A Terceira Margem – Parte CCLXXXVIII

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 2ª Parte – XXVIII 

O Canoeiro Hiram Reis e Silva

Aldeia Utiariti – Fazenda S. Miguel – III 

Aldeia do Buracão à Fz São Miguel (09.11.2015) 

Partimos às 06h30, o Coronel Angonese tinha acordado, com o Oriovaldo Dal Ponte ‒ Gerente da Fazenda São Miguel, o apoio de uma embarcação para a transposição do Rio Buriti exatamente no mesmo local (13°10’45,6” S / 58°33’43,9” O) em que a Expedição Científica Roosevelt-Rondon, de 1914, o fizera. Apenas 08 km nos separavam do local da passagem e o percurso foi vencido com tranquilidade, a trilha ainda era nítida e, como sempre, extremamente retilínea.

Chegamos à margem direita do Rio Buriti antes das 08h30 e aguardamos no local da passagem, até as 10h00, sem verificar nenhum movimento na margem oposta. Tínhamos feito um embarcadouro a montante do local de desembarque na margem esquerda e um cercado para que os muares não se evadissem da área. No início da tarde, como nem mesmo a viatura Marruá tivesse aparecido, o Coronel Angonese resolveu nadar até a margem oposta e tentar contatar o Oriovaldo.

O Angonese ao retornar informou que o Oriovaldo fora até a cidade buscar o motor de popa que se encontrava em manutenção, só nos restava, portanto, continuar aguardando.

Finalmente a Marruá, com nossa equipe de apoio do 2° B Fron, e, quase que imediatamente, uma comitiva chefiada pelo Oriovaldo chegaram dando-se imediatamente início à transposição. A travessia da primeira mula foi complicada, a correnteza forte e uma galhada a jusante do embarcadouro dificultaram a operação. A partir do segundo animal, o Oriovaldo conseguiu dominar a contento a pequena embarcação permitindo que o Angonese embarcado na voadeira conduzisse, cada um dos animais, à soga. O processo era simples, o “Boi” trazia os muares e eu e o Sgt Yuri os conduzíamos até a água de onde atirávamos a corda que estava amarrada ao cabresto dos animais para o Angonese. O Dr. Marc, na margem direita e o Soldado Eder, na esquerda filmavam toda a operação. Percorremos 11 km desde o Rio Buriti até a sede Fazenda São Miguel onde depois de colocarmos a tropa no cercado, sermos confortavelmente alojados e tomarmos um bom banho fomos desfrutar do excelente restaurante da Fazenda S. Miguel. A Fazenda São Miguel faz parte do Grupo Scheffer que possui 11 unidades de produção no Sudoeste e meio Norte de Mato Grosso num total de 108 mil ha de terras.

Concluímos a 2ª Parte da 2ª Fase da Expedição Científica R-R cavalgando 395 km em 17 dias (com um de descanso). O ponto alto foi, sem sombra de dúvida, o apoio fantástico do Comando Militar do Oeste (CMO), através do 2° B Fron, Cáceres, MT. Tanto o Sgt YURI Vicente Cândido como o Soldado Paulo ÉDER Pereira Dias, nosso cozinheiro e condutor da viatura Agrale Marruá foram incansáveis em proporcionar-nos o maior conforto possível em todos os momentos agindo com uma competência e um profissionalismo singulares.

Nossa Expedição, até agora, tinha sido muito tranquila, sem grandes transtornos ou desafios, nenhum desgaste físico importante, mas carregada de novas e extremamente gratificantes experiências.

Despedida da Fazenda São Miguel

Relatos Pretéritos do Rio Buriti  

Edgard Roquette-Pinto (1912) 

No passo do Rio Buriti existe um posto, guardado por dois soldados incumbidos da canoa. Havia cerca de dois anos que ali estavam. (ROQUETTE-PINTO)

Cândido Mariano da Silva Rondon (1914) 

Fomos, depois acampar à margem do Rio Buriti, que atravessamos em uma balsa, manobrada por dois Paresí, funcionários da Comissão e tão possuídos do espírito de nossa divisa que, certa vez, atacados pelos Nambiquara, se limitaram a disparar as armas para o ar. (VIVEIROS)

Theodore Roosevelt (1914)  

Acampamos na margem Ocidental do Rio Buriti, onde há uma balsa movida por dois índios Paresí, funcionários da Comissão sob as ordens do Coronel Rondon. Cada um deles tinha uma casa coberta de palha e duas esposas ‒ todos aqueles índios eram polígamos. As mulheres manobravam a balsa tão bem quanto os homens. Não tinham lavoura e durante semanas inteiras viviam apenas de caça e mel de pau. Com alegria saudaram nossa chegada e o arroz e feijão que o Coronel lhes deixou além de alguma carne. Estiveram em festa quase a noite toda. Tinham nas casas redes, cestas e outros objetos; criavam galinhas. Em uma das casas havia um periquito muito manso, mas pouco amigo de estranhos.

Existem nas proximidades Nambiquara bravios que recentemente haviam ameaçado atacar os dois balseiros, chegando mesmo a lançar-lhes algumas flechadas. Os Paresí conseguiram afugentá-los disparando suas carabinas para o ar e receberam do Coronel os esperados aplausos pela sua prudência, pois o Coronel fazia tudo o que podia para persuadir os índios a desistirem de suas lutas sangrentas. As carabinas eram Winchester leves, de cano curto, do tipo comumente usado pelos seringueiros e por outros que se aventuram nos ermos selváticos do Brasil.

Existia certo número de seringueiras naquelas redondezas. Deleitamo-nos com um bom banho no Rio Buriti, embora fosse impossível nadar contra a violenta correnteza.

Poucos pernilongos mas, por outro lado, piuns de várias espécies eram um tanto excessivos; variavam de tamanho entre o pólvora e a grande mutuca preta. As pequenas abelhas sem ferrão não se amedrontavam e com dificuldade são afastadas quando pousam na mão ou no rosto, mas nunca picam, só fazendo cócegas na pele. Apareciam também abelhas grandes que havendo pousado, não ofendiam se não fossem molestadas; no caso contrário enterravam o ferrão cruel. Os insetos não eram de ordinário inconveniente sério, mas em certas horas se tornavam tão numerosos que eu tinha de escrever de luvas e com a gaze na cabeça. Na noite de nossa chegada ao Buriti choveu copiosamente; no dia seguinte continuou a chover. Pela manhã os muares foram passados na balsa, ao passo que os bois atravessaram o Rio a nado. Meia dúzia de nossos homens, brancos, índios e negros ‒ todos nus e dando gritos extravagantes ‒ tocavam os bois para o Rio, e com braçadas vigorosas nadavam ao lado e atrás deles, cortando obliquamente a correnteza.

Era um atraente espetáculo ver os chifrudos e grandes bois espantados nadando valentemente, enquanto os possantes camaradas nus os tocavam para a frente, inteiramente à vontade na violenta correnteza. (ROOSEVELT)

Major Amílcar Botelho de Magalhães (1941) 

O Zolaharuiná ou Buriti também nasce na linha divisória, um pouco mais ao Norte das nascentes do Papagaio, na Latitude Sul 14°20’ e Longitude Oeste 16°. Pelas suas cabeceiras, Zolaharuiná-suê e Taloré-sue, contravertem com o braço mais ocidental do Jauru e com o mais oriental do Guaporé. É afluente da margem esquerda do Papagaio. (MAGALHÃES, 1942)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 25.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmetes  

Bibliografia 

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1938.

ROOSEVELT, Theodore. Através do Sertão do Brasil ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1944.

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Livraria São José, 1958.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*