A Terceira Margem – Parte CCCXXII

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  3ª Parte – XXX 

Cel Hiram em seu caiaque

Tenente Marques de Souza 

O professor, arquivista, compositor, libretista, publicista, tradutor, escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro Luís Gastão d’Escragnolle Dória (¶ 31.01.1869 / U 14.01.1948) escreveu um artigo, em 1918, homenageando o Tenente Marques na Revista Trimestral do Instituto do Ceará, que reproduzimos a seguir.

Luís Gastão d’Escragnolle Dória

Revista Trimestral do Instituto do Ceará
Ceará, Fortaleza, 1918

O Tenente Marques de Souza  

A tradição sertanista é velha no Brasil. Tem raízes na história e na dor. Desde o século XVI o sonho dos seus heróis é morrer por descobrir, a senha ([1]) deles, descobrir para morrer. Aos nomes inscritos no seu martirológico acaba de ajuntar-se o do 2° Tenente do Exército Francisco Marques de Souza Filho. Tal nome e tal memória se incorporam à epopeia sertanista brasileira, pelo direito do sangue vertido, pelo sacrifício de uma vida em flor cujos bons frutos se pressagiavam. O Coronel Rondon, apenas Coronel num tempo de tantos Generais, reviveu a grande e vetusta tradição sertanista.

Tornou-a escopo de sua existência, instalando linhas telegráficas pelo interior, traçando linhas de civilização por terras ínvias. Procurou escravizar o indígena pela brandura, por ela libertá-lo do estado selvático. Condoeu-se dos nômades boscarejos ([2]), dos exilados de arco e flecha, no grêmio da sociedade no Brasil. Ali os encontraram os descobridores do século XVI, deputados de Portugal no congresso de navegantes do Caminho das Índias. Cercou-se o Coronel Rondon de auxiliares prestimosos, de oficiais cujo ideal fosse tão rútilo ([3]) quanto suas espadas. Encontrou um desses auxiliares na pessoa de Francisco Marques de Souza Filho.

Nasceu no Ceara, do consórcio do Engenheiro civil Dr. Francisco Marques de Souza e D. Anna Petronilla Menescal, aos 9 de abril de 1884, na cidade de Camocim, o melhor ancoradouro do Estado, no amplexo do oceano e do rio Camocim. Em frente da cidade, o mar, o grande mar, o belo mar, o sinistro mar. À esquerda, uma espécie de Saara, com escassíssimas árvores verde-negras; à direita, ilhas de formosa vegetação no sono marulhoso do rio.

Iniciou estudos na Fortaleza, cursando o Colégio de Humanidades, dirigido por Antero Barbosa. Aos quinze anos, em fevereiro de 1899, perdia o pai. Ninguém ignora, ou peca por não avaliar, a falta do bom progenitor, quando há filhos pequenos ou adolescen­tes. O lar trabalhará tristemente a meia força. Marques de Souza seguiu para o Rio de Janeiro, a capital importadora de tanta gente dos Estados. Vinha lutar pela vida, tendo sede do pão ganho por estorvo próprio. Só queria pesar no coração dos seus. Completou estudos para se alistar no Exército, assentando praça na Escola Tática do Realengo em 1901.

Dela se transferiu para a Escola de Guerra no Rio Grande do Sul. Demorou-se em Porto Alegre, cursando a Escola, numa “república” de alunos chamada “Petrópolis”. Regressou ao Rio de Janeiro, em 1908, Aspirante a Oficial. Até aí fez o que muitos fazem. Daí por diante entrou a ser o que poucos são, bandeirante de espada à cinta e de coração à larga.

Em julho de 1909 ei-lo nas Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas. Dirigiu-se a Mato Grosso. Embrenhou-se pelo sertão calçado e arborizado de modo diverso da Avenida Central. Em serviço recebeu o galão de 2° Tenente de Infantaria. Em serviço, por duas vezes, contraiu infecções palustres. A última tão gravemente o atingiu que foi mister viajar para o Rio de Janeiro antes de ter imanto em Mato Grosso.

Era em fins de 1913. O primeiro semestre do ano seguinte passou-o no Rio, muito doente, aos cuidados do Dr. Gaspar Vianna, jovem sábio, cuja juventude e cujo saber o cemitério já recolheu. Enfermo, trabalhado pelo impaludismo adquirido em afã público para dano particular, o Tenente Marques de Souza prosseguiu nos trabalhos, no escritório central da Comissão Rondon. Executou os seguintes: cópia da Carta da Corrente do Guaporé e Mamoré, de Vila Bela a Mato Grosso, conforme Pereira e Cáceres, em 1774/1775; cópia das Cadernetas Demarcatórias de Ipegue e Cachoeirinha, da Caderneta Demarcatória de Rocio de Miranda; Tabela das distâncias feitas a curvímetro sobre o levantamento do rio Jaci Paraná, compensação gráfica destas e organização de nova Tabela; trabalhos sobre o rio Roosevelt, devidos ao Tenente Lyra, redação de mapas; anotação de varadouros e passagens no esboço de conjunto das explorações de 1910, e desenho de um esquema do mapa do Brasil, mostrando os itinerários das três turmas, nas quais se dividiu a expedição Rondon.

Findos esses labores e com eles o seu tratamento, o Tenente Marques de Souza, malgrado todas as súplicas do lar, se apresentou pronto para novos serviços. Deram-lhe nova comissão no Amazonas. Despediu-se da família, da extremosa mãe, criadora de sua alma, da noiva, criatura de sua alma. Deixou as águas da Bahia, perdendo de vista a nossa cidade, num dos topos da qual se avista o mosteiro de São Bento, onde é professor um dos irmãos do Tenente Marques de Souza. À meia hora depois do meio-dia o “Pará” transpunha a barra e o levava para sempre, a 16 de julho de 1914. Chegou a Manaus nos primeiros dias de agosto. Cometeram-lhe útil e difícil missão.

Incumbiram-no de assinalar o curso do rio Ananás. A exploração preencheria grande lacuna das Cartas Geográficas do Brasil, por inteiramente desconhecido o curso daquele rio, do qual a Comissão Rondon marcara apenas as cabeceiras. O Tenente Marques de Souza deu princípio ao que ia ser o seu fim. Comprara um caderninho de papel quadriculado de azul e de capa preta. Nele diariamente foi assentando as peripécias da viagem, notas a lápis, caligrafia nítida e certa de geômetra. Aquele caderninho pertence hoje à sua família. De ementário a relíquia. A saudade engrandece o que a morte apouca. Começou a odisseia amazônica do Tenente Marques de Souza e de outros companheiros, saídos de Manaus no gaiola “Madeira-Mamoré”. Nessa embarcação fluvial o passadio ([4]) foi péssimo. Em setembro de 1914, Marques de Souza dirigia-se para o rio Jaci Paraná, ao encontro do Coronel Rondon, aos balanços da igarité ([5]), cuja tripulação de nove homens a impelia por lugares assombrosamente piscosos. Eis uma nota do caderninho do Tenente Marques de Souza:

Apesar de haver sempre muita abundancia de peixe, nunca vi tanta fartura como no “poço” debaixo da cachoeira de Monte Cristo, onde o Arsênio, em quarenta minutos, trouxe quinze pescadas, de dois a três palmos de comprimento!

Mais adiante outra nota. Já se não trata do ferver de peixe no fogo do sol. A expedição está na ilha da Cachoeira.

Que belos e saudosos dias, esses dessa viagem. De vez em quando, devido ao rio estar seco, fomos obrigados a saltar e meter-nos na água ou fazer percursos por cima das pedras, aos pulos. Que bons banhos! Passamos sempre o dia lendo e jogando o dominó. Lemos o “Monge de Cister” ([6]). Cada um de nós lia um capítulo ou mais para os outros ouvirem.

Cena singular e imprevista, quadro único e original: a tripulação a remar, quebrando a pá o silêncio das águas, e um grupo de moços a ler, alto, no só ([7]) de um rio amazônico, a prosa de Alexandre Herculano, em gabinete de leitura flutuante. No Urupá, Marques de Souza encontrou o Coronel Rondon. Exclama o Tenente no seu Diário e acrescenta:

Que dia alegre! Com que satisfação abracei o meu chefe! Converso com o Coronel até tarde da noite.

Daí por diante a viagem prosseguiu, cada vez mais abrolhada ([8]) de tropeços. As febres começavam a aparecer, tornando cadavéricas as suas vítimas. Já não havia ensejo para ler Alexandre Herculano.

Busca-se Tabajara. Marques de Souza anota:

Chegaremos a Tabajara? Todos os doentes remam e eu grito, ameaço, fazendo a última tentativa afim de passarmos com dia a cachoeira de Croatá. E o Sol vai baixando e o poveiro nos diz que é problemática a nossa chegada a Tabajara, porque ele não passa a cachoeira com o escuro. O Bernardo então tornou o remo de um dos doentes e eu entusiasmo o pessoal já exausto, e a igarité desce o rio Ji-Paraná com rapidez. Com o crepúsculo descíamos no meio de uma infernal gritaria a cachoeira. No pior trecho molhamo-nos um pouco e a igarité fez um pouco de água. Mas não acabou a dificuldade da travessia, pois tínhamos um trecho enorme de pedras esparsas. Por três vezes fomos de encontro a pedras e encalhamos. O pessoal caía n’água e com esforço conseguia safar a igarité. Finalmente às 7½ chegamos a Tabajara, com uma noite muito escura. Momentos depois desabou uma forte carga d’água, da qual também fugimos aterrorizados. Que noite escura e lúgubre!

Marques de Souza ainda não se achava completamen­te restabelecido do impaludismo. De certo seria preferível passear na Avenida ou nos “boulevards” parisienses. Saíra do Rio de Janeiro a despeito dos rogos da família, da mãe, dos sete irmãos, dos quais muitos menores e seguira Brasil acima, no cumpri­mento do dever. Depois de mil dificuldades o Tenente Marques de Souza pode respirar um pouco. Dos fun­dões fluviais, a serviço, teve ordem de regressar a Manaus. Consigna o fato no seu Diário com extraor­dinária alegria e nele registra o tempo feliz passado na capital amazônica. Os bons dias são sempre bre­ves. A felicidade raramente emprega doses grandes de prazer. Quando as emprega, são tóxicas em alto grau. Fulminam, por exemplo, o pobretão tornado mi­lionário por um bilhete de sorte grande. Tem um se­gundo de ventura, vê-se rico, poderoso, adulado; põe as mãos sobre o coração e cai. A dose era demasiada.

Revista Trimestral do Instituto do Ceará

A do Tenente Marques de Souza, ao despedir-se de Manaus, foi moderada. Consigna no Diário, 30 de outubro de 1904:

Infelizmente parto… e deixo nestas duas palavras toda a saudade que de mim se apodera. Como parto triste…

E a 31 de Outubro escreve apenas, nota única do dia:

Que saudades…

O mês de novembro escoou-se em trabalhos penosos, desses que não curtem só a pele, mas também o ânimo. Dezembro passou-se a explorar e a ver partir companheiros, doentes, tão doentes. Ainda era consolo ficar, para ter certeza de estar resistindo às lentas e invisíveis agressões do clima assassino. A 1° de janeiro de 1915, o Tenente Marques de Souza pergunta no Diário:

Novo ano. Que estará reservado para mim?

A resposta… Mas não antecipemos.

A 3 de janeiro de 1915 inicia a viagem para a exploração do rio Ananás, recebendo a 6, no Paraná dos Cachorros, a nova da morte de um dos mais dedicados companheiros, o Tenente Carneiro, no Madeira, a bordo do Rio Curuçá, próximo de Manaus. Apesarado ([9]), seguiu. A viagem foi prosseguindo, minuciosamente registrada pelo Tenente Marques de Souza. A 31 de janeiro de 1915, passou, com a expedição às suas ordens, por uma cabeceira chamada Dr. Steaghmeyer, onde se acha sepultado o sábio naturalista, aí falecido em fevereiro de 1913.

Era um velhinho que se assemelhava a D. Pedro II, muito bom. Vinha já há algum tempo acompanhando a comissão à cata de borboletas e outros bichinhos.

Espécie de Guilherme Tembel Meyer de “Inocência” ([10]), um desses adoráveis e originalíssimos tipos de naturalistas bem conhecidos nos sertões, o Dr. Steaghmeyer andava à caça de insetos, criança grande, parecida com D. Pedro II, animada pela curiosidade da ciência. Que as borboletas sejam leves sobre a sua cova. A 3 de fevereiro de 1915, o impaludismo se manifestou veemente em Marques de Souza. Diz a nota do caderninho:

Passei o dia inteiro com febre e dizem que delirei, mas felizmente, agora, à noite, me acho melhor.

Escreve a 12:

Às 5 e 10 sigo e acampo no córrego do Borá. Estou ansioso por chegar ao Ananás. Já fiz um percurso de vinte e duas léguas.

No dia seguinte o Diário recolhe a nota seguinte:

Hoje é sábado e sábado de Carnaval. Ah! quantas saudades sinto do Rio e especialmente dos meus! As meninas divertir-se-ão? Metido no meu toldo, com feridas, quase sem poder me sentar e ameaçado de um temporal grande, pois venta muito. Que tarde triste a de hoje! Sombria, nublada, triste… Após a chuva, o pessoal regressou do serviço e todo ele está silencioso.

A 15 de Fevereiro, na margem esquerda do Ananás, o Tenente Marques de Souza se encontra com o Coronel Rondon. Visitaram ambos quatorze roças de índios, abandonadas. O Coronel mostrou ao auxiliar árvores ainda derrubadas com machados de pedra. Ao chegar ao Campo dos Mangabas foram até o lugar onde existiram as grandes malocas dos Nhambiquaras.

Encontraram muitos ossos de antas, veados, etc. Quanto às malocas, nenhum vestígio delas havia, a não ser o local, muito limpo. Descobertos, os índios incendiaram as aldeias, destruíram as roças e mudaram-se para longe. O Coronel Rondon e o Tenente Marques de Souza almoçaram lautamente: feijão, arroz, farinha, doce e chá. Diz o Diário:

Conversamos muito à noite, e eu guardo para sempre a lembrança desta visita, deste último contato com um civilizado.

A 16 de fevereiro, o Tenente Marques de Souza avistava, pela última vez, os civilizados. Dentro em breve menciona, no Diário, este doloroso estado d’alma:

Só concilio o sono às 12 ou 1 hora e assim mesmo de vez em quando acordo. Fico em um estado de desespero horrível. Há momentos agradáveis nesta vida de sertão, mas em compensação nos momentos de amargura, de aborrecimento, sofre-se mais, muito mais do que em outro qualquer lugar. Um minuto de padecimento parece uma hora, talvez seja devido à falta de um consolo, talvez devido à ausência de uma pessoa amiga.

O sertanista militar experimentou as agruras dos rios troncados de árvores, atravessando-os de margem a margem, dos igarapés de voltas caprichosas, tornando difíceis as manobras das ubás, as mordidelas das abelhas, dos mosquitos de má casta, das terríveis mutucas, das teimosas “birucinhas”. Adiante, adiante. Eis, porém, pela frente uma cachoeira dificílima de transpor. Os borrachudos, os carapanãs, as abelhas, as formigas atacam a expedição, confederadas para a mordedura e para o suplício da pele.

O pessoal anda com os pés enrolados em trapos e com a cabeça coberta por um pano do qual só saem os olhos.

Numa certa cachoeira, a expedição Marques de Souza perdeu as suas ubás, arrebatadas pela corrente, com grave risco da vida dos tripulantes. Que luta para encontrar árvore de porte a ser com ela construída nova embarcação! Escasseavam os gêneros e quase as coragens. A expedição metia dó. Não havia caça. Três caçadores conseguiram apenas abater um jacuzinho ([11]) e um uruzinho ([12]). Comia-se farinha e bebia-se café. Enfim se conseguiu nova ubá, talhada num cajueiro de dezesseis e meio palmos de roda. Mas a luta prosseguia. Não se andava mais de duas horas por dia, Ora saltos, ora corredeiras, a luta do palmo a palmo, do homem contra o obstáculo, o obstáculo da natureza bravia.

O Tenente Marques de Souza expandiu-se no seu Diário em página íntima, escrita em pleno deserto do Oeste brasileiro, num domingo. Marques de Souza via a mãe e as irmãs se despindo para ir à rua, o que chamou pitorescamente “a luta do vestuário para a missa”; os irmãos se dirigindo para o banho de mar. O almoço, o jantar, a palestra doméstica, tudo perpassou diante do explorador, perdido no mato, como se estivesse em presença de uma fita cinematográfica. Isto, porém, observa, “não denota fraqueza de ânimo”. Apesar de doente, o mais doente dentre todos:

eu sou o mais alegre, que de vez em quando dirige frases de entusiasmo, de gracejo, sem ferir a disciplina, procurando sempre animar todos para a continuação da viagem.

Animar todos, tarefa difícil, por exemplo, a 17 de maio de 1915, quando a expedição só pôde viajar trinta minutos! Foi obrigada a parar acima de grande salto com mais de oito metros de altura.

Fez-se a exploração por terra e viu-se a impossibilidade de varar as canoas. Afinal, depois de uma trabalheira insana para salvar as embarcações, para carregá-las, a expedição venceu, alimentada apenas à castanha e sofrendo as consequências de tal alimentação. De salto em salto lá ia o grupo sertanista, verdadeiros filhos de Eva, gemendo e chorando naquele vale de horrores. Escreve o Tenente Marques de Souza:

Que cousa horrível este rio, Não viajamos (a 26 de maio de 1915) mais de dez minutos!! Assim, quando chegaremos ao Madeira?!

No dia 27 assinalava no Diário:

43° Acampamento – Estamos acampados abaixo do último salto. O do centro tem dois metros de altura e os outros regulam ter metro e meio cada um. A passagem dos dois últimos é muito perigosa, mas tenho fé em Deus que nada nos há de acontecer. O lugar é como atrás; todo montanhoso, mas logo abaixo do nosso acampamento é plano, a meta melhora e não se veem morros para a frente. Felizmente, hoje, almoçamos peixe e o pessoal jantou macaco. Eu só comi um pouquinho de arroz com castanha, pois, me sinto mal.

A 28 de Maio, pela manhã, a expedição tentou passar as ubás. A grande, logo ao entrar num paraná do primeiro salto, tomou impulso, devido à corrente, largou-se o cabo, e a embarcação parou num remanso. Arrebentara toda a proa; o banco do centro abriu-se, assim como o fundo, fazendo um pouco d’água. A ubá pequena nimbem sofreu avarias. Eram dez horas da manhã. Às duas da tarde já se derrubara um cajueiro para fazer outra ubá.

Enfim, Deus é grande e não nos desamparará. São mais quatro dias perdidos!

Eis as últimas palavras do Diário do Tenente Marques de Souza. De então por diante só se soube dele quando, em Manaus, surgiram homens da expedição, relatando ter Marques de Souza perecido a golpes de flechas desferidos por índios da tribo dos Araras, selvícolas muito hostilizados pelos seringueiros.

Marques de Souza, segundo narraram os informantes, dirigiu-se aos selvagens com palavras amigas e de paz, recebendo a morte como resposta. Tinha trinta e um anos. Era o enlevo, a esperança, o arrimo de numerosa família; o ídolo, a felicidade, o futuro de uma noiva.

A sua missa na igreja da Candelária foi cerimônia inolvidável. No altar estava o irmão. D. Leandro Menescal Marques de Souza, monge beneditino, comovido, tristíssimo.

Devia ser o celebrante próximo do casamento fraterno. Rezava-lhe por alma. Sentia-se-lhe a dor sob o pesadume das vestes negras.

O Tenente Marques de Souza esperava os véus de sua noiva. Ella tinha véus, em lágrimas, nos olhos.

O monge levantou a hóstia. Os dedos tremiam ao sustentá-la. Quando findou o sacrifício, e literalmente o era, encaminhou-se para a sacristia como quem não poderia, com os paramentos, despir uma grande dor.

Há, dizem-me, numa das casas do Congresso um projeto favorecendo um pouco os herdeiros do intrépido e malogrado sertanista. Quem votar por ele, se erguerá do seu lugar pelo Brasil reconhecido a quem tanto fez pelo Brasil desconhecido. (RTIC)

Olavo Bilac.

O Caçador de Esmeraldas
(Olavo Bilac)

III

[…] O Sertanista ousado agoniza, sozinho…
Empasta-lhe o suor a barba em desalinho;
E com a roupa de couro em farrapos, deitado,
Com a garganta afogada em uivos, ululante,
Entre os troncos da brenha hirsuta, ‒ o Bandeirante
Jaz por terra, à feição de um tronco derribado […]

IV

[…] Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!
E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás! […]

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 13.10.2021 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

RTIC, 1918. O Tenente Marques de Souza ‒ Ceará ‒ Fortaleza ‒ Revista Trimestral do Instituto do Ceará ‒ Tipografia Minerva, Tomo XXXII, ano XXXII, 1918

 (*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Senha: do latim signum – sinal. Destino, fado, sorte. (Hiram Reis)

[2][2]  Boscarejos: habitantes dos “bosques” ou das matas. (Hiram Reis)

[3]    Rútilo: brilhante. (Hiram Reis)

[4]    Passadio: alimento diário. (Hiram Reis)

[5]    Igarité: embarcação cargueira com capacidade de até 2 toneladas, movida à remo, sirga ou motor. (Hiram Reis)

[6]    O Monge de Cister: do escritor Alexandre Herculano, tendo Vasco como personagem central, foi publicado em 1848. É um romance histórico que retrata Portugal do século XIV, durante o reinado de D. João I (1385-1433), com ênfase especial no ano de 1389. (Hiram Reis)

[7]    Só: deserto, ermo. (Hiram Reis)

[8]    Abrolhada: que apresenta muitas dificuldades, obstáculos; árdua; difícil; espinhosa. (Hiram Reis)

[9]    Apesarado: agoniado. (Hiram Reis)

[10]  Guilherme Tembel Meyer: personagem do livro “Inocência” de Visconde de Taunay. (Hiram Reis)

[11]  Jacuzinho: Penelope obscura. (Hiram Reis)

[12]  Uruzinho: Odontophorus capueira. (Hiram Reis)

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