidade”, pontua Melo.

PUBLICADA POR:    AGÊNCIA CENARIUM (ver mapas e repertório fotográfico na publicação) 

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