A Terceira Margem – Parte CCCLVII

Epopeia Acreana  1ª Parte – IX

O canoeiro

Mangabeira por Almachio Diniz – II  

Ao seu tempo, quando o artista tinha olhos para ver e sentimento para compreender o desabrochamento da alma naquele corpo de mulher, em que ainda nascia “a flor dos seios inflamados”, a física médica, matéria tormentosa do primeiro ano do respectivo curso, atravessava-se na sua passagem, atrasando a marcha progressiva de sua carreira, pois sofrendo os famosos rigores do grande professor Anselmo da Fonseca, não tinha Francisco Mangabeira coragem para investir…

Contudo, foi além… E, quando, no decurso do ano de 1897, os sertões do Norte baiano se assolaram com o flagelo da luta fratricida, conhecida por “Guerra de Canudos”, cursava o poeta o 3° ano de medicina. Assim, a 27.07.1897, partiu, com a primeira turma de acadêmicos, que seguiram para o campo da luta ingratíssima. Naquele incidente, que tanto se prolongou cancerosamente, porque, mercenários da dignidade do Exército Nacional, erigiram em viveiro de enriquecimento as trincheiras e as colunas das forças legais, os serviços gratuitos da mocidade contaram com o apoio e a iniciativa de Francisco Mangabeira.

E lá esteve ele, onde compôs quase todo aquele grandioso poema, cujas estrofes mais belas, pejadas sempre de bizarra originalidade, se “escrinizaram” no volume da “Tragédia Épica”, como já se adiantou, trazida a lume em 1900.

É deveras ([1]) original o poemeto “Os Três Oficiais”, de data muito anterior à “Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, onde, em colóquio, três moços, não contam os seus amores, mas relatam os seus valores de família. Ei-lo:

Os Três Oficiais
(Mangabeira, 1900)   

Noite… No acampamento rumoroso
Conversam descuidados
Três moços oficiais. Um diz:
– Meu berço
É o mais maravilhoso,
Que pode haver! Nasci nos descampados
Que a ventania agita
Em montanhas de pó no azul disperso…
Doce terra bendita,
Coberta de planícies assombradas,
Que são atravessadas
Pelos fortes gaúchos em cavalos
De patas vigorosas.
Oh regiões amadas
Onde passei tranquilo e sem abalos
A infância, que saudades
Profundas sinto agora
Dos teus pampas, teus Rios e cidades
Onde é mais frio o vento
E as mulheres mais lindas! Onde a aurora
No inverno limpa o céu todo nevoento
E no verão colora
De oiro e luz o radioso firmamento!
Contigo eu aprendi, desde criança,
A arrostar toda a sorte de perigo
E a enterrar uma lança
No peito do inimigo.

Salve, terra dos Pampas, onde a vida
Corre agitada e boa,
E o gaúcho viaja alegremente,
Sem pesares e à toa,
Num animal valente,
Com o lenço no pescoço
E um enorme chapéu de aba caída,
Resguardando-lhe o rosto.
Passa a vida sem sobra de desgosto:
De manhã, muito cedo,
Depois dum leve almoço
De mate ou charque, monta e vai sem medo
Desbravando as savanas…
Descansa em casas pobres, onde moram
Honestos lavradores
E morenas serranas
Que, sem mágoas e dores,
Vivem placidamente e nunca choram.
Quer no inverno sem tréguas,
Quer no verão ardente,

Ele viaja assim léguas e léguas,
Partindo duma estância
E pernoitando noutra. Seus cuidados
Cifram-se unicamente
No cavalo fogoso que ergue as patas,
Numa indomável ânsia,
Levando-o por planícies e por matas
A uma grande distância…
Terra santa e querida, onde os soldados
Passam a vida inteira
Viajando nas cidades e povoados
Que existem na fronteira…

Minha terra natal, eu te saúdo
Com os olhos lacrimosos
Porque em ti deixei tudo
Quanto amei nos meus dias venturosos…
Em ti ficou aquela
Que há de ser minha, o anjo
Em cuja face bela
O firmamento abranjo…
A minha pobre noiva! tão formosa,
Tão inocente, angélica e morena
Que tem na face o aroma duma rosa
E o candor duma pálida açucena…
Tão linda que semelha
Uma linda espanhola
Em cuja boca trêmula e vermelha
Desabrocha a corola
Do beijo… Minha noiva e meu tesouro!
Consolar-me quem há de
Nas horas em que choro
De mágoa e de saudade
Por essa criatura a quem adoro
Como uma divindade?
Ai! o que me alivia
É a certeza que tenho
De que ela pensa em mim muito medrosa
Por saber que me empenho
Nas lutas sem temor como fazia
Na fratricida guerra
Que há pouco se acabou, manchando o solo
De minha nobre terra…
Ela receia ainda
[E é este o meu consolo]
Da intrepidez infinda
Com que às negras batalhas me atirava,
Enfrentando o inimigo nas guerrilhas
Ou nos grandes combates pavorosos…
O brio que eu mostrava
Se acaso uma cidade sitiava
Ou defendia-a em ímpetos raivosos,
Fazendo maravilhas
De bravura. Somente no passado
É que fulge e se encerra
Meu extinto prazer que foi gozado
Nas paragens sem fim da minha terra.

Calou-se o oficial e olhou, com mágoa,
O céu, talvez que vendo novamente
O passado. E seus olhos de repente
Ficaram rasos de água.
O companheiro diz-lhe:
– Meu amigo,
Que é isso? Está chorando?
Console-se comigo
Que também vou saudades suportando.
Sou das bandas do Norte,
Daquelas vastas zonas
Onde pompeia ([2]) caudaloso e forte
Um Rio enorme e túrbido ([3]): O Amazonas.
Palavra! tenho inveja desse Rio,
Despótico senhor daquela plaga
Por onde rola rápido e bravio
Inundando paragens
Que, impetuoso, alaga.
Nasce lá no Peru, vê paisagens
Que parecem quimeras:
Florestas colossais onde os fulgores
Do Sol ao chão ainda não chegaram,
E onde vagam indômitos selvagens,
Enraivecidas feras
E cobras multicores.
Que em suas margens, sequiosos, param.
Nele há ilhas virentes ([4])
Todas cheias de flores
E pássaros de plumas resplendentes…
Como não é soberba a madrugada
Às margens desse oceano
Que os homens chamam Rio:
A passarada
Em cantos sedutores
Vai despertando; as árvores enormes,
Douradas pelo sol, tremem e lançam
Suas sombras informes
Nas águas que de leve se balançam;
Caem flores e frutos
No chão; as onças erguem-se; os macacos
Pulam entre os cipós tortos e fracos;
Insetos zumbem; rútilas serpentes
Deslizam, rastejando
Entre folhas; e os rudes índios brutos.
Enfeitados de penas reluzentes,
Quedam-se, com assombro, contemplando
O Sol que lança um fúlgido tesouro
Sobre a copa das árvores acesas.

Às vezes vê-se uma serpente, um touro,
Um animal que abandonou a toca,
A contemplar imóvel de surpresas
Alguma pororoca.
A pororoca assombra a todo mundo,
Tão estranha ela é. Enorme ruga
Surge a face das águas, incha, aumenta,
Qual uma desmedida tartaruga,
Que, saindo do fundo
Do Rio, à tona dele se apresenta…
Ruge, desliza, corre, voa e toma
Um volume espantoso; já parece
Estranho mastodonte
Que, pouco a pouco, assoma
No Rio; desenvolve-se, escurece
Tudo em torno, doudeja, e qual um monte
Que rápido se racha, e treme, e tomba,
Ela desaba num rumor de fragoas ([5]).
Dir-se-ia que se arromba
A terra; as naus afundam-se nas águas,
Que voltam logo à calma acostumada.

Pois bem, nessa região maravilhosa
E privilegiada
Nasci… Ah minha mãe! com que amargura
Revejo a minha vida desditosa
E sinto que a ventura,
Por ser-nos boa, é falsa e mentirosa.

Minha mãe é uma santa
De cujo olhar na doce transparência
Radioso se levanta
Um astro que me leva
Em meio à negra e carregada treva
Da noite da existência!
O mel de seu sorriso
Embriagou a minha adolescência,
Que foi um paraíso
Repleto de prazeres.
É a melhor das mulheres,
Tem a alma pura como os jasmineiros,
Que derramam no espaço
Deliciosos cheiros.
Lembra-me ainda quando, à noite, unidos
Num apertado abraço,
Olhávamos no Rio refletidos
Os brilhos do luar que irradiava…
A forte correnteza
Parecia que aos poucos se abrandava
Numa ignorada e mórbida tristeza,
Que nos arrebatava…
Como que andavam almas
De crianças, de monges e poetas
Por sobre as águas calmas,
Onde o luar batia recordando
Um enxame de argênteas ([6]) borboletas.
Ainda eu sinto no meu rosto o pranto
Que ela derramou, quando
A abracei entre lágrimas… Ah! quanto
A ausência martiriza
O coração que sofre e que precisa
Dum consolo qualquer às suas penas…
Ontem eu tinha tudo que queria,
Agora tenho apenas
A saudade que o peito me crucia…
Mas… para que ressuscitar pesares?
Sabem? Vou terminar. Nasci no Norte
Em uma região imensa e rica
Que tem um Rio gigantesco e forte,
Florestas seculares,
Serpentes colossais, feras hediondas,
Lindos pássaros e índias espantadas,
De amplas formas redondas…
Terra ardente que fica
Nas linhas do Equador incendiadas.
Há nela seringais de onde se tira
Toda a variedade de borrachas.
Eu sou filho daí e é por meu gosto
Que me acho com Vocês nesta campanha,
Sereno e resoluto,
De espada e de bombachas.

Com o sorriso no rosto
Termina, e o seu olhar vago acompanha
A fumaça alva e leve do charuto.

Principia o terceiro assim: Nascemos
Na mesma terra, amigos.
No entretanto que extremos,
Que diferença em nossos inimigos!
O de um é o inverno frio,
O do outro é um grande Rio,
O meu é o Sol. Nasci nas terras onde
Impera às vezes um verão que abrasa,
Secando as águas das fontes.
A seca é um triste quadro:
Os horizontes
Muito azuis sem a flecha duma asa;
No campo o gado como que se esconde
Em busca de água, e, sequioso, morre;
Nas árvores, despidas
De ramagens, a luz do sol escorre
Como o pranto radioso dos espaços.
Mulheres inanidas
Com os filhinhos nos braços
Atravessam a estrada enlouquecidas,
Comendo galhos secos e raízes.
As pobres criancinhas
Já nem podem chorar, e as infelizes
Mães para o firmamento
Erguem o olhar, exaustas e mesquinhas.
Após tanto tormento
Morrem pelas estradas,
Numa atitude langue,
Enquanto os filhos sugam-lhe as mirradas
Mamas que expelem sangue.
Sou filho do sertão! Antigamente
Eu era um grande atirador. A caça
Que eu visse estava morta, certamente.
Ah! como tudo passa!
Adeus, noites de Lua que eu amava,
E em que, ao som da viola e do pandeiro,
A tabaroa ([7]) cândida dançava
No centro do terreiro.
Adeus, tiranas ao luar saudoso,
Quando surgiam, frescos e risonhos,
Em minha alma, num bando vaporoso,
Como andorinhas – os primeiros sonhos.
Adeus, oh matas virgens onde tantas
Vezes o meu facão limpo e afiado
Retalhou grandes cobras que, pulando
Sobre mim num furor desesperado,
Por fim às minhas plantas
Caíam rabeando,
Com os olhos a saltar e a boca aberta.
Vendo-as mortas, eu logo
As arrastava pelo chão em fogo
Até chegar à Vila erma e deserta
Trazendo-as como louros de vitória.
Enfeitava as paredes
Da minha casa com seus lindos couros
Cheios de malhas recordando redes
De seda, e contemplava satisfeito
Esses troféus de glória,
Que me custavam tanto. Hoje é desfeito
Todo o meu gozo… Adeus, terra divina
Onde nasceu também a minha filha,
Que é formosa, risonha e pequenina
Como uma pequenina maravilha.
Não é da terra, pois a sua fala
Lembra uma língua angélica e divina,
Que me extasia e embala
Entre as nuvens dum sonho transparente.
Miragem sedutora!
Inda é tão inocente
Que nem sabe se é linda e encantadora.
Foi de certo um presente
Que o Deus onipotente
Me deu, porque ela é minha,
Que me sinto feliz por ser cativo.
Dessa pobre rainha,
Que, como um anjo buliçoso e vivo,
Apareceu um dia em minha vida
Para em céu transformá-la.
Minha filha querida
Quando anda parece-me que voa
Pelo meio da sala,
Onde sorrindo entoa
Um alegre canção desconhecida,
Se por acaso fala.
Ao vê-la, tenho orgulho e tenho pena…
Porque ela é tão afável,
Carinhosa e pequena,
Que, ao contemplá-la, fico
A um tempo venturoso e miserável.
Esse milagre imenso eu não explico:
Sou pequeno e sou grande,
Desventurado e rico!
É que esse afeto dentro em mim se expande
Por tal forma que eu temo
Perdê-la ou abandoná-la… Oh Deus supremo,
Se um dia ela deixasse o lar celeste
E eu ficasse sozinho
Ou então se eu morresse e ela ficasse
Como uma ave sem ninho,
Quanto não sofreríamos por este
Mundo! Basta de dor. Tenho na face
Indícios de delírio
Porque falei naquela que é meu gozo
E é todo o meu martírio.
Ah! enquanto saudoso
Sofro, ela ri talvez, porque não sabe
Como é grandioso
O afeto que em mim cabe.
Que ria sempre… e esse sorrir ditoso,
Meu Deus, nunca se acabe!
Aí parou, sentindo
Uma grande tristeza. E o que primeiro
Falou, murmura: Um amargor infindo
Nos lacerou o coração inteiro
Só porque conversamos
Sobre a terra natal onde deixamos
Os entes mais amados.

Diz o segundo: E que por tanto o serem
Tanto nos lastimamos.

O terceiro acrescenta: No entretanto,
Apesar de adorados
E de muito valerem
Para nós que os queremos,
Os deixamos porque,
Alvoroçados,
Gritam os três: Porque inda é mais santo
O amor que à Pátria temos.

Nisto, um rumor metálico e estridente
Perturba a noite quieta.
Eles erguem-se… e partem prontamente
Ouvindo o toque seco da corneta.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 01.12.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

DINIZ, Almachio. Francisco Mangabeira – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Tipografia da Escola Profissional, 1929.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;   

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Deveras: verdadeiramente.

[2]   Pompeia: corre orgulhoso.

[3]   Túrbido: turvo.

[4]   Virentes: verdejantes.

[5]   Fragoas: amarguras.

[6]   Argênteas: prateadas.

[7]   Tabaroa: simplória.

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