Serra do Caburaí – Extremo Norte do Brasil

Apesar dos equívocos da mídia global nacional que ainda insiste na expressão “do Oiapoque ao Chuí” para designar os pontos extremos norte-Sul do Brasil, começa a haver um consenso de que a Serra do Caburaí é o verdadeiro ponto setentrional do país.

Localização do Monte Caburaí

Já em 1931, o Capitão de Mar e Guerra Braz Dias de Aguiar, chefe da Comissão Demarcadora de Fronteiras – Setor Norte – 1a Divisão concluiu através de medidas astronômicas  que o ponto extremo Norte do Brasil não era o Monte Roraima, mas sim a Serra do Caburaí (Cabutai-tepê na língua indígena local). Segundo o relatório desta mesma comissão, o divisor de águas representado pela Serra do Caburaí tem do lado brasileiro a nascente do Rio Uailã, distante 32 metros no rumo Sudeste do ponto extremo Norte do Brasil. Esta informação, que não é nova, mostra que este conceito deve ser revisto urgentemente pelos autores de nossos livros didáticos adotados nas escolas do Estado e em outras regiões do país que colocam a nascente do Rio Uailã como o ponto extremo Norte do país.

Expedições realizadas à região da Serra do Caburaí nos últimos anos tem gerado informações inverídicas e até fantasiosas divulgadas principalmente por jornalistas e fotógrafos que chamam para si a “descoberta” do ponto extremo do país, o que estaria modificando a Geografia brasileira. Existem também educadores mal informados declarando que somente a partir de 1 998, após expedição realizada à área é que os livros didáticos foram alterados pelo MEC, desconhecendo que diversos Atlas e livros didáticos de Geografia tem mostrado há décadas que o ponto extremo Norte do Brasil é a Serra do Caburaí em função de inúmeros trabalhos divulgados pelo IBGE a partir da década de 50.

O ponto extremo Norte do país foi materializado pela Comissão de Fronteiras em 1931 através de um marco circundado por uma laje de concreto e identificado como BBG/11-A, com inscrições alusivas que dão as coordenadas: latitude 5º 12’ 19’’ 60 Norte e longitude 60º 12’ 43’’ 29 Oeste de Greenwich e altitude de 1456 metros. As últimas expedições realizadas à área nunca encontraram o referido marco que se encontrava em bom estado na década de 70, conforme relatos de indígenas da aldeia Caracanã. O marco pode não ter sido localizado devido à inadequada utilização de equipamentos aferidos e não calibrados para o datum adotado pela Comissão Demarcadora de Limites como também pela densa cobertura florestal da área. Outro ponto que carece de uma melhor análise é a afirmação de que o ponto extremo Norte é o Monte Caburaí, inclusive utilizada por mim em trabalhos publicados, já que o divisor de águas onde está localizado o ponto extremo Norte pode não coincidir com o ponto de maior altitude da Serra do Caburaí, necessitando-se, portanto, uma nova verificação da Comissão de limites na área para dirimir esta dúvida.

Autor: Jaime de Agostinho ( * ) 

( * ) Professor Doutor Jaime de Agostinho

  • Geógrafo, Doutor em Ciências pela USP
  • Professor  titular da UFRR – Depto. Geociências.
  • Presidente da Ecoamazônia – Fundação para o Ecodesenvolvimento da Amazônia

OUTRAS INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

1 – O Marechal Rondon nunca realizou expedição à região da Serra do Caburaí em 1931. Esteve sim em Roraima unicamente no período de outubro a dezembro de 1927, não demarcando a fronteira, mas sim inspecionando as fronteiras, tendo explorado o Monte Roraima e nunca o Monte Caburaí.

2 – Quem realmente determinou o ponto extremo norte do Brasil foi o Capitão de mar e guerra Braz Dias de Aguiar em 8 de dezembro de 1931 em expedição da Comissão Mista Demarcadora de Fronteiras Brasil e na época Guiana Inglesa, hoje República Cooperativa da Guiana (em inglês: Cooperative Republic of Guyana).

3 – As escolas sempre mostraram em seus livros que a Serra do Caburaí como ponto extremo Norte do Brasil, desde a década de 40. Eu estudei na década de 50 com esta informação.

4 – A expedição de 1998 foi um fracasso já que não encontrou o marco  B/BG-11A original e induziu a sua reimplantação no Monte Caburaí, que não é o divisor de águas do Brasil com a Guyana. Tudo isto por causa da não aferição dos equipamentos GPS para o datum da época de Braz Dias de Aguiar, que tinha realizado as medições com alta precisão astronômica. Para completar, em outubro de 2013, um pequeno grupo de excursionistas do Sul do País, sem muitos recursos  juntamente com indígenas da etnia  ingarikó conseguiram localizar o marco em perfeitas condições. Estes sim mereceriam a condecoração Orgulho de Roraima, distribuído aos “expedicionários” de 1998. 

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