A Terceira Margem – Parte CCCLXXXII

EPOPEIA ACREANA 

José Plácido de Castro

Apontamentos Sobre a Revolução Acreana – I

Notas Inéditas de Plácido de Castro ([1])

No exercício da profissão de agrimensor, munido da indispensável provisão, me achava eu no “Território de Colônias”, da Bolívia, em junho de 1902, demar­cando o Seringal “Vitória”, de propriedade de José Galdino. Os bolivianos, senhores da região que lhe havia sido entregue pelo Governo Brasileiro, tinham elevado à categoria de Vila o povoado de “Xapuri”, com o nome de Antônio Antunes de Alencar, que ali gozava de algum prestígio e que envidara esforços para conciliar os brasileiros com os bolivianos, em parte o conseguindo, tanto que se fez eleger intendente conjuntamente com o Dr. Magalhães.

Continuava, entretanto, o desgosto dos brasileiros, sobretudo devido aos rumores que lá chegaram do arrendamento do Acre a uma companhia estrangeira. Em 23 de Junho chegaram-me às mãos alguns jornais que noticiavam como definitivo o arrendamento do território acreano e estampavam o teor do contrato, então firmado entre a Bolívia e o “Bolivian Syndicate”. Era uma completa espoliação feita aos acreanos. Veio-me à mente a ideia cruel de que a Pátria brasileira se ia desmembrar; pois, a meu ver, aquilo não era mais do que o caminho que os Estados Unidos abriam para futuros planos, forçando-nos desde então a lhes franquear à navegação os nossos Rios, inclusive o Acre.

Qualquer resistência por parte do Brasil ensejaria aos poderosos Estados Unidos o emprego da força e a nossa desgraça em breve estaria consumada. Guardei, apressado, a bússola de Casella ([2]), de que me estava servindo, abandonei as balizas e demais utensílios e sai no mesmo dia para a margem do Acre. Há muito, prevendo esse resultado, havia falado a vários proprietários na possibilidade de uma resistên­cia, consultando-os se com eles poderia contar. O Sr. José Galdino, incontestavelmente foi de todos quem demonstrou melhores disposições de auxiliar-me. Com ele acordei em que a Revolução se faria: eu des­ceria até “Caquetá”, concitando à luta os proprietá­rios, devendo romper o movimento em “Bom Destino”, Seringal de propriedade de Joaquim Victor da Silva, que era um grande entusiasta da Revolução e a pessoa de maior prestígio no Baixo-Acre. Nessa conformidade desci a 25 do mesmo mês em uma canoa de José Galdino, passei a 29 em “Bagaço”, e a 30 cheguei a “Bom Destino”.

Depois de entender-me com o Coronel Joaquim Victor, que foi sem dúvida o acreano que maiores sacrifícios pecuniários fez pela Revolução, ficou acordado descermos até “Caquetá”, onde se achava o Diretor da Mesa de Rendas ([3]) do Estado do Amazonas, que proclamava lhe haver remetido o Governador deste estado grande cópia de armamentos com destino à Revolução. Se não me falha a memória, no dia 2 de julho, em “Caquetá”, nos reunimos: eu; o Coronel Joaquim Victor da Silva, proprietário deste Seringal e de “Bom Destino” e ex-Vice-Governador do Acre em uma das malogradas revoluções, Domingos Leitão: homem de prestígio, residente no Seringal “Esperança”; Domingos Carneiro, residente em “Floresta” e ex-Vice-Cônsul do Brasil em “Porto Acre”; Rodrigo de Carvalho, Diretor da Mesa de Rendas do Estado do Amazonas em “Caquetá”; e o Tenente Antônio de Carvalho.

Tratamos tão somente da Revolução e, por proposta minha, assentamos em que se formaria uma junta revolucionaria, que se comporia dos Coronéis Joaquim Victor da Silva, José Galdino de Assis Marinho e Rodrigo de Carvalho.

Não consegui, porém, que a Revolução rompesse, como eu desejava, no Baixo-Acre, pelo que assentamos que o movimento romperia no “Xapuri”. Tendo ficado assentado que seria eu o Comandante em chefe, acordou-se também que, em rompendo as hostilidades, ficaria extinta a junta revolucionaria, para que só ficasse em ação uma única autoridade – o Comandante-em-Chefe – a quem todos se deveriam submeter.

Voltei para “Xapuri” incerto do êxito da Revolução, pois todos declaravam que empenhariam o melhor da vida, mas ninguém queria ser o primeiro. A 4 de agosto era a primeira segunda-feira deste mês e dia que os acreanos consideram aziago, como aziagos seriam para eles os 365 do ano se a fome os não ameaçasse. Um dos meus remadores, um velho ébrio, disse-me pela manhã, no momento em que o mandei puxar a sirga:

– Patrão, eu hoje não trabalho; é a primeira segunda-feira de agosto e pode haver algum desastre.

Não havendo meio de convencê-lo contrário por outra forma, puxei do meu revólver e disse-lhe:

– Se trabalhares, pode ser que te aconteça algum desastre, mas se não trabalhares é certo que morreras já.

E com um tiro indiquei-lhe o caminho a seguir com a sirga. O homem, que parecia se achar firmemente resolvido a não andar, rompeu imediatamente em marcha, com grande espanto meu, que ainda não conhecia bem aquele meio em que ia agir.

Às dez horas da noite desse dia, em meio de profunda escuridão, passei junto à povoação do “Xapuri” sem ser percebido, pois tive o cuidado de advertir aos remadores de que não fizessem barulho com os remos na borda da canoa. O velho ébrio ainda aí portou-se mal, vendo-me obrigado a fazê-lo compreender que, se fossemos descobertos, ele perderia a vida no mesmo momento. Ao passar pela povoação mandei por terra um homem a “Vitória” comunicar ao Coronel José Galdino que eu ia por água e que ele deveria reunir imediatamente todo o seu pessoal, pois, conforme ficara assentado, a essa hora todo o Baixo Acre deveria estar conflagrado.

O próprio ([4]) chegou à noite mesmo, eu porém, só cheguei às nove horas da manhã do dia seguinte, aparentando uma alegria, que ainda não tinha e dizendo que a Revolução quando muito duraria vinte dias, pois o entusiasmo no Baixo Acre era indescritível [não devia falar de outro modo]. O Coronel Galdino mandou efetivamente reunir o seu pessoal que estava muito espalhado, conseguindo o comparecimento de 33 homens, inclusive o seu filho Mattoso. Com estes 33 homens, ao cerrar da noite, seguimos em canoas para “Xapuri”, onde chegamos às cinco horas da manhã do dia seguinte.

Sem que soubéssemos, era 6 de agosto, dia de festa nacional na Bolívia; era o dia da sua Independência, pelo que estava preparada uma grande festa.

Na véspera haviam as autoridades dormido muito tarde, depois de abundantes libações e dos cânticos patrióticos de costume, pelo que àquela hora da manhã dormiam ainda a sono solto. As autoridades bolivianas eram poucas e estavam alojadas em três casas – na de Alfredo Pires, na de Augusto Nunes, português, instrumento delas e também autoridade, e na intendência, onde residia o próprio Intendente, D. Juan de Dias Bulientes, que não gostava de beber…

Ao saltar em terra, dividi a pequena força em três partes, para atacar simultaneamente as três casas, reservando para mim a do centro que era a Intendência, a do Sr. Alfredo Pires para o Sr. José Galdino e a de Augusto Nunes, na outra margem, para Antônio Moreira de Souza. Tudo correu como eu havia determinado. Penetrando na Intendência, de lá retiramos umas carabinas e dois cunhetes de balas; em seguida chamei-os em voz alta. O intendente, mal acordado ainda, respondeu:

‒ Es temprano para la fiesta.

Ao que lhe retorqui:

‒ Não é festa, Sr. Intendente, é Revolução.

Levantaram-se então o intendente e os demais, sobressaltados. Deixei-os sob guarda e fui à casa do Sr. Nunes, onde Moreira nada havia feito. Prendi-os todos.

O Coronel José Galdino já vinha da casa de Alfredo Pires com muitos presos.

Assim começou a Revolução. Neste mesmo dia continuamos a reunir gente; os proprietários tudo prometiam, mas em verdade mostravam-se receosos: José Galdino era quem agia com mais desassombro.

Convoquei uma reunião para as duas horas do dia seguinte, que se realizou como eu desejava. Nela expus as razões que determinaram a Revolução, e, aparecendo o desejado entusiasmo, falaram com brilho maior os Srs. Dr. Albino dos Santos Pereira, Gastão de Oliveira e Manfredo Álvares Affonso. Em seguida convidei-os a proclamarmos a Independência do Acre, com o nome de “Estado Independente do Acre”, e, no ato de ser erguida a bandeira ao som da marcha batida, pois havia já um corneteiro entre nós, todos se descobriram respeitosamente.

Foi lavrada uma ata, de que mandei extrair umas vinte cópias, que mandei distribuir Rio abaixo, imediatamente, enviando uma ao Governador boliviano em Porto Acre, afim de que [pensei eu] com esta medida, se alguém fraquejasse, não pudesse recuar, visto se haver comprometido com a assinatura na ata.

Os prisioneiros foram expulsos do território, via Iaco, e eu desci à frente de 64 homens, ficando o Coronel Galdino no comando da guarnição do “Xapuri” que se compunha de 150 homens, mais ou menos, com ordem de recrutar os que pudesse.

Um Sr. Falk [judeu francês], que no povoado gozava de alguma influência, começou a fazer reuniões ocultas com o fim de abafar a Revolução pois, não acreditava que o movimento triunfasse. Ao embarcar com a força tive ciência desse fato, pelo que mandei, ato contínuo, prender “esse chefe”, levando-o em minha companhia, na minha própria canoa.

Todo o pessoal era de recrutas roubados ao serviço da seringa, um só não entendia de coisas militares, muito menos de guerra.

No terceiro dia de viagem de baixada, encontrei um próprio que me enviara o Coronel João do Monte, comunicando-me que o Batalhão boliviano, esperado em “Capatará”, ali havia chegado com grande efetivo. Continuei a marcha, havendo mandado um ofício ao Comandante da guarnição do “Xapuri”, comunicando-lhe o fato e dizendo- lhe que:

– A despeito da desproporção numérica, eu me sentia feliz por tão cedo haver chegado a ocasião de pôr em prática o que pregara pela palavra.

Chegado a “Itu” mandei reconhecimentos a “Capatará”, por água e por terra. Era falsa a notícia – ainda não se sabia nada do Batalhão boliviano ali esperado. Isso se passava mais ou menos a 30 de agosto.

A “Capatará” chegamos pela manhã. À nossa chegada fugiu para o mato um brasileiro de nome José Cavalcante, que estava ao serviço dos bolivianos. Aí pousamos, continuando a viagem às dez horas da manhã do dia seguinte, sempre Rio abaixo.

Pousamos de novo em “Benfica”, onde soube que com a minha demora [ocasionada por moléstia grave] muitos dos companheiros, que se achavam comprometidos, dando crédito ao boato da minha morte, haviam desanimado e fugido para o Brasil, e outros se haviam deixado prender em suas casas pelos bolivianos, informados da nossa situação pelo nosso companheiro Joaquim Carneiro, que, desanimado da vitória, tudo lhes contou, o que, como é fácil de imaginar, de grande prejuízo me foi.

Achavam-se presos os Srs. Pergentino Ferreira, proprietário de “Bagé”; Coronel Joaquim Victor da Silva, proprietário de “Bom Destino”, e emigrados para o Brasil os Srs. Francisco de Oliveira e Hyppólito Moreira com os seus irmãos – todos pessoas de prestígio, e ainda muitos outros. Foi esta a situação que encontrei no Baixo Acre e era preciso que no Alto nada se soubesse dessas misérias. Que situação dolorosa aquela!

Os improvisados soldados começaram a se aprumar, a desobediência começou a lavrar, de modo que a autoridade do chefe teve de ser mantida pela espada e pelo revólver. Poucos compreenderão o quanto tem de horrível uma situação como aquela em que me encontrei, em que cada dia que passa é um ano de existência que se nos rouba.

A 1° de setembro acampei, à noite, no Barracão “Panorama”, de Antônio Barbosa Leite, belo coração que infelizmente tão cedo se apagou.

Na manhã seguinte acampei em “Liberdade”, onde me ocupei, até o dia sete do mesmo mês, em convocar os vizinhos e reunir gente. Muitos foram agarrados, já em fuga, pelo pavor que lhes haviam causado a prisão e a fuga dos seus chefes.

Às dez horas da noite desse dia deixei o acampamento sob o comando de um oficial [o Ten Antônio Coelho], e desci até “Caquetá”, onde me diziam se achavam os emigrados. Parti àquela mesma hora, em uma canoa tripulada, levando como companheiro o Sr. Augusto de Macedo. O Governador boliviano, não tendo mais notícias da Revolução, além das que lhe dera o nosso companheiro Joaquim Carneiro [vejam o que são os carneiros dessa terra] soltou o Sr. Pergentino Ferreira e o Coronel Joaquim Victor da Silva.

Andamos toda a noite e às dez horas do dia seguinte, oito, chegamos a “Bom Destino”, de onde, depois de almoçar, segui por terra para “Caquetá”, que alcancei no mesmo dia, á noite. Em “Caquetá” já não encontrei os emigrados, que haviam voltado ao Acre por outro caminho. Achava-se ali o Sr. Gentil Norberto, que havia trazido de Manaus 120 Winchesters, 100 encapados de farinha e 12 cunhetes de balas. Dizia-se encarregado pelo Governo do Amazonas de fazer guerra no Acre.

A ignorância deste moço em assuntos de guerra era tão completa que se presumia bem armado. Não tinha noção alguma sobre coisas militares. O Sr. Rodrigo de Carvalho, o homem mais medroso que tenho conhecido, também ali se achava e se dizia com a mesma incumbência do Governo do Amazonas. Passavam ambos os dias em discussões estéreis e em troca de insultos. (CASTRO)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 17.01.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

CASTRO, Genesco de Oliveira. O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro: Excertos Históricos – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Tipografia São Benedicto, 1930.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Escritos a pedido de Euclides da Cunha quando com ele o autor viajava, em 1906, de Manaus para o Rio. Pretendia aquele escritor ocupar-se dos sucessos que trouxeram o Acre para o Brasil. (CASTRO)

[2]   L. Casella & Cia.

[3]   Mesas de Rendas: criadas no período da Regência, na primeira metade do século XIX, e destinavam-se a operar despachos aduaneiros e fiscalização em portos de escasso movimento, cuja renda não com­pensasse a instalação de uma aduana completa.

[4]   Próprio: mensageiro.

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