A Terceira Margem – Parte CCCXIV

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 3ª Parte – XXII

Balsa Roosevelt – “Estabilizadores” de Buriti.

Ten Marques (KM 100) – KM 252 – VI  

29 a 31.03.1914  

– Relata Rondon-  

29.03.1914 ‒ Na manhã de 29 dividimo-nos em três turmas: a primeira, com o Sr. Roosevelt, Cherrie e Dr. Cajazeira, ficou no acampamento [o 21°]; a, segunda, dirigida pelo Ten Lyra e Sr. Kermit, encarregou-se do trabalho de descer as canoas; e a outra acompanhou-me, para o reconhecimento do caminho terrestre. Segui no rumo de NNO, cortando pequenos espigões que se lançam para o Rio; atravessei o Vale de uma cabeceira de pouca importância e em seguida comecei a subir pela encosta do monte.

Chegando ao alto, às 10h30, verifiquei que o barômetro acusava a pressão de 742,5 milímetros, correspondente à altura de 104 metros em relação ao nível do 21° acampamento. Por esta avaliação, o cume do morro, onde nos achávamos e o Salto Navaité distante dali mais de cem quilômetros, estavam situados por tal forma, que a reta imaginária traçada de um para o outro seria horizontal; portanto, ao longo de todo o percurso feito desde aquele Salto até a Foz do Ribeirão Cherrie, havíamos descido, de cachoeira em cachoeira, tanto como desceríamos em poucos, minutos do alto deste morro ao nosso 21° acampamento.

Desejoso de ver o panorama que se podia descortinar deste alto, mandei derrubar algumas árvores do lado do Norte, no lugar em que a encosta desce abruptamente, formando despenhadeiro. Terminada a derrubada, puderam as nossas vistas alongar-se até o longínquo horizonte, abrangendo belíssimo quadro em que se destacava o dorso escuro da serra e embaixo, coleando entre montanhas, até desaparecer por detrás delas, na direção do Norte, o Rio que vínhamos descobrindo com tantas fadigas e que agora se nos afigurava reduzido às insignificantes proporções de pequeno ribeiro.

Prosseguindo no serviço de abertura do caminho, alcançamos, ás 14h30, a margem do Rio, abaixo do último salto da cachoeira, onde deveríamos estabelecer o nosso 22° acampamento, distante 2.250 m do anterior. Por esse caminho fizeram os nossos valentes caboclos o transporte de toda a bagagem da Expedição, trabalhando para isso, durante os dias 30 e 31; no último estávamos instalados no novo acampamento. (RONDON)

– Relata Cherrie – 

29.03.1914 ‒ O Cel Rondon passou o dia com um Grupo de homens abrindo uma trilha que contornava a garganta pedregosa, subindo e descendo os morros até um local a jusante da série de seis Quedas. Era preciso manter uma distância razoável do Rio, tendo em vista que consideramos impraticável e muito perigoso abrir uma trilha ao longo das margens íngremes. No ponto mais alto da trilha, alcança-se uma ponta rochosa de onde se tem uma ampla vista da cadeia de montanhas e vales vestidos com luxuriante mata tropical com o Roosevelt partindo como uma flecha de luz sobre as montanhas distantes…

Desta posição, é absolutamente impossível determinar se o Rio volve para a direita ou para a esquerda, cortando sua passagem através das montanhas até a planície logo adiante, não pairam dúvidas sobre isso. Kermit e o Ten Lyra com alguns homens tentavam levar as canoas à sirga para jusante das Cachoeiras. Eles conseguiram, até agora, passar apenas uma canoa além da terceira Queda. […] Mais importante de tudo, porém, é que o Coronel Roosevelt não saiu do Acampamento hoje. (CHERRIE)

– Relata Viveiros –  

29 a 31.03.1914 – E passaram-se os últimos dias de março transpondo, penosamente essas quedas. Mas que vista maravilhosa! Montanhas a se estender em cadeia, vestidas com luxuriante vegetação tropical. Na base da garganta – onde seria o próximo pouso – o Rio, depois de um remanso, corria quase em linha reta formando uma fita branca. […]

Os homens estavam cada vez mais fracos: Kermit com febre, Lyra e Cherrie com disenteria. Tentando Roosevelt pôr em posição uma canoa, machucou gravemente uma perna. E não foi só; sobreveio-lhe tremendo acesso de febre e foi preciso interromper a viagem. Roosevelt chamou-me e disse:

–  Roosevelt: A Expedição não se pode deter. Por outro lado, não me é possível prosseguir. Partam e deixem-me!

Agitava-se, irritado com a resistência que eu lhe opunha. Encontrei, afinal, um argumento:

–  Rondon: Permita-me que pondere que a Expedição se chama Roosevelt-Rondon e que não é, por isso, possível separarmo-nos.

Venceu ele a crise graças aos cuidados do Dr. Cajazeira que se desdobrava no sentido de manter o equilíbrio sanitário da Expedição Científica Roosevelt-Rondon. (VIVEIROS)

– Relata Roosevelt – 

29 a 31.03.1914 – Os últimos três dias de março foram empregados em atingirmos a base daquele desfiladeiro encachoeirado. Lyra e Kermit, com quatro dos melhores remadores, manobraram as canoas descarregadas. O serviço, além de pesado e difícil ao extremo, era arriscado. As paredes da garganta eram tão empinadas que, em certos lugares, tinham eles que se equilibrar sobre estreitas beiradas da pedreira, para dali irem afrouxando a corda que sustinha as canoas. Ao mesmo tempo, Rondon escolhia o traçado para a picada a ser aberta para os carregadores e dirigia a baldeação das cargas. As margens pedregosas da garganta eram excessivamente inclinadas para que homens com cargas tentassem passar por ali. Em consequência, a picada teria que transpor a crista da morraria, subindo e descendo as vertentes íngremes de solo pedregoso e coberto de mata. Era tarefa penosa carregar pesadas cargas em semelhante percurso. […]

Não havia nas matas muitos seres vivos pequenos nem grandes. Os pássaros eram raros, embora de vez em quando os esforços incansáveis de Cherrie fossem recompensados por alguma espécie nova para a coleção. Descobrimos rastos de antas, veados e cotias; e, se dedicássemos alguns dias só a caçar, poderíamos talvez matar alguma coisa; mas as probabilidades eram muito incertas, a tarefa que desempenhávamos, por demais árdua e cansativa, muito grande o empenho de ganhar terreno, e pesando isso tudo não nos conformávamos em perder qualquer parcela de tempo dessa forma.

As caçadas haviam de ser feitas incidentemente. Semelhante selva quase impenetrável era da espécie que mais difícil se torna apanhar ainda mesmo as pequenas caças, que passam. Um casal de mutuns e um grande macaco foram mortos por Kermit e pelo Coronel. No dia em que o macaco foi trazido, Lyra, Kermit e seus quatro ajudantes tinham estado desde a madrugada até o pôr do Sol na aspérrima e por vezes perigosa lida entre as pedras, dentro d’água, encachoeirada, e por isso a carne fresca foi de grande oportunidade. A cabeça, os pés, a cauda e o couro foram cozidos para os cães famintos. A cada um de nós tocaram alguns bocados de carne, e como foram eles apreciados! […]

Durante aquela baldeação, o tempo nos favorecera. A época das chuvas já chegava ao seu termo. No último dia do mês [31], quando mudamos o acampamento para o extremo do desfiladeiro, tivemos um temporal com trovões e raios; mas depois não fomos importunados pela chuva até a última noite ali, ocasião em que choveu pesadamente, entrando água pelo toldo ao ponto de molhar minha cama e as cobertas. […]

No terceiro dia, Lyra e Kermit, com seus valentes e operosos remadores, depois de árduo labor, conseguiram descer cinco canoas pela pior das corredeiras até à queda alta. A sexta canoa, esguia e fraca, tivera o fundo arrombado nas pedras denteadas do encachoeirado.

Nessa noite, embora eu julgasse ter pendurado as roupas a salvo, os cupins e as formigas saúvas foram a elas e furaram um sapato, comeram uma perna da ceroula e rendilharam o meu lenço; agora eu nada tinha para substituir tudo o que fora destruído. (ROOSEVELT)

– Relata Cherrie – 

30.03.1914 ‒ Nossos gêneros e bagagem estão sendo transportados pela trilha até o Acampamento que fica a jusante das Quedas e Rápidos. O carregamento deverá, provavelmente, estar concluído até amanhã à noite. A passagem das canoas avançou até o início das últimas Quedas, onde um longo transporte por terra é necessário. Uma das canoas menores naufragou hoje, e teremos de realizar um esforço considerável para construir uma grande canoa.

Encontrei poucos bandos de pássaros esta manhã e, apesar disso, consegui para minha coleção uma dúzia de aves. A maioria delas é duplicada, mas, no entanto, preparei sete peles. Vários Gaviões-tesoura ([1]) sobrevoavam o topo dos morros. O Cel Rondon caçou diversos macacos e me deu 2 deles. Eram conhecidos como macacos-barrigudos e tinham um excelente sabor. Até os cães receberam uma generosa porção de cabeça, cauda, pés e vísceras. A altitude da passagem acima deste campo é de 106 m. (CHERRIE)

Kermit Roosevelt

01.04.1914 

– Relata Roosevelt –  

01.04.1914 – Neste dia, Lyra, Kermit e seus homens trouxeram as 5 canoas até o acampamento. Tinham efetuado em quatro dias um trabalho de incrível dificuldade e da máxima importância; à primeira vista, parecia absolutamente impossível evitarmos abandonar as canoas, quando vimos que o Rio se precipitava, encachoeirado, no fundo de um grotão entre paredões a pique. (ROOSEVELT)

02.04.1914  

– Relata Cherrie – 

02.04.1914 – […] O Cel Roosevelt falou-nos, mais tarde, depois da mudança do Acampamento 21 para o Acampamento 22. A travessia pelas montanhas foi extremamente penosa para ele, ele tinha problemas de coração, e quando chegou ao destino, estava totalmente fatigado. Quando chegamos ao novo Acampamento, ele deitou-se no chão por algum tempo para se recuperar. A alimentação deficiente, também, estava começando a afetá-lo. Esta manhã, as novas canoas foram unidas para formar uma balsa. As demais canoas foram carregadas separadamente. O Cel Roosevelt, os pilotos e remadores foram os únicos que embarcaram nas canoas. O restante de nós caminhou ao longo da margem. Uma hora depois de deixarmos o Acampamento e ter percorrido somente 2,70 km, chegamos a uma nova série de Rápidos que vão exigir o transporte de nossa carga por um longo trajeto. Em vez de deixarmos as montanhas para trás, de uma vez, como esperávamos, estamos profunda­mente encravados no meio delas.

O curso do Rio passa por um desfiladeiro rochoso e muito estreito, onde suas águas ganham velocidade e, ao encontrar qualquer obstáculo, tornam-se violentas e perigosas. As margens são muito íngremes e precipitam-se verticalmente até a beira d’água. Às vezes, tínhamos dificuldade de encontrar um caminho entre as paredes de rocha e o Rio. O transporte da bagagem foi complicado e nossa progressão muito lenta. As canoas individuais passaram descarregadas através dos Rápidos até este ponto, e a balsa permaneceu com mais da metade de sua carga.

Rondon, Lyra e Kermit foram adiante, reconhecer o terreno. Eles relataram a existência de vários Rápidos e pequenas quedas à nossa frente. […] (CHERRIE)

– Relata Rondon –  

02.04.1914 O Rio continuou a correr com impetuosa velocidade, encaixado entre morros pedregosos, obrigando-nos a transportar as cargas por caminhos penosos, verdadeiros trilhos de cabras, afim de possibilitar a descida das canoas pelas corredeiras. Assim percorremos 2.850 m, ao fim dos quais acampamos, próximo a alto penhasco, através do qual as águas haviam aberto profundo canal de paredões quase verticais, como se a rocha houvesse sido lavrada por operários canteiros. A exploração do caminho para contornar, pela esquerda, o enorme obstáculo criado por esse acidente foi realizada no mesmo dia e teve de prolongar-se até alcançar, a mais de 2.200 m, a raiz de um penhasco, onde terminavam as cachoeiras. Foi esse o lugar escolhido para instalarmos o nosso 24° acampamento, o qual esperávamos que seria conhecido como o da “Queixada de Anta”, visto termos encontrado ali um maxilar do conhecido paquiderme brasileiro. Infelizmente, uma grande desgraça nos obrigou, poucas horas depois a trocar essa denominação por outra. (RONDON)

– Relata Roosevelt –  

02.04.1914 – Mais uma vez arrancamos, perguntando-nos a nós mesmos se não iríamos encontrar novas corredeiras junto aos morros em frente, e se num lapso razoável de tempo estaríamos, como indicava o barômetro, em nível tão baixo que forçosamente jornadearíamos, ao menos por alguns dias, sem encontrar obstáculos.

Passáramos justamente um mês a vencer uma série ininterrupta de corredeiras e saltos. Durante esse mês, avançáramos apenas cerca de 110 km, descendo perto de 150 m – os números são aproximados, mas quase exatos.

Os primeiros quatro dias, antes de encontrarmos as primeiras corredeiras, e durante os quais percorremos cerca de 70 km, é claro que não estão incluídos, pois só me refiro à descida pelas corredeiras.

Perdêramos quatro canoas com que partimos, mais uma que havíamos construído, a vida de um homem, morrera um cão, cuja vida, com toda a probabilidade, salvara a do Coronel Rondon. Numa linha reta para o Norte, colimando nosso presumível objetivo, não havíamos percorrido mais de uns dois quilômetros por dia, à custa de esforços ingentes de toda a comitiva, de muito risco para alguns de seus membros, e de uma parcela de riscos e provações para todos. Muitos dos Camaradas estavam desanimados, o que era natural; e, em certas ocasiões, perguntavam a alguns de nós se esperávamos, realmente, sair daquela situação com vida; e precisávamos animá-los o melhor que podíamos.

Nossa rotina continuou a ser a mesma no correr de alguns dias. Não nos adiantávamos mais de três quilômetros diários. A maior parte da comitiva seguia a pé quase sempre; as canoas levavam as cargas até encontrarmos o alto de uma série de encachoeirados, que absorviam os dois ou três dias seguintes. O Rio corria precípite por uma garganta selvagem, um grotão ou abismo entre duas montanhas. Suas vertentes eram muito íngremes, simples paredões de rochas, embora em muitos pontos tão recobertos de vegetação luxuriante de árvores e arbustos que saíam das fendas e de musgo verde que dificilmente se via a rocha nua.

Rondon, Lyra e Kermit, que abriam a marcha, deram com uma pequena região plana, com uma praia de areias, e mandaram aviso para ali acamparmos, enquanto seguiam por várias horas a explorar o terreno à frente. As canoas foram descidas sem cargas, sendo estas transportadas com enorme sacri­fício pelas rampas da pedraria; esse caminho era tão difícil que achei duro percorrê-lo carregando somente minha carabina e o saco de cartuchos. Os explorado­res voltaram dizendo que as serras continuavam à nossa frente, havendo corredeiras até onde tinham chegado. Nossa única esperança era que se o aneroide não estivesse desarranjado, em breve nos acharíamos em terreno comparativamente plano. O pesadíssimo trabalho, sob regime de alimentação incompleta, es­tava influindo no físico e no moral dos Camaradas; Lyra e Kermit, além de seus outros serviços, trabalha­vam braçalmente tanto quanto eles. (ROOSEVELT)

03.04.1914  

– Relata Rondon –  

03.04.1914 – Na manhã de 3 começamos os nossos trabalhos: o Ten Lyra e o Sr. Kermit foram descer as canoas pela cachoeira, e eu fui abrir o caminho do varadouro. Este trabalho estava quase terminado e já uma terceira turma, dirigida pelo Sargento Paixão, havia iniciado o transporte das cargas, quando o canoeiro Luiz Correia veio avisar-me, de parte do Ten Lyra, que o Soldado Júlio, do 38° Batalhão de Infantaria, acabava de assassinar aquele Sargento. Deixei os homens da minha turma continuando o serviço que estávamos fazendo e acudi ao lugar da tristíssima ocorrência. Fui encontrar o corpo do meu inditoso camarada caído junto a uma grande árvore, pouco distante do ponto em que estavam acumulados os volumes da Expedição.

Ele havia sido atingido na axila direita, por bala de Winchester 44, que lhe causara morte imediata. Dirigi-me para o acampamento, onde se achavam o Sr. Roosevelt e o Dr. Cajazeira, que haviam tomado as primeiras providências, infelizmente infrutíferas, para socorrer o ferido e prender o assassino. Este, depois de praticado o crime, havia corrido para o interior da mata, onde desaparecera, levando a arma homicida. O criminoso era um indivíduo de organismo forte e sadio; nós o havíamos incluído na Expedição, porque a essas qualidades verificadas pelo Dr. Cajazeira na inspeção médica, feita em Tapirapuã, para a escolha do nosso pessoal, se reunira a de ter ele manifestado o desejo de nos acompanhar. Desgraçadamente, tão favoráveis aparências só serviam para esconder uma natureza moral das mais infelizes e que, para se revelar, nada mais esperava do que os obstáculos das primeiras cachoeiras.

Mas, quando pudemos descobrir as suas más quali­dades de caráter, a sua cobardia e completa inaptidão para secundar os contínuos esforços dos seus compa­nheiros de viagem, já estávamos tão adiantados no Rio, que impossível nos era desembaraçarmo-nos da sua presença e forçoso foi que nos resignássemos a tê-lo conosco até o fim dos nossos trabalhos. No entanto, nenhum de nós suspeitava que teríamos de lamentar as consequências de um ato tão perverso como aquele que acabou praticando, porque o traço mais acentuado da sua triste alma era a pusilanimidade, tanto para enfrentar os perigos, como para sustentar alguma ação seguida e enérgica. Na Expedição, ninguém contava com o auxílio da sua força e muito menos da sua vontade. No entanto, não nos era lícito deixar de lhe dar alguma ocupação. Ele estava, pois, empregado no transporte dos volumes e mais do que de costume, requintava no desânimo e desleixo com que fazia o serviço.

O Sgt Paixão repreendeu-o por isso. Ele, sem dizer uma palavra, foi ao acampamento, apoderou-se de um dos quatro clavinotes ([2]) da Expedição, voltou ao lugar em que se achava o Sargento e, traiçoeira­mente, praticou o assassinato.

Já dissemos que o criminoso se refugiara na mata, levando consigo aquele clavinote. Havia, pois, motivo para recearmos que ele viesse a praticar novos crimes, e para isso impedir era forçoso seguir-lhe a pista, desarmá-lo e, se fosse possível, prendê-lo. Neste sentido, dei as necessárias ordens ao canoeiro Antônio Correia e ao índio Antônio Pareci, os quais, seguindo pelos rastros do fugitivo, não tardaram a descobrir a arma, abandonada ao primeiro embaraço que ele encontrou à rapidez da sua fuga por entre a cerrada vegetação da floresta. Tranquilizados a esse respeito, desistimos do quase impraticável propósito de perseguir o assassino, para aprisioná-lo, e voltamos todas as atenções para os funerais do nosso pobre companheiro de trabalho.

O Sgt Paixão, do 5° Batalhão de Engenharia, era um veterano das campanhas travadas pela Comissão das Linhas Telegráficas contra as asperezas do Sertão do planalto dos Pareci. Havia comandado um posto militar por mim instalado no Juína, para servir de ponto de apoio à marcha das nossas tropas que se internavam para além do Juruena, em demanda da Serra do Norte. Aí, teve ele a feliz oportunidade de receber em 1911, a primeira visita amistosa dos representantes do grupo de Nambiquara do Vale daquele Rio, e soube conduzir-se tão bem nessa ocasião que, dentro de pouco tempo, conseguiu conquistar a confiança dos silvícolas, adquirindo grande prestígio sobre eles.

Do posto do Juína, passou Paixão a servir no Acampamento Geral da Construção, onde prestou relevantes serviços, que lhe mereceram a graduação de Sargento, porque no quadro efetivo ocupava o lugar de Cabo. Alguns anos atrás havia terminado o tempo da sua primeira praça nas fileiras do Exército e logo em seguida se reengajara; era nesta qualidade que ele continuava a prestar ao 5° Batalhão de Engenharia, à Comissão das Linhas Telegráficas e agora à Expedição Roosevelt-Rondon, o concurso do seu trabalho e da sua inexcedível boa vontade, servindo de exemplo aos seus Camaradas, pelo espírito de disciplina que imprimia a todos os seus atos e sobretudo pela moralidade da sua vida de Soldado e de Homem.

A sepultura foi aberta no mesmo lugar em que ele caíra, ao lado da estrada, com a cabeceira para a montanha e os pés para o Rio. Depois, o Sr. Roosevelt, eu, o Ten Lyra e o Dr. Cajazeira carregamos o corpo do nosso inditoso companheiro e depositamo-lo no fundo do modesto jazigo, assinalado pela cruz simbólica da sua crença religiosa. Completamos estes piedosos deveres com as salvas do funeral militar, nas quais também tomou parte o Sr. Roosevelt, secundado por mim, pelo Sr. Cherrie e dois soldados.

Foi este doloroso acontecimento que nos fez adotar nova denominação para assinalar a serra e a cacho­eira que tiveram o mau destino de lhe servirem de causa indireta e de teatro: ambas receberam o nome de Paixão, como última homenagem por nós devida ao companheiro, cuja dedicação à causa comum, devotamento aos seus chefes e bondade para com os seus companheiros e subalternos, conquistou, não só a estima, mas também a gratidão dos descobridores do Rio Roosevelt. Apesar dos trabalhos de mudança do acampamento terem prosseguido com grande atividade, não foi possível termina-los nesse dia.

Por isso, no extremo do varadouro, abaixo das cachoeiras, só pudemos armar um ligeiro bivaque, com parte das nossas bagagens. Às 17h30, ali chegava o Sr. Roosevelt com muito esforço e afrontado do caminho, que subia a pique a encosta de montanhas pedregosas; aquele violento exercício havia sido excessivo para o seu estado de saúde e fazia-o sofrer horrivelmente. (RONDON)

– Relata Roosevelt – 

03.04.1914 – […] Muitos desastres têm sido frequentes em Expedições na América do Sul. A primeira tentativa recente para descer um dos Rios desconhecidos que vão ao Amazonas, partindo do altiplano Brasileiro, resultou em um desses desastres. Foi empreendida em 1889 por uma comitiva tão grande como a nossa, sob a direção de um oficial brasileiro, o Cel Engenheiro Teles Pires. Ao descer uma corredeira, perderam tudo: canoas, víveres, remédios, ferramentas – perda completa. As febres prostraram-nos e depois veio a fome. Pereceram todos, exceto um oficial e dois homens que, meses depois, foram socorridos. Recentemente, na Guiana, um veterano dos Sertões, André, perdeu dois terços de sua gente, vitimados pela fome. A verdadeira exploração do Sertão bruto é tão perigosa quanto a guerra. A conquista da natureza selvagem exige vigor excepcional, audácia e intrepidez, e custa ao conquistador preço elevado em saúde e vida. […]

Sob a influência de tais fatores, a maldade que existe no íntimo de alguém vem à tona. Nesse dia, ocorreu uma tragédia singular e terrível. Um dos Camaradas, por nome Júlio, de puro sangue branco e a cujo respeito já falei, era um robusto indivíduo que insistira de modo importuno em ir com a Expedição, gozando bom nome como trabalhador.

Mas, como tantos outros de classe mais elevada que a sua, não fazia ideia do quanto importava essa Expedição em sacrifícios e, sob a pressão da fadiga, provações e perigos, sua natureza se revelou em seu fundo real de egoísmo, ferocidade e covardia. Ele se esquivava a qualquer serviço, alegando estar doente, ninguém conseguindo que realizasse seu quinhão de trabalho; apesar disso, diferente de seus parceiros briosos, estava sempre com descaramento, a pedir favores. Kermit era o único dentre nós que fumava, e sempre dava um pouco de fumo a alguns dos Camaradas que especialmente trabalhavam com ele.

Os bons rapazes nunca o pediam, porém Júlio, que se negava a qualquer serviço, pedia sempre e sempre em vão. O Coronel Rondon, Lyra, Kermit, cada um por sua vez, tentaram fazê-lo trabalhar, e, para dele conseguirem alguma coisa, era preciso ameaçá-lo de o deixarem no Sertão. Deixava sua tarefa para ser feita pelos companheiros, ainda por cima furtando-lhes os alimentos assim como o nosso.

Numa Expedição daquelas, o furto de alimentos é crime somente inferior ao assassínio, e, pelo direito, deveria como tal ser punido. Não podíamos confiar nele para tirar palmitos ou juntar cocos, pois ficaria ausente a comer, quando deveria trazer para o rancho comum. Finalmente, em várias ocasiões, os próprios Camaradas apanharam-no a furtar-lhes a comida. Só ele, de toda a comitiva, graças ao alimento que furtava, tinha conseguido manter-se gordo e vigoroso. Um de nossos melhores homens era um negro reforçado, de nome Paixão – pronuncia-se “Paishon”, Cabo de esquadra que servia como Sargento no Batalhão de Engenheiros. Tinha ele, por sinal, a calça reduzida a frangalhos, andando só com um par de ceroulas velhas, até que eu lhe dei as minhas de sobressalente, quando reduzimos as bagagens.

Era severo observador da disciplina, e, tendo apanhado, uma tarde, Júlio a furtar comida, esmurrou-o na boca. Júlio foi ter conosco, queixando-se, contraídas as feições, de medo e ódio perverso; mas, investigado o caso, foi-lhe declarado que ele recebeu castigo muito brando. Os Camaradas tinham 03 ou 04 carabinas, que nem sempre andavam com seus donos. Naquela manhã, ao começo da baldeação, Pedrinho surpreendeu Júlio furtando um pedaço de carne seca do pessoal. Pouco depois, Paixão censurou-o pelo fato de, como sempre, ficar para trás.

Nessa ocasião, havíamos chegado ao lugar onde as canoas estavam amarradas ao barranco e em seguida foram sendo descidas. Pedrinho estava ainda no acampamento que havíamos deixado, Paixão tinha acabado de trazer um volume que arriou ao chão com sua carabina ao lado, voltando após pela picada em busca de outro volume. Júlio chegou, arriou sua carga, apanhou a carabina e voltou para a picada resmungando, mas sem mostrar exaltação. O fato não nos causou estranheza, pois estava sempre a resmungar; e por vezes algum dos homens via um macaco ou uma ave grande e procurava matá-los, de modo que não era surpresa ver um homem armado.

Um minuto depois, ouvimos um tiro, e logo em seguida três ou quatro Camaradas chegaram a correr pela picada, contando que Paixão estava morto, atirado por Júlio. O Coronel Rondon e Lyra achavam-se à frente; mandei avisá-los, deixei Cherrie e Kermit onde estavam, vigiando as canoas e provisões, e segui pela picada com o Médico – homem calmo em absoluto, armado de revólver, mas sem carabina – e dois Camaradas. Logo passamos pelo cadáver de Paixão. Jazia emborcado num charco de sangue no lugar onde caíra trespassado no coração.

Eu temia que Júlio houvesse enlouquecido e pretendesse fazer mais vítimas, antes de morrer, começando por Pedrinho, que estava só e desarmado no acampamento. Assim, prossegui com os meus companheiros, olhando atento para todos os lados; mas, quando chegamos ao acampamento, o Médico, tranquilo, dirigiu-se a mim, dizendo:

Minha vista é melhor que a sua, Coronel; se ele aparecer eu lho mostrarei, pois o senhor está com carabina.

Todavia, não o achamos, e os outros logo nos alcançaram com a boa notícia de haverem encontrado a arma homicida. O assassino ficara de tocaia, na picada, e matara sua vítima quando esta chegara a alguns passos de distância, com premeditação deliberada e maligna. Seu ódio mortal, então evidente, cedeu o passo à covardia inata e, ouvindo talvez alguém vir pela picada, tomou-se de terror e afundou na selva. Uma árvore lhe havia arrancado das mãos a carabina. Suas pegadas indicaram que, após poucas dezenas de metros, voltara, sem dúvida, à procura da arma, mas fugira de novo, certamente porque então o corpo da vítima já fora encontrado. Era um problema saber se ele conseguiria ou não atingir vivo as Aldeias dos índios, seu objetivo provável.

Não era ele indivíduo acessível ao remorso, que nunca é sentimento vulgar, mas, era indubitável que o matador estaria num inferno vivo, com a fome e a febre a espreitar-lhe os passos, enquanto ele abria caminho pela vasta desolação do matagal. França ([3]), o cozinheiro, citando um provérbio que provém da triste filosofia do povo, dizia: “Ninguém conhece o coração dos outros”; e em seguida afirmava, com profunda convicção, com uma crença entranhada no supranatural, que até então eu nunca encontrara:

‒  França: O Paixão está seguindo Júlio agora, e o seguirá sempre, até Júlio morrer; Paixão caiu de bruços, sobre as mãos e os joelhos, e, quando um morto cai assim, sua alma acompanha o assassino enquanto este viver.

Não tentamos perseguir o criminoso. Não podíamos legalmente matá-lo, embora fosse ele um Soldado que a sangue-frio e premeditadamente assassinara um colega. Se estivéssemos próximos de algum centro civilizado, faríamos tudo para prendê-lo e entregá-lo à justiça. Mas estávamos no Sertão ermo e não podíamos calcular quantas semanas de jornada ainda nos aguardavam. Os víveres escasseavam, as doenças começavam a atacar o pessoal do trabalho, cuja coragem e resistência física estavam gradualmente cedendo. Nosso primeiro dever era salvar a saúde e as vidas dos membros da Expedição que honestamente estavam realizando e tinham ainda de realizar tanto trabalho penoso e cheio de perigos.

Se prendêssemos o delinquente, precisaríamos vigiá-lo dia e noite. Numa Expedição em que sempre havia armas carregadas à mão, continuamente haveria oportunidade e tentação para ele, de se apoderar de víveres e armas para fugir, talvez fazendo antes outras vítimas. Não poderia, algemado, subir e descer as ladeiras pedregosas; nem ficar algemado nas canoas, onde os riscos de afogamento, pelo fato de alguma canoa virar, estavam sempre presentes. A vigilância a um preso seria um severo castigo adicional para os pobres homens fiéis já tão fatigados pelo excesso de trabalho. A Expedição corria perigo e seria prudente aproveitar todas as circunstâncias que pudessem garantir-lhe o bom êxito.

Que o criminoso morresse ou vivesse no deserto, era coisa que não tinha importância em face do nosso dever de tudo fazermos para a segurança do resto da comitiva. Nos dois dias seguintes ([4]), estivemos sempre precavidos contra sua volta, pois poderia com facilidade matar mais alguém rolando grandes pedras sobre qualquer dos homens que trabalhavam nas faldas pedregosas ou no fundo da garganta. Não o vimos até a manhã do terceiro dia. Tínhamos passado a última das corredeiras do grotão e as quatro canoas seguiam Rio abaixo, quando apareceu ele atrás das árvores da margem, bradando que desejava entregar-se e ser levado para bordo – pois aquele facínora era no fundo um consumado poltrão, um curioso misto de ferocidade e covardia.

A canoa do Coronel Rondon seguia muito à frente: ele não parou nem respondeu. Eu procedi do mesmo modo com as canoas da retaguarda, pois não tinha a menor intenção de recolher o assassino a bordo, a menos que o Coronel Rondon me declarasse que deveria fazer isso no cumprimento de seu dever de Oficial do Exército e servidor do governo do Brasil.

Na primeira parada, o Coronel Rondon veio a mim e declarou-me que essa era sua própria noção do dever, mas que não se detivera a fim de consultar-me primeiro, como Chefe da Expedição.

Respondi que, pelas razões enumeradas acima, acreditava que não seria justo para os homens corretos da comitiva, que nós puséssemos em risco sua segurança levando o assassino conosco, e que, se me coubesse a responsabilidade, eu me recusaria a recebê-lo; porém que ele, Cel Rondon, era o oficial Comandante tanto do assassino como de todos os Praças e Oficiais do Exército da Expedição, sendo, por sua vez, responsável perante seus próprios chefes e perante as leis do Brasil; e que, em face dessa responsabilidade, devia ele proceder como lhe ditasse o sentimento do dever.

De acordo com isto, do primeiro ponto de pernoite, ele mandou voltarem dois homens, peritos batedores de mata, a fim de o encontrarem e trazerem preso. Mas não o acharam.

A narração acima, de todos os fatos ligados ao assassínio, foi lida e aprovada como exata pelos seis membros da Expedição.

[…] Quando verificamos ter fugido o criminoso, regressamos ao local do delito. O morto estava com um lenço a cobrir-lhe o rosto. Foi sepultado junto ao lugar em que caiu. Os Camaradas cavaram a machado e facões uma cova rasa e, com todo o respeito e carinho, ali depositamos o corpo que, apenas meia hora antes, estava tão cheio de vida. Eu e o Coronel Rondon o levantamos, depositando-o no túmulo. Uma cruz ficou assinalando esse lugar, e demos uma salva de tiros em honra ao bravo e leal Soldado que caíra no cumprimento do dever. Deixamo-lo em seguida, para sempre, sob a abóbada das grandes árvores, junto ao Rio solitário. Naquele dia só percorremos metade da extensão das corredeiras. Não havia lugar bom para acamparmos e somente nas abas de um morro achamos uma estreita faixa pedregosa, onde era possível armar as redes e cozinhar. Minha cama de campo ficou num plano inclinado; tinha sido tão sacudida, que parecia uma centopeia desconjuntada. […] (ROOSEVELT)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 01.10.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

CHERRIE, George Kruck. Dark trails: Adventures of a Naturalist ‒ USA ‒ New York ‒ G. P. Putnam’s Sons, 1930.

RONDON, Cândido Mariano da Silva. Conferências Realizadas nos dias 5, 7 e 9 de Outubro de 1915 pelo Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon no Teatro Phenix do Rio de Janeiro Sobre os Trabalhos da Expedição Roosevelt‒Rondon e da Comissão Telegráfica ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ – Tipografia do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1916.

ROOSEVELT, Theodore. Nas Selvas do Brasil ‒ Brasil ‒ São Paulo, SP ‒ Livraria Itatiaia Editora Ltda ‒ Editora da Universidade de São Paulo, 1976.

Filmete 

https://www.youtube.com/watch?v=tYkH5YO38IQ&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=40  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Gaviões-tesoura: Elanoides forficatus.

[2]    Clavinotes: pequenas carabinas.

[3]    França: gaúcho Pedro de França Filho.

[4]    Dois dias seguintes: 05 a 06.04.2014.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*