A Terceira Margem – Parte CCCXXXIX

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  3ª Parte – XLVII

Heróis Desconhecidos – II  

2° Ten FRANCISCO MARQUES DE SOUZA   

Trágica foi também a morte deste bondoso camarada, cuja pureza de alma transparece do diário de viagem que redigiu até a véspera de seu desaparecimento. Hábil operador nos trabalhos de campo, hábil desenhista, que vinha colaborando na nossa cartografia, enquanto se curava do impaludismo e da leishmaniose, contraídos no Sertão, a sua simpática figura gravou-se indelevelmente no coração de todos nós que privamos com ele. Dotado dos mais nobres sentimentos, vitimou-o a sua própria grandeza de coração, o seu excessivo espírito humanitário, temperado de profunda fé católica.

Num gesto admirável – que lembra muito bem o desprendimento da vida e o superior desprezo de Jesus pela dor ou pela morte que lhe pudessem dar os seus algozes – abrindo os braços em cruz, em face da horda de índios que o atacou, chamando-lhes amigos e insistindo para que não lhe desferissem mais suas flechas selvagens, dir-se-ia antes um predestinado ao martírio dos Sertões, do que um simples ente humano… Como preito à sua memória, descrevo o que se passou na Expedição que lhe custou a vida e a seguir transcrevo alguns tópicos do seu diário de viagem, reproduzindo a notícia [redigida por mim] que foi publicada pelo “Jornal do Commercio” desta capital, em 13.09.1915, nos seguintes termos:

Podemos hoje reconstituir, com todos os pormenores, as cenas da manhã de 29 de maio de 1915, nas margens do Rio Ananás, no momento em que caiu vitimado pelas flechas dos índios Araras, o Tenente Marques de Souza, da Comissão Rondon, por esta encarregado de proceder ao levantamento daquele Rio. À frente de uma turma de dez homens, o Tenente Marques de Souza iniciara, a 16 de abril, a exploração do Ananás e, pelo seu diário, os nossos leitores ficarão inteirados das aventuras e peripécias dessa laboriosa e destemida travessia, realizada por entre perigos quase intransponíveis, em que avultam três naufrágios sofridos em pouco mais de um mês de incessantes trabalhos.

Vamos descrever as cenas de 29 de maio, valendo-nos das declarações dos sobreviventes dessa trágica manhã, naquelas longínquas paragens do Sertão mato-grossense. Na véspera, aportara Marques de Souza àquele ponto e aí instalara o seu 43° acampamento. Fora a isso obrigado por se terem despedaçado e naufragado, numa Cachoeira próxima, de três saltos, duas canoas de sua Expedição, que com esse desastre só poderia dispor, daquele momento em diante, de uma única embarcação. Era, pois, necessário acampar, para construir novas canoas. Próximas da margem direita do Rio, existem duas ilhas. O Comandante escolheu a maior, com magníficas árvores de sombra, para o seu acampamento.

A noite, como se verá adiante, pelo diário, correu sem novidade. Primeiras horas do dia. A vida intensa do acampamento já se iniciara. O pessoal fora convenientemente distribuído, segundo as necessidades do dia: fabricação das canoas, pescarias, caçadas e apanhamento de castanhas.

Em torno da Ilha, onde Marques de Souza permaneceu dirigindo o serviço de fabricação de canoas, a cargo de quatro homens, a floresta, gigantesca e silenciosa, parecia inabitada e tranquila.

Todavia, iludindo o próprio faro do cão de guarda do acampamento, ali estava bem perto, à distância ape­nas de poucos metros, tudo vendo e tudo observando, sem despertar a menor desconfiança nem produzir o mínimo ruído que lhe denunciasse a presença, o grupo nu de índios desconhecidos… Os expedicionários, conforme já dissemos, dispunham de uma única canoa, a que transportara à margem oposta os dois homens encarregados de caçar, os quais, para isso, haviam levado as duas armas prestáveis, das poucas que ainda restavam à coluna expedicionária. Todo o núcleo de arrojados exploradores estava disperso. Súbito corta o ar a primeira seta, outra, mais outra… Quer da Ilha, quer da margem, sentem-se os homens acossados pelas taquaras selvagens.

Lançando mão da única arma de fogo que ficara no acampamento, Marques de Souza, corajosa e abnegadamente, atira para o ar. Há um grande pânico, e a onda silvícola retrocede indecisa. A um segundo disparo, a arma falha, os índios recuperam a coragem e avançam novamente, desferindo flechadas a torto e a direito. Traído pela carabina, o oficial tenta ainda um supremo recurso: abre os braços, em atitude de amizade, e exclama: “Não me flechem!” A sua figura, porém, o seu gesto generoso não logra convencer nem comover os aborígenes, que ali encontravam oportunidade de vingar as perseguições com que eram vitimados, há longos anos, pelos seringueiros sem escrúpulo.

Marques de Souza é atingido por duas flechas em pleno peito e por uma outra no abdômen. Vendo já morto, ao seu lado, o canoeiro Tertuliano Ribeiro de Carvalho e um outro, também bastante flechado, o oficial atira-se na água e tenta nadar, com os seus homens, para as bandas em que se achava a canoa.

Graves eram, porém, os ferimentos recebidos, e Marques de Souza submerge e é arrastado pela forte correnteza do Rio. E assim acabou a vida do valoroso e digno oficial, que era um dos mais belos ornamentos da Comissão Rondon.

Morto o oficial, e morto o companheiro, recebido na canoa, prestes a afogar-se um outro canoeiro quatro vezes flechado, o pânico invade aquela gente, entregue a si mesma, sem uma cabeça dirigente. E assim, os que escaparam, resolveram apressada­mente abandonar aqueles sítios, apelando para o supremo raciocínio do “salve-se quem puder”. E, remando águas abaixo, abandonaram os dois cadá­veres, bem como mais dois companheiros que se haviam embrenhado na floresta, para os serviços de caça. Um destes, que por feliz coincidência se encontrava próximo da margem, atraído pelo rumor da canoa, abeira-se do Rio e consegue assim incor­porar-se aos fugitivos, dois dos quais se achavam completamente nus. O outro caçador, porém, lá ficou, abandonado, ignorando o que se passara.

Quando o sol já ia alto, tomou tranquilamente o rumo do acampamento e para lá se dirigiu, levando o produto de suas caçadas. Vinha espreitando, como costumam fazer os caçadores profissionais, e, ao aproximar-se do acampamento, ouviu um extraordinário murmúrio de vozes que em nada se assemelhavam às dos seus companheiros. E assim avançou sutil e cauteloso. Num desvão de pedra, acocorado, observou que o acampamento onde ele esperava encontrar o seu oficial e os Camaradas, estava agora ocupado por numeroso grupo de índios.

Viu-os tomar o cadáver do cão de guarda e envolvê-lo na capa de borracha de uso do oficial; viu-os quebrarem e arremessarem na água os instrumentos de engenharia, empregados no serviço de levantamento do Rio. Do seu esconderijo, observou tudo, e, até a hora em que o sol tranquilamente esmaecia no poente, ali se conservou, nessa atitude perigosa e incômoda, sem nada poder fazer, em vista da insuperável superioridade numérica do inimigo. O caçador esteve nessa posição pelo espaço de sete horas seguidas. Já quase noite, os índios lançaram-se ao Rio, atravessando-o a nado, em busca de suas malocas.

Foi então que o espião se ergueu e caminhou para o acampamento, onde examinou os destroços abandonados e encontrou entre estes o diário do Tenente Marques de Souza, preciosa relíquia, cujo original a Comissão Rondon, sábado último, entregou à família do pranteado sertanista. Obtivemos uma cópia desse documento, cujas primeiras páginas vamos hoje oferecer aos leitores do “Jornal do Commercio”. Marques de Souza, diariamente, escrevia em um caderno as suas impressões e os resultados das explorações que ia realizando.

Essas notas eram tomadas sem maiores preocupações de estilo, muitas vezes na própria canoa, e denunciam na sua singeleza, a bondade de alma do digno oficial, bem como a sua inquebrantável energia, a sua intemerata bravura e o seu ilimitado zelo pelos serviços que lhe foram confiados. Juntamente com o diário, foi arrecadado o livro de ponto do pessoal e outros pequenos objetos. No dia seguinte, perdidas as esperanças de se encontrar com os companheiros, o caçador resolveu partir, margeando o Rio, repousando somente durante as noites e trazendo consigo os objetos arrecadados.

No dia 13, encontrou em uma praia o corpo de Marques de Souza. Verificou então os três ferimentos a que já nos referimos. Com um caco de panela indígena e um tição apagado, objetos estes achados junto do cadáver, o expedicionário cavou na areia um túmulo e nele enterrou o seu inditoso Chefe. Desperta, sem dúvida, um certo interesse, a figura desse caboclo, João Pereira da Cruz, natural do Piauí, abandonado por seus companheiros, condenado a marchar através do desconhecido, contando consigo, só consigo, para comer, dormir e defender-se. Durante 24 dias caminhou, avançando o máximo que lhe permitiam a fadiga e a deficiente alimentação. Ao cabo desse tempo, encontrou a primeira barraca de seringueiros, mas aí não foi possível descansar, e outros 22 dias teve que marchar nessa vida obrigatória de nômade, tristemente aventurosa.

Ao fim de 46 dias de dispêndio forçado de energia, caminhando Rio abaixo ao encontro de seus ingratos companheiros, chegou à barraca de um seringueiro que, compadecendo-se dele, conduziu-o em sua ubá e permitiu-lhe, assim, alcançar os fugitivos, com os quais chegou a Manaus, finalmente, cerca de dois meses depois do trágico acontecimento.

Eis alguns trechos do diário de Marques de Souza:

A 18.02.1915 – Ainda não iniciei os trabalhos. Mandei fazer as canoas. Há dificuldade de madeiras grossas, de forma que se torna necessário desobstruir o leito do Rio para fazer a primeira ubá. Infelizmente, tenho que permanecer deitado, devido aos pés. Tenho suportado porque não posso sair do mosquiteiro, devido à praga de abelhas, piuns, borrachudos e companhia.

Que martírio!! Mais ou menos 11h30. Desde Barão de Melgaço, pouco durmo. Só concilio o sono às 24h00 ou à uma 01h00. Fico em um estado de desespero horrível. Estou ansioso para que se inicie este meu trabalho a fim de acabá-lo o mais breve possível. Há momentos agradáveis nesta vida de Sertão, mas, em compensação, nos momentos de amarguras, de aborrecimento, sofre-se mais, muito mais do que em outro qualquer lugar; talvez seja devido à falta de um consolo, talvez devido à ausência de uma pessoa amiga.

A 22.02.1915 – Ficou pronta a primeira ubá e finalizou-se o serviço de construção do primeiro marco, que pretendo fincar amanhã no campo do Mangabal. O marco tem a seguinte inscrição:

Comissão Rondon, marco n° 1 – Campo do Mangabal – Amarração da Variante dos Campos de Maria de Molina ao marco do Porto do Rio Ananás, de onde a turma de Exploração desceu esse Rio. – Tenente Marques de Souza. 22.02.1915.

A 02.03.1915 – Que lugar horrível este! Úmido, sujo e cercado de grandes poças de água estagnada. Amanhã vou mudar o acampamento para baixo, pois o pessoal que está desobstruindo o Rio deu-me notícias de um bom lugar. Às 14h00, saí com o Cândido e fomos explorar uma bela campina onde o capim gordura roxo lastrou com uma exuberância espantosa. Ela fica a uns 300 m do local onde nos achamos e fica a uns 50 m da margem esquerda de um Ribeirão, que suponho ser o Lyra. É local de antiga roça de índios, pois encontramos um pé raquítico de mandioca.

A 05.03.1915 – Mudei hoje acampamento; é o 5°. A mata é feia, suja, mas o local é arenoso e seco. O Rio continua no mesmo. Tem recebido vários Igarapés, mas em lugar de ficar mais largo, aprofunda-se e, em certos pontos, estreita-se bastante. Tem “voltas” verdadeiramente caprichosas, tornando difíceis as manobras das ubás. Felizmente hoje, a praga das abelhas, mosquitos de mil qualidades, as terríveis mutucas e as teimosas “Beruanhas” ([1]) não nos impa­cientaram. Agora, às 18h00, chove copiosamente. Que tristeza eu sinto quando as tardes são chuvosas! O quanto me não recordo de casa, de minha noiva e de meus amigos.

A 06.03.1915 – Às 07h00, baixei o Rio para explorá-lo antes de fazer o levantamento, como habitualmente faço, até o ponto em que ele recebe dois Igarapés na margem esquerda e creio que um na direita. Não se pode dizer ao certo, pois o terreno é todo baixo e alagado. Cheguei até a pinguela de que se servem os índios Nhambiquara, do grupo dos Cananis. À margem esquerda, ficam os Campos dos Palmares de Maria de Molina. Procurei aí no porto um bilhete de despedida que me deixou o Coronel Rondon, quando explorava, há dias passados, os campos, mas não encontrei, porque, com certeza, os “Parentes” inutilizaram-no.

Ao chegar no Porto dos Cananis, lugar alto, vi as ubás sem o pessoal e logo calculei que eles estavam com os índios. Não errei. Depois de dar dois gritos de chamada, eles vieram com os dois índios e uma criança. Pouco compreendi do que me disseram os índios em resposta às informações que lhes pedi. Apenas percebi claramente, pois neste ponto explicaram bem, que o Rio corria sempre na direção do nascente. Se assim for, quem sabe se não estarei nas cabeceiras do Canumã? Lembrei-me logo de um fato que muito me entristeceu na noite de 15.02.1915, fato que me narrou o Coronel Rondon, quando foi ao meu acampamento despedir-se de mim.

UMA BATALHA ENTRE ÍNDIOS 

Narrou-me ele que, subindo o alto Ji-Paraná, pouco abaixo do ex-acampamento dos Araras, viu em uma ubá de casca de cajueiro três índios. Aproximando-se, notou que todos três estavam feridos. Um velho, com flechada que lhe varou o pescoço e uma outra na mão; a criança ferida em uma das mãos e um rapaz com um ferimento no peito. Tendo feito ligeiros curativos aos feridos, prosseguiu a viagem e, chegando ao ex-acampamento dos Araras, parou e desembarcou. Logo ao olhar, viu que ali se tinha desenrolado uma luta terrível: luta em que alguns indígenas se tinham empenhado com todo o seu ardor guerreiro. No chão sobejavam os vestígios desta sangrenta luta. O capim rasteiro todo amassado, flechas quebradas e as poças de sangue, indicavam o que se tinha ali passado. Era horrível…

Impressionou-lhe mal este acontecimento. Ao chegar em Pimenta Bueno, pôde então saber toda a verdade. Em Pimenta Bueno, conforme disse atrás, achava-se uma turma de índios (descendentes dos Tupis), notando-se entre eles os de nome Marupá, Avená e a índia Inaiôp, um velho e uma criança. O índio Marupá e a sua mulher Inaiôp, inspiraram simpatia a todo o pessoal. Eram alegres, brincalhões e muito unidos.

Tendo o Coronel Rondon mandado chamar os KepiKiri-uats para fazer-lhes presentes, como faz com todos os índios, eles não quiseram ter o encontro e preferiram então fazer uma ligeira ubá de casca de cajueiro e desceram para esperar o Coronel Rondon.

Ao enfrentarem o Porto dos Araras, pararam e foram para terra. Aí então, índios de sua nação, porém de grupos diferentes, agrediram-nos e travou-se a luta sangrenta, onde pereceu o robusto e infeliz Marupá. O móvel de tudo isso era o rapto e a posse da desditosa Inaiôp. E enquanto os sobreviventes desciam, lacrimosos, o Ji-Paraná, a jovem índia aguardava o momento em que o mais forte e apaixonado lhe designasse a sua sorte. Pobre Inaiôp!!

A 09.03.1915 – E este meu pobre caderno que já me acompanha de Porto Alegre, desde o mês de agosto de 1908, abandonou-me por dois dias. Vou transcrever as notas que tomei no dia oito: ontem pela manhã, mudando meu acampamento para este, quando atracava no Porto dos índios, a ubá em que eu vinha, tocando em um pau, e, devido à forte correnteza do Rio, virou e perdi não só minhas dietas, como também miudezas, objetos e todos os fósforos.

Graças a Deus, consegui salvar os instrumentos. Estou desta forma com 80 palitos de fósforos, que consegui reunir entre todo o pessoal. Já tomei as providências para despachar o João com um índio para Três Buritis, a fim de ver se consigo arranjar ao menos um maço.

Neste primeiro contratempo, perdi também as notas que tomava, a minha bolsa, tesourinha, espelho, binóculo, enfim, todas essas miudezas indispensáveis para uma pessoa que faz Expedição. Ainda dei graças a Deus por ter salvo a caixa com papéis da Expedição e o meu relógio, apesar do formidável banho que tomou. Os índios estão constantemente em nosso acampamento, despreocupados, felizes nesta vida nômade que levam.

Agora mesmo está ao meu lado um grupo de mulheres que, a todo instante, riem-se gostosamente e conversam. Reina entre eles a alegria, enquanto em mim, a tristeza. São as saudades dos meus, o contratempo que ontem sofri, a falta absoluta de caça e pesca para a alimentação do pessoal, o estado do Rio, sempre trancado de árvores, enfim, mil coisas pequeninas são os fatores principais que concorrem para que esteja triste. Estou aflito para sair desta zona e entrar em outra onde a mata e o Rio me possam fornecer alguma coisa.

A 11.03.1915 – Os índios não apareceram ontem, mas, em compensação, roubaram-me dois machados, os melhores que eu tinha. No dia nove, apareceram pela segunda vez os índios mais bonitos que vi nesta zona dos Nambiquara. Julguei que fossem os Sabanezes. São mais claros, a pele bem avermelhada, desempenados e com bonita musculatura. A minha primeira preocupação foi tirar-lhes uma fotografia, mas quando armei o tripé e assentei a máquina para pô-los em foco, levantaram-se precipitadamente, agarraram nos arcos e flechas e as mulheres nos baquités, cheios de ananazes e saíram apressada­mente, sem que ao menos lhes pudesse tirar um instantâneo. Ficaram em nosso acampamento (quarto) somente dois índios da aldeia que dista daqui um quilômetro. Na tarde de ontem, fiz o levantamento expedito deste acampamento à aldeia dos índios. Destes consegui, sem que desconfiassem, tirar três instantâneos. Aí vi um índio bem velho, mas bem forte ainda e alegre. Às 11h00, chegou o João. Ele foi a Três Buritis e, como não achasse o José Francisco, foi até José Bonifácio. Felizmente, trouxe-me 17 caixas de fósforos para dois meses!!! Acampei hoje na margem direita. É este o nosso quinto acampamento. Felizmente, o Rio está melhor. Um pouquinho mais largo, porém bem profundo e, em lugar da mata de charravascal ([2]), temos taquaral.

É difícil encontrar-se lugar firme. Tudo é terreno alagado, composto de Igarapés. Às três horas da tarde, chega uma turma de índios da maloca do Nuchilá, em José Bonifácio, e que vieram com o João até a aldeia que fica perto de nosso acampamento. Já me acho em nosso quinto acampamento, desde as doze e meia da tarde. O local é alto, mas o mato é de charravascal e tabocal, sendo que para o centro tudo é campo. (MAGALHÃES, 1942)

UM BILHETE DO CORONEL RONDON 

A 15.03.1915 – Hoje completou um mês que o Coronel nos fez a visita de despedida e, grande coincidência, o pessoal achou, quase que na mesma hora em que ele chegou em nosso acampamento, o bilhete que ele nos deixou numa vara da pinguela de que se servem os Cananis para atravessarem o Rio. O bilhete diz o seguinte:

(Rio Ananás).
Carumiriaru – 11.02.1915 – boa viagem aos intrépidos exploradores do Rio Ananás ou Carumiriaru. P. S. – Logo abaixo recebe o Ribeirão Heron.

A 17.03.1915 – Hoje cedo, mudei para o oitavo acampamento na margem direita do porto em que está a pinguela dos Cananis, na qual o Coronel Rondon nos deixou o bilhete de boa viagem. A balsa, graças a Deus, veio bem. Contra minha expectativa, a balsa não trouxe toda a carga que ficou muito aumentada com a carne do boi que matamos. Isso devido ao lastro ser feito de varas verdes.

Mas logo que sequem, ela suportará toda a carga e cinco homens. Hoje recebi a visita de sete índios. Nada me trouxeram e queriam “boi”. Um dentre eles era malcriado e atrevido. Fui ríspido com ele e pouco depois foram embora. Estou ansioso para me afastar desta antipática tribo.

A 01.05.1915 – 28° acampamento, 02h00. Saí às 07h30. Após meia hora de viagem, ouvimos o ruído de um salto, e, com toda precaução, mandei fazer uma exploração. Isto passou-se às 08h00, e às 09h00, sabia eu da existência de mais dois saltos, sendo impossível a viagem pelo Rio. Na margem esquerda, onde atracamos, é um pequeno campo limpo, e fácil nos foi transportar a carga. Acampei logo abaixo do segundo salto, que tem 1,5 a 02 m de altura, numa praia. O Rio é largo e o lugar belíssimo. Julgamos prosseguir a viagem, mas foi impossível. O pessoal conseguiu, com facilidade, botar as canoas acima do segundo salto e amanhã então tratar-se-á de rolá-las por terra. Parece incrível que, desde o dia 10.04.1915 até hoje, não tenhamos viajado duas horas por dia! Ora são os secos ou corredeiras, ora as cachoeiras, e os saltos, uns em seguida aos outros. Quando acabaremos com esta luta sem fim? Teremos, depois destes dois saltos, outros mais?

A 02.05.1915 – Só à tarde, após lutarmos o dia inteiro, é que conseguimos varar por terra as duas ubás. Esperamos sair pela madrugada, restando saber se nos acontecerá fazer viagem e, em uma ou duas horas, creio que havemos de encontrar ainda um grande salto, porque até agora não tivemos peixes. Quando chegará o dia da alegria nossa, terminando esta fastidiosa viagem?

A 03.05.1915 – Às 04h00 da madrugada, começamos a nossa lida e, às 05h30, prosseguimos viagem. Todos estavam esperançados de não encontrarmos Cachoeira (pois o terreno era baixo) no resto do dia. Mas eis que às 08h00 parávamos para explorar o Rio, pois ouvimos ruído de um salto. Às 09h00 horas, era eu sabedor de que o pessoal tinha andado mais de quilômetro e sempre em cachoeiras e saltos. Tomamos então um paraná da margem esquerda e fizemos a descarga das ubás. Não satisfeito, mandei o João Peru explorar o Rio enquanto que o pessoal fazia o varadouro para a carga.

Às 12h30 chega o pessoal e logo às 13h00 o João, que me disse ser a zona toda encachoeirada, chegando ele até um grande salto, que calculou em 10 m de altura, tendo ouvido para baixo novo ruído de Cachoeira. Às 16h30, estava a carga em nosso 29° acampamento e o pessoal prosseguiu no pique, além de um Igarapé de 10 m de largura. O que será de nossas ubás? Teremos que fazer outras e abandonar estas? Amanhã resolveremos. Hoje, o Cândido e o João mataram 13 jacutingas.

A 04.05.1915 – 30° acampamento; mudamos para este acampamento, abaixo do tombo grande, e na margem esquerda. O nosso caminho sempre margina o Rio, vendo-se, a cada instante, lugares pitorescos e belíssimos. Não vi ainda o tombo grande porque aqui cheguei sentindo as pernas completamente “bambas” e doridas. O João foi em exploração até ao último seco, que dista mais ou menos um quilômetro daqui. De lá, depois de tudo examinar, desceu o Rio, que sempre é melhor, pois não se ouve sinal de Cachoeira e as águas correm pouco. Amanhã iniciarei o serviço de “varação” das ubás. Creio que vou perdê-las, pois as passagens são dificílimas e em outros trechos não podem ser feitas por terra, devido às pedras e ao terreno. Teremos outra demora? Só Deus sabe quando sairemos daqui. Julgo que estes últimos tombos são no contraforte da serra do Norte, e, se assim for, o Rio melhorará e depressa faremos a nossa penosa viagem.

A 05.05.1915 – Varamos as ubás até o 29° acampa­mento, próximo do primeiro tombo: pretendemos amanhã vará-las por terra, sendo provável demorar­mo-nos aqui alguns dias, pois temos muito serviço. A “boia” está curta e já o pessoal achava-se desanimado porque não encontrava nem um patauá, nem casta­nhas. Felizmente, hoje, o Cândido, João e Manguary encontraram bastante, que dará para abreviar-lhes a “brisa”. Hoje, às 12h30, chega do acampamento o mestre Terto, desanimado, acobardado, lembrando a ideia de se abandonar as ubás e fazer novas, de casca de cajueiro ou castanheira.

Fiquei aborrecido neste instante, muito mais do que habitualmente, pois que as contrariedades nesta vida de exploração são muitas, e disse-lhe que regressasse e que haveríamos de varar as ubás embora levássemos uns 15 dias, como ele calculava, para botá-las abaixo do tombo grande. Ainda continuo doente: o ventre demasiadamente inchado, duro e dolorido, as pernas fracas e uma como que “dormência” em todo o corpo. Quantos esforços feitos para apressar a minha viagem!!! E todos quase frustrados. É preciso ter-se muita resignação e ânimo bem forte para não se esmorecer.

A 06.05.1915 – Hoje pela manhã, o pessoal saiu na minha frente com ordem minha para iniciar o varadouro, para quando eu lá chegasse, já estivesse alguma coisa feita. Comi algumas castanhas com farinha, tomei café e segui. Ao chegar no tombo do 29° acampamento, vi com pasmo e grande admiração, o Manguary, na proa da ubá grande, descer o tombo pequeno e, em seguida, despenhar-se pela Cachoeira abaixo, sempre na proa da canoa, para finalmente encalhar bem na boca do tombo grande! Fleumaticamente, olhava com indiferentismo para o buraco como quem mede uma pequena altura para uma queda de água, e dizia: “agora vamos desencalhar a ubá para descê-la pelo tombo”. Depois de 15 minutos, ela precipita-se e cai, submergindo e quebrando-se o cabo de proa: estava na margem direita do Paraná segura por ele. Quando ela se submergiu, ele afrouxou o cabo, deixou-a descer mais e amarrou-a. Logo após, com toda correnteza da água, dá um pulo e mergulha, conseguindo baixar com a ubá até ficar o cabo bem esticado. Meia hora desalagava-mo-la na margem esquerda, onde me achava com o pessoal. Depois, ele e o Aristóteles, outro louco, disseram-me que iam descer a outra Cachoeira do Paraná para ficarem na parte de cima do segundo tombo. Achei loucura, mas como me garantissem não haver perigo, cedi. Às 15h30, estava ela na margem direita encalhada na Boca do segundo tombo.

Atravessaram o Rio os dois e amanhã esperamos ser ainda bafejados por esta “brisa” de felicidade. Talvez amanhã estejam elas abaixo do último e mais alto tombo. Darei graças a Deus se formos felizes nesta travessia, ansioso como estou por seguir para frente, pois ainda continuo doente. Piorei das pernas, pois não posso fazer um passeio de 50 metros que não me sinta cansado, necessitando parar ou continuar a marcha amparando-me nas árvores. Quando estarei ao lado dos meus? Oh! quanto não me tenho lembrado dos meus e quantos castelos tenho eu arquitetado, para quando chegar em casa? Será a última vez que me afasto de minha família para me meter em empresas arriscadas como esta.

A 07.05.1915 – A febre me fez hoje uma das “raras” visitinhas, mas não me deixou prostrado como dantes. Pela manhã saí com o pessoal para retirar a ubá grande, que tinha ficado submergida até o meio entre as pedras de um pequeno tombo. Sentindo-me mal, voltei ao acampamento, um pouco desanimado, por ver que se tornava difícil a retirada da turma, pensando já numa nova demora. Às 10h00, chega o Manguary e avisa-me de que tinham, após grande luta, retirado a ubá que se achava no tombo, acima do nosso acampamento. Fiquei satisfeito e, às 15h30, já estava ela abaixo do porto junto à outra. Amanhã iremos fazer remos, pois só temos três (!) Hoje não tivemos caça e o que nos valeu foram as castanhas e o patauá ([3]).

PÁGINA ÍNTIMA  

A 09.05.1915 – Só poderá compreender esta página íntima quem, como eu, se ache isolado do mundo; só, inteiramente só, sem ter ao menos um amigo para confiar-lhe o que sinto. Estou completamente isolado de tudo, os recursos escassos, eu sempre doente, sofrendo a todo instante, e as dificuldades sempre crescentes; enfim obstáculos que surgem a todo momento, impedindo a continuação desta penosa e longa viagem. E pensar que ainda não temos meio caminho andado! Oh! como é triste a nossa situação e muito em particular a minha. Quem como eu, através do indiferentismo aparente, idolatra os seus, não pode deixar de, em pleno “deserto” do Oeste brasileiro, verter algumas lágrimas de saudade, lágrimas que exprimem também o estado apreensivo pela saúde dos meus e pela sua felicidade. Quem há que não derrame, como eu, estas lágrimas? E ainda quem há que não se recorde dos fatos mais íntimos de casa? Constantemente, parece-me que estou em casa. Hoje, por exemplo, é domingo, o dia em que todos ficam em casa. Pela manhã, pareceu-me ver a mamã e as meninas na luta do vestuário para a missa e o Ed e o Henrique saírem para o banho.

Depois da missa, a infalível palestra na porta da rua; enfim, seria fastidioso enumerar tudo. E… até do Dr. Angelino, à espera do Monsenhor, o Marinho! E são estes os fatores que concorrem para que fique com os olhos marejados de lágrimas, e elas, umas após outras, ardentes, deslizam pela minha face…

O que disse não denota fraqueza de ânimo, não é o medo. Apesar de doente, o mais doente dentre todos, eu sou o mais alegre, que de quando em vez dirijo frases de entusiasmo, dirijo um gracejo que não fere a disciplina ‒ enfim, procuro sempre animar todos para a continuação da viagem.

A 28.05.1915 – Hoje pela manhã fomos passar as ubás. A grande, logo ao entrar num Paraná do primeiro tombo, tomou impulso, devido à correnteza da água, e o pessoal foi obrigado a largar o cabo, vindo entre o segundo e o terceiro tombo, num remanso. Arrebentou toda proa, e o banco do centro abriu-se, assim como o fundo, fazendo um pouco de água. A pequena, que se achava já no remanso de cima do segundo tombo, também arrebatou o cabo das mãos do pessoal e só foi vista uma vez.

Perdemos a “Fulana” – a veterana do Ananás – que se alagou comigo nos primeiros dias de exploração, em um porto de índios. Isto se deu às dez horas do dia e, às duas horas da tarde, já tínhamos um belo cajueiro derrubado para fazer outra canoa. Agora estamos sem cabo para as canoas. Enfim, Deus é grande e não nos desamparará. São mais quatro dias perdidos! (MAGALHÃES, 1942)  

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 05.11.2021 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem. 

Bibliografia

MAGALHÃES, Amílcar Armando Botelho de. Impressões da Comissão Rondon (1942) – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.    

[1]    Beruanha: inseto hematófago encontrado no excremento dos animais e que transmite ao homem, entre outras doenças, o tifo e o carbúnculo.

[2]    Charravascal: região de vegetação quase impenetrável, formada de espinheiros e certas leguminosas.

[3]    Patauá (Oenocarpus bataua ou Jessenia bataua): palmeira originária da Amazônia, cujo fruto comestível é rico em óleo.

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