A Terceira Margem – Parte CCCVI

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 3ª Parte – XIV

Correio Braziliense, n° 14.950, 23.04.2004

Os Kimberlitos da TI Cinta-Larga – I  

Isto É, n° 1.731 – São Paulo, SP
Quinta-feira, 05.12.2002

Lá Está a Riqueza que os Estrangeiros e os Políticos Querem Tirar do meu Povo. Tudo o que Saiu é Pouco. Os Garimpeiros Estão Somente Arranhando a Rocha Maior [Kimberlito], Abaixo do Igarapé, onde está o Grosso Do Diamante. [Tataré Cinta-Larga]  

Os kimberlitos são a mais importante fonte de diamantes e sua existência só foi comprovada nos idos de 1866. Kimberlito é uma homenagem a Kimberly, na África do Sul, onde a existência destas miraculosas chaminés foi comprovada pela primeira vez. A maioria dos diamantes que encontramos hoje formaram-se há milhões de anos quando violentas erupções de magma trouxeram-nos até a superfície através das chaminés de kimberlito.

Estas chaminés foram criadas à medida que o magma emergia desde as mais profundas fissuras da Terra empurrando os diamantes e outros minerais para a superfície da crosta terrestre. Após o magma esfriar ele deixava atrás de si as características veias cônicas da rocha de kimberlito.

Embora alguns de nossos mais ilustres magistrados manifestem-se contrários à exploração mineral nas TI os caciques Cinta-Larga continuam zombando da Lei e gerindo suas terras como se não fizessem parte de nosso País.

A prepotência se deve simplesmente à ausência de medidas coercitivas que os atinjam. A criminosa impunidade no assassinato de mais de uma centena de garimpeiros, a ingerência até mesmo em terras que não lhes pertencem, os “contratospermitindo o garimpo e a exploração madeireira, sem qualquer controle estatal, atentam contra tudo e contra todos.

A perpetuar-se este cenário estaremos permitindo que os nefastos caciques Cinta-Larga transformem, progressivamente, Rondônia numa terra sem lei. (ISTO É, n° 1.731)

Correio Braziliense, n° 14.950 – Brasília, DF 

Sexta-feira, 23.04.2004 

Massacre no Garimpo foi Aviso, diz Cacique  

Os principais líderes da tribo cinta-larga, da reserva Roosevelt, em Espigão D’Oeste, Rondônia, assumiram ter assassinado os 29 garimpeiros que buscavam diamantes na terra indígena. Eles afirmaram que o massacre foi “um aviso” do que pode ocorrer na área. Segundo confirmou o cacique Pio Cinta-Larga, as mortes aconteceram pelo fato de os mineradores não terem obedecido à ordem de não entrar na reserva. “Isso foi um ‘aviso’, porque os guerreiros estão cansados de tirar o pessoal do garimpo proibido”, disse Pio, em entrevista. “Os garimpeiros ficam teimando”.

O cacique defendeu a liberação do garimpo apenas para os índios, mas ele próprio e outros três líderes da tribo estão sendo processados por formação de quadrilha e extração ilegal de minério. Os índios confirmaram o que a Polícia Federal [PF] já sabia, mas não descreveram como ocorreram as mortes. Os 29 mortos estavam entre os mais de cem mineradores que extraíam ilegalmente diamantes na área chamada Grota do Sossego. “Nós não queremos que eles invadam mais. O pessoal entra na área sabendo que é proibido”, afirma o cacique, um dos principais líderes da Roosevelt.

Depoimento 

Pio Cinta-Larga será um dos índios que a PF irá chamar para depor, provavelmente depois de sobreviventes serem ouvidos na próxima semana. “Antes, é necessário acabar com o clima de tensão. A seguir, será iniciada a fase de depoimentos”, afirma o Delegado Federal Mauro Spósito, Coordenador-geral de operações especiais de fronteira da PF e responsável pelas investigações. O cacique cinta-larga responde a quatro processos na Justiça Federal de Rondônia e já foi indiciado em inquéritos na PF nos quais é acusado de ligação com o empresário Marcos Glikas, preso em Porto Velho por contrabando de diamantes.

No inquérito, Pio e os caciques Raimundo, Oita e João Bravo são citados como responsáveis pelas transações com o empresário, que seria o líder de uma grande organização no País.

Outro cacique, Dirceu Cinta-Larga, afirmou que a Fundação Nacional do índio [FUNAI] não tem culpa pelas mortes de garimpeiros na Roosevelt “A FUNAI não tem culpa, pois foram os próprios índios que fizeram esse serviço [as mortes]” disse.

Hostilidade 

O coordenador da Força-Tarefa do governo na região, Walter Blós, acredita que os índios foram provocados antes de matar os mineradores. Ontem, dez dos 29 corpos dos garimpeiros assassinados na Semana Santa foram liberados no Instituto Médico Legal. Os exames comprovaram que eles foram mortos por tiros.

Os demais corpos deverão ser reconhecidos por exames de DNA, segundo o IML Na região do garimpo Roosevelt, cerca de 400 homens da PF, PM e outros órgãos federais e estaduais continuam fazendo barreiras para evitar a entrada e saída das Terras Indígenas.

O governo quer legalizar a exploração de garimpo de diamantes na reserva Roosevelt, mas o assunto não é consenso entre os Ministérios. Desde o início de 2003, o governo faz debates sobre a regulamentação da exploração de minérios em terras indígenas. Pela Constituição, os recursos naturais do subsolo brasileiro, incluindo minérios, são patrimônio da União e só podem ser explorados mediante concessão pública. (CB, N° 14.950)

Correio Braziliense, n° 14.951 – Brasília, DF 

Sábado, 24.04.2004 

Diamantes por Armas  

Três líderes cintas-largas ‒ Nacoça Pio, Oita e João Bravo ‒ são acusados de vender diamantes extraídos da reserva Roosevelt, em Rondônia, em troca de armas, como revólveres, pistolas e rifles.

A negociação teria sido feita com o empresário Marcos Glikas, preso em março. Segundo o processo criminal a que eles respondem, o empresário chegou a investir RS 1,27 milhão nas aldeias, antes mesmo de receber as pedras.

Apenas numa das transações, teriam sido negociados 2 mil quilates de diamantes. “Há indícios claros de que parte dos diamantes foi paga com amas de fogo”, afirmou o delegado Marcos Aurélio Moura, Superintendente da Polícia Federal em Rondônia. Segundo o processo, sob sigilo judicial, foram os próprios índios que solicitaram as armas.

Enterro Coletivo 

Ontem, oito dos 29 garimpeiros assassinados por cinta-largas dentro da reserva foram enterrados numa cerimônia coletiva, em uma mesma cova no cemitério de Espigão d’Oeste, a 534 km de Porto Velho.

Na cidade vizinha de Pimenta Bueno ocorreu um enterro. Outro corpo foi levado para Mato Grosso. Cerca de 300 pessoas, segundo a Polícia Militar, assistiram ao velório.

Em mais uma denúncia contra os Cinta-larga, o Sindicato dos Garimpeiros de Espigão d’Oeste informou que 20 homens são mantidos reféns na aldeia indígena Roosevelt.

A FUNAI em Rondônia negou a denúncia, mas segundo o presidente do sindicato, Gilton Muniz, os garimpeiros feitos reféns são obrigados a trabalhar para os índios, operando máquinas usadas na extração de diamantes durante a noite. De dia ficam amarrados e vigiados. (CB, N° 14.951)

Jornal do Commercio, n° 170 – Rio, RJ 

Segunda-feira, 26.04.2004 

RONDÔNIA 

Chefes Cintas-Largas são Acusados de Contrabando 

[…] O contato de Glikas com os índios era intermediado, segundo a PF por José Nazareno Torres de Moraes, servidor da Fundação Nacional do índio [FUNAI] na cidade de Cacoal [R0].

Segundo as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, Moraes tinha um contato próximo com os líderes tribais devido ao seu trabalho indigenista. Além de porcentagem sobre a venda de diamantes, Moraes receberia um caminhão para facilitar a entrada de máquinas na reserva, mas a encomenda foi interceptada pela PF no início deste ano.

De acordo com um integrante da quadrilha que passou a colaborar com os investigadores da polícia, antes da compra de diamantes, Glikas enviou R$ 390 mil ao chefe Pio, R$ 180 mil a Oita e R$ 700 mil a João Bravo, totalizando R$ 1,27 milhão. A testemunha confirmou à PF ao menos quatro compras de pedras, nos valores de R$ 205 mil, R$ 260 mil, R$ 220 mil e R$ 160 mil.

O dinheiro era gasto pelos índios na compra de caminhonetes, relógios, roupas de grife e bebidas. Nas visitas à cidade de Espigão d’Oeste, cada líder indígena também levava presentes para suas mulheres. (JC, N° 170)

Correio Braziliense, n° 14.958 – Brasília, DF 

Sábado, 01.05.2004 

Risco de Tensão no Pará 

[…] Em Rondônia, a Polícia Federal ainda não conseguiu chegar à Grota do Sossego, na reserva Roosevelt, onde 29 garimpeiros foram mortos na Semana Santa. O sindicalista Celso Fantim, do Sindicato dos Garimpeiros de Espigão d’Oeste, garantiu à PF que há ainda pelo menos 14 homens desaparecidos na reserva.

OPERAÇÃO PENTE FINO  

A Polícia Federal fará uma operação pente-fino para retirar garimpeiros da Reserva Roosevelt, em Rondônia. Há 20 dias, um confronto entre índios e garimpeiros deixou 29 mortos na Reserva.

O Superintendente da Polícia Federal em Rondônia, Marco Aurélio Moura, anunciou que a partir de segunda-feira será reforçado o efetivo de agentes na área. Atualmente cerca de 60 policias atuam na área, com extensão calculada de 2,7 milhões de hectares. Na próxima terça-feira o Procurador Federal Daniel Farah e o Delegado Federal Mauro Spósito irão a uma das aldeias da Reserva.

De acordo com a FUNAI o objetivo é sensibilizar os guerreiros a seguirem as orientações da Fundação e da PF no sentido de evitar confrontos com garimpeiros e suspender as atividades de garimpagem, concentradas em três grotas espalhadas pela Reserva. A PF diz não ter uma lista oficial de garimpeiros desaparecidos.

Como era um garimpo clandestino, quem tem coragem entra. Não existe essa lista oficial”, afirmou François René, assessor de imprensa da Polícia Federal. Segundo caciques Cinta-Larga, outro grupo de mineradores está fazendo a extração ilegal de diamantes no local. O Delegado Federal Mauro Spósito, coordenador de operações especiais de fronteira, se reuniu ontem com os líderes indígenas Nacoça Pio, João Bravo e Panderê Cinta-Larga para reforçar a proibição de extração de diamantes, seja por índios ou brancos.

Na próxima semana, Spósito e funcionários da FUNAI entrarão em diversas aldeias para tentar acabar com o clima de tensão, que aumentou após o surgimento da informação sobre a presença de garimpeiros na Grota do Sossego. A PF teme que os mineradores estejam armados e possa haver novas mortes.

Envolvimento 

Está em investigação a participação do superintendente da Fundação Nacional do índio [FUNAI] em Rondônia, Valter Glóss, na extração ilegal de diamantes e na morte dos garimpeiros na Reserva Indígena Roosevelt. O nome de Glóss foi citado em alguns dos mais de cem depoimentos tomados no estado pelo superintendente da PF, Márcio Mauro, depois que os Cinta-Larga mataram os garimpeiros. Segundo o diretor-geral da PF Paulo Lacerda, não está descartada a participação de narcotraficantes entre os responsáveis por dar suporte econômico ao garimpo na região. (CB, N° 14.958)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 21.09.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

CB, N° 14.950. Massacre no Garimpo foi Aviso, diz Cacique – Brasil – Brasília, DF – Correio Braziliense, n° 14.950, 23.04.2004.

CB, N° 14.951. Diamantes por Armas – Brasil – Brasília, DF – Correio Braziliense, n° 14.951, 24.04.2004.

CB, N° 14.958. Risco de Tensão no Pará – Brasil – Brasília, DF – Correio Braziliense, n° 14.958, 01.05.2004.

ISTO É, N° 1.731. Lá Está a Riqueza que os Estrangeiros e os Políticos Querem Tirar do meu Povo… – Brasil – São Paulo, SP – Isto É, n° 1.731, 05.12.2002.

JC, N° 170. Chefes Cintas‒Largas são Acusados de Contrabando – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Commercio, n° 170, 26.04.2004.

Filmete 

https://www.youtube.com/watch?v=tYkH5YO38IQ&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=40

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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