A Terceira Margem – Parte CCLXXXVI

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  2ª Parte – XXVI 

Travessia do Rio Papagaio

Aldeia Utiariti – Fazenda S. Miguel – I 

A exploração do Rio Papagaio constituiu importante serviço que ficamos devendo à orientação do General Rondon, quando traçou e executou magistralmente o programa da Expedição Científica Roosevelt-Rondon. Quando esta Expedição [1913/14] chegou à Estação Telegráfica de “Utiariti”, nome também do belíssimo Salto do Rio Papagaio, junto ao qual foi construída, Rondon destacou uma turma destinada a reconhecer e explorar o Rio Papagaio, a partir deste Salto até sua Foz no Juruena. (MAGALHÃES, 1942)

Aldeia Utiariti à Aldeia do Buracão (08.11.2015) 

A partir de Tapirapuã nosso percurso se dirigia para o Norte, subindo e atravessando o planalto deserto do Brasil. Das fraldas desta zona elevada, que é geologicamente muito antiga, defluem para o Norte os tributários do Amazonas, e os do Prata para o Sul, fazendo imensos volteios e desvios sem conta. (ROOSEVELT)

Acordamos por volta das seis horas, o desafio de embarcar os irrequietos muares na balsa do Rio Papagaio preocupava o “Boi” e por isso mesmo tínhamos de iniciar cedo os preparativos. Despedi-me da amável anciã Sr.ª Tertuliana e de seu marido e fui, como legítimo militar da arma de Villagran, orientar meus parceiros na transposição do curso d’água, afinal isso era uma missão bem específica da nossa Engenharia Militar.

Curiosamente a travessia do Rio Papagaio, na pequena balsa (13°01’41,8”S / 58°16’54,2”O), diferente do esperado, processou-se rapidamente e sem quaisquer dificuldades. Apenas um senão ‒ o cavalinho “Polaqueiro” escorregou ao desembarcar e esfolou, sem gravidade, a pata traseira.

Desde Tapirapuã, vínhamos seguindo, à distância, a Linha Telegráfica já que era impossível seguir a rota exata da Expedição Original tendo em vista os alambrados que cercavam as inúmeras propriedades particulares ao longo do caminho e a vegetação que, nos últimos cem anos, fora, progressivamente, bloqueando a estrada da Linha. Tínhamos, até então, percorrido apenas 2,5 km da Estrada da Linha Telegráfica na chegada à Aldeia de Utiariti.

Hoje, depois da travessia, enveredarmos por 4,5 km da estrada, rumo Sudoeste, até adentramos na mesma trilha (entroncamento: 13°03’07,4” S / 58°18’38,1” O) daqueles valorosos expedicionários do passado usando, como eles, nossos vigorosos muares como meio de transporte.

Depois de percorrermos outros 15,5 km seguindo a trilha da Linha Telegráfica encontramos uma bifurcação (13°08’14,3” S / 58°25’25,1” O), abandonamos a estrada e adentramos na trilha da direita, onde fizemos, logo em seguida, a primeira parada. Antes de partirmos, seguindo a trilha da Linha, os muares tiveram de ser recapturados, pois, durante a breve parada, tinham seguido adiante. Na antiga senda, encontramos alguns dos antigos postes erguidos pela Comissão de Linhas Telegráficas chefiada pelo Cel Rondon.

Travessia do Rio Papagaio

Depois de percorrermos 35 km, enfrentando bloqueios, vespas, e extrema canícula, abandonarmos a rota Sudoeste e enveredarmos pela trilha da Linha Telegráfica no rumo Noroeste que ia cruzar o Rio Buriti 8 km à frente. Como a viatura Marruá ainda não tivesse chegado com a água para aplacar a sede de nossos sedentos muares eu o “Boi” descemos uma íngreme trilha em busca do precioso líquido. A estreita trilha que seguimos, após passarmos pela antiga Aldeia Buracão, estava muito fechada obrigando-nos a deitarmo-nos sobre os animais para acompanhar a tropa que seguia célere em fila indiana.

Chegamos, finalmente, ao leito seco do que deveria ser, na época das águas, um pequeno Ribeirão. O “Boi” foi à frente reconhecer o terreno e pediu para que eu aguardasse com os animais. Algum tempo depois, ouvi um grito do “Boi” que me pareceu ser de júbilo, por ter encontrado água, e toquei a tropa em sua direção, logo à frente vi a montaria do “Boi” amarrada a um tronco com os quartos atolados no lodo. O “Boi” gritou, de longe, pedindo que eu voltasse com os animais afirmando que o terreno dali para frente era muito pior, imediatamente manobrei os animais que ao retornar enveredaram, em louca carreira, pela apertada trilha. Tentei, em vão, controlar os animais e nessa empreitada perdi meu gorro de selva, um troféu que sempre usara com orgulho desde que, em 05.11.1999, concluíra o Curso de Operações de Selva. Novamente uma estranha sensação me envolveu, a mesma que senti quando perdi, nas águas do Rio Solimões, em 12.01.2009, minha veterana Bússola Silva, que há mais de 32 anos me indicava a rota correta e o chapéu Bandeirante, meu velho parceiro, no dia 12.11.2014, nas águas do Roosevelt após um convívio de 36 anos.

Uma profunda angústia invadiu todo o meu ser e veio-me à mente o som vigoroso e fúnebre do “Requiem Dies Irae”, de Wolfgang Amadeus Mozart. Adeus, velho amigo! Partiste como um dia quero partir, vendo, tratando e pelejando!

As aldeias dos índios da Serra do Norte, em geral, são construídas no alto de pequenas colinas, longe dos cursos d’água. Algumas distam mais de um quilômetro do Rio ou do Ribeirão mais próximo. Visam dois objetivos, ao que supomos, levantando suas palhoças em tal situação: sofrem menos dos mosquitos e dominam o território vizinho, o que é vantajoso, vivendo, como até agora viviam, em lutas constantes. (ROQUETTE-PINTO)

Transposição do Rio Buriti

A tropa só foi controlada depois da chegada da viatura Marruá com equipe de apoio (Sargento Yuri e Soldado Eder), Coronel Angonese e o Dr. Marc. Montamos acampamento (AC03 ‒ 13°13’22,8” S / 58°30’49,1” O) nas proximidades da antiga Aldeia do Buracão, onde os pequenos e irritantes insetos assediavam a todos comprometendo a execução das tarefas mais simples. A Aldeia do Buracão foi abandonada pelos Nambiquara depois de terem ocorrido uma série de acidentes, alguns fatais, na sua íngreme trilha de acesso. É interessante ressaltar que a edificação de uma Aldeia Nambiquara em local próximo a um curso d’água e muito insalubre contraria todas as observações realizadas pelos antigos pesquisadores e, fundamentalmente, o preconizado pelos seus ancestrais.

Relatos Pretéritos do Rio Papagaio 

Alguns leitores não entendem porque insisto em reportar relatos de outros autores sob o título de “Relatos Pretéritos” e eu respondo dizendo que estas narrações são fundamentais. Não me considero um colunista, cronista ou escritor e não tenho nenhuma pretensão de ser reconhecido como historiador e, por isso mesmo, procuro amparo nos textos antigos para embasar minhas afirmações.

Sou apenas um humilde garimpeiro da história e quando encontro algumas pérolas extraviadas nos escaninhos mais empoeirados da Biblioteca Universal procuro repercuti-los. Tento, com isso, apresentar o ponto de vista das “fontes primas” para que elas possam ser estudadas, comparadas e analisadas pelo próprio leitor. Mesmo quando há uma unanimidade na percepção de redatores diversos podemos encontrar, no mínimo, belas nuances na expressão literária de cada um.

É extremamente importante recorrer ao relato de historiadores ou cronistas que estiveram cronologicamente o mais próximo possível dos eventos considerados.

Infelizmente alguns dos pretensos “historiadores” nacionais foram, nas últimas décadas, totalmente contaminados por ideologias alienígenas espúrias apresentando uma versão da “história” totalmente travestida, uma realidade maquiavelicamente distorcida do que realmente aconteceu.

Hino do Rio Grande do Sul 

(Francisco Pinto da Fontoura)

Mas não basta pra ser livre

Ser forte, aguerrido e bravo

Povo que não tem virtude

Acaba por ser escravo

Ao denegrirem a imagem dos heróis do passado ao invés de cultuar-lhes a memória e o exemplo pelo inestimável legado que nos deixaram desconsideram, por má fé, a máxima de Isidore Auguste Marie François Xavier Comte de que:

Os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos.

Um povo que não cultua seus heróis, suas virtudes está condenado, inevitavelmente a ser escravo.

O Rio Papagaio guarda eternamente em suas margens mais uma das inúmeras heroicas passagens patrocinadas por Rondon. A retirada da “Expedição de 1907”, desde o Rio Juruena, sob a presença sempre hostil dos índios Nambiquara, os alimentos escassos, foi extremamente penosa e quando chegaram, finalmente, às margens do Rio Papagaio…

Rondon (1907) 

04.11.1907: A 4 de novembro atingimos o Sauêruiná com o pessoal faminto, exausto, sem forças nem ânimo para nada. Até os mais resistentes, o João de Deus e o Domingos, estavam aniquilados. E tínhamos de atravessar o Sauêruiná! Na viagem de ida, havíamos utilizado uma canoa para transportar o pessoal e o material enquanto os animais faziam a travessia a nado. Ficara a canoa amarrada à margem esquerda e com ela contávamos para voltar à margem direita ‒ mas esquecêramos os índios: haviam eles soltado a embarcação que desaparecera na correnteza! Foi tão grande a decepção, que tirou aos abatidos companheiros os últimos restos de coragem e energia.

Como transpor o Rio? A nado? Seria impossível para homens famintos, derreados pela fadiga, doentes, apavorados com a possibilidade de um ataque: eles que viessem e pusessem termo aos seus esforços de moribundos; ali ficariam no chão à sua espera. Não perdi, entretanto, a esperança de salvar a Comissão e de levá-la a bom termo. […] A situação não comportava palavras e gestos inúteis. Era preciso agir. Com um couro de boi, revestido de um arcabouço de varas ligeiramente vergadas e amarradas, construí uma pelota. Carreguei-a com volumes de material e bagagem e, a nado, por meio de uma corda amarrada aos dentes, fui rebocando a improvisada embarcação, através da correnteza.

Depois de repetidas viagens ‒ das 13h00 às 18h00 ‒ tinha eu transportado os doentes, a bagagem e o material. Os homens inclinavam a cabeça para o peito e eu vergastava-os com incisiva apóstrofe:

‒  Soldado não baixa a cabeça como qualquer covarde!

Estava salva a Expedição do Juruena! (VIVEIROS)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 23.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem. 

Filmetes 

Bibliografia  

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1938.

ROOSEVELT, Theodore. Através do Sertão do Brasil ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1944.

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Livraria São José, 1958.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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