A Terceira Margem – Parte CCLXXXIII

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  2ª Parte – XXIII   

O canoeiro

Rondônia – II 

No tipo masculino, a cabeça cabe 7,5 vezes na altura; obedece ao cânon dos gregos ([1]), o que é realmente interessante. A distância interocular é maior que o comprimento da fenda ocular; a altura total da face é pouco maior que o comprimento da mão. A mão tem cerca de 1/10 da altura total do corpo; o pé corresponde a 1/8 daquela altura. Braço e antebraço têm comprimentos equivalentes; são sensivelmente iguais. O olho mongol é raro.

Nos índios da Serra do Norte não se vê a queda precoce dos incisivos, tal qual é encontrada nos Paresí. A norma da erupção dos dentes, pelo que andei observando em alguns rapazes e meninos, não é a mesma que se costuma deparar na raça branca; porque as idades, em que a segunda dentadura se completa, me pareceram outras. […] Aos sete anos rompe o primeiro molar; aos oito, os incisivos medianos e aos nove os laterais. Aos dez, o primeiro pré-molar; aos 11, o segundo. Os caninos, aos 12. O segundo molar, aos 13. O dente do siso, que é o terceiro molar, aparece aos 18, mofino e sem préstimo, quando não se deixa ficar metido no alvéolo durante toda a vida. […]

A dentição completa-se, naquela gente, ao que me pareceu, muito mais cedo. Os molares, que o povo chama dentes do siso, e tendem a desaparecer na raça branca, nos índios, não são dentes de enfeite. Têm função e tamanho de considerar. Acredito que o excesso de trabalho, imposto ao aparelho da digestão, tenha seu rebate nessas características dentárias. Os grandes molares aparecem mais cedo porque são solicitados por mastigação frequente e forte. Comem sempre, de tudo, sem regra nem medida. Não sei de animal que não devorem. Rejeitam, apenas, o tubo intestinal da caça abatida. Os do Juruena comem mais carne que os outros; os de José Bonifácio alimentam-se mais de mandioca e milho. Sua flatulência fá-los companheiros desagradáveis. Todos têm língua saburrosa e muitos as gengivas arregaçadas pela piorreia alveolar. Os dentes, ao contrário do que se verifica frequentemente nos crânios dos sambaquis, não sofrem o processo de usura que Lund, em 1842, descreveu no homem de Lagoa Santa; padecem da cárie que lhes não poupa as coroas.

Uma dermatose especial grassa entre os índios da Serra do Norte. Em verdade, alguns oficiais da Comissão Rondon haviam notado as placas características da doença. Mas, talvez porque não tivessem sido encontrados casos típicos, como esses que me caíram sob as vistas, as manchas passavam por simples descamações epidérmicas traumáticas, oriundas do atrito do corpo na terra, pois que os índios da Serra do Norte dormem sobre o solo. Examinando os indivíduos, cujas fotografias aqui se encontram, verifiquei, porém, a existência de verdadeira dermatose ([2]), imitando diversas das que se acham indicadas entre os nossos aborígenes.

A doença aparece em toda idade; foi encontrada em crianças de peito e em velhos. Ataca igualmente ambos os sexos. Parece ser mais frequente nos índios dos Rios Juruena e Juína. Os Paresí, próximos vizinhos deles, não conhecem o mal; e não me consta que já se tenha verificado qualquer caso no pessoal da Linha Telegráfica. Nenhuma região do corpo é poupada, a não ser o couro cabeludo. As unhas são respeitadas, e a face não é sede predileta das lesões. A doença não é rara; em muitos índios é fácil reconhecer traços de sua existência. No entanto, creio que evolui com intensidade mui variável, porque só em oito indivíduos, dentre cerca de 400, pude verificar suas manifestações bem definidas. (ROQUETTE-PINTO)

O paraíso, sonhado pela gente de outras idades, começa a definir-se aos olhos dos modernos, com as possibilidades que o passado apenas imaginava. O homem culto chegou a voar melhor do que as aves; nadar melhor do que os peixes; libertou-se do jugo da distância e do tempo; realiza em um continente o que concebeu em outro, alguns momentos antes; ouve a voz dos que morreram, conservada em lâminas, com o seu timbre, e as inflexões da dor e da alegria; imortaliza-se, arquivando a palavra articulada, com todas as suas características, e as suas formas e seus movimentos com todas as minúcias; e enquanto, mágico inesgotável, vai modificando a terra e lutando contra a fatalidade da morte, fazendo reviver as vozes que ela extinguiu, as formas que ela decompôs, o homem não consegue transformar-se a si mesmo, com igual vertiginosa rapidez. (ROQUETTE-PINTO)

IX 

Habitam territórios banhados por águas amazônicas os índios que se acham espalhados pelos vales do Juruena e pela Serra do Norte. São chamados Nambiquara [Nhambikwaras, Nambiquaras, Nambicoaras, Mambyuaras, Mambryáras, Membyuares etc] pelos sertanejos e pelos índios civilizados, seus vizinhos. Somam alguns milheiros. Quantos? Não sabemos. Qualquer estimativa seria invaliosa ([3]).

Sendo cerca de uma dúzia de aldeias de que tivemos notícia segura, por visita ou por informação, e dando para cada qual, em média, 100 habitantes, atingimos o total de 1.200 ([4]). É muito importante a difusão do nome Nambiquara; existe em Mato Grosso, e no Pará, para os índios de que nos ocupamos. Quer dizer que, do lado Norte e do Sul, os habitantes daquela Serra têm a mesma designação. A concordância faz pensar, à primeira vista, que o nome deve ser, efetivamente, muito característico. No entanto, é apelativo que os nomeados não conhecem, palavra absolutamente estranha ao dialeto de qualquer dos grupos. Convém conservá-la, todavia, para evitar confusões. O limite Meridional da região dos Nambiquara é o Rio Papagaio. Ao Norte parece que sua zona de distribuição atinge o Ji-Paraná; a Leste, o Tapajós; a Oeste, o Guaporé. O grupo que habita próximo às margens do Juruena e do Juína, do Rio Papagaio até o Camararé, que chamarei grupo de Sudeste, denomina-se Kôkôzú ou Kôkôçú.

O que habita no baixo Rio 12 de Outubro e se estende provavelmente até a confluência do Arinos com o Juruena, onde também devem chegar alguns representantes do primeiro, denomina-se Anunzê; chamá-lo-ei grupo de Nordeste. O que vive a Sudoeste da invernada de Campos Novos desce até o Guaporé é denominado Uaintaçú e constitui o grupo do Sudoeste. O grande grupo Nordeste mora já na vizinhança das águas do Madeira, nas margens de tributários do Ji-Paraná. Parece-me formado por diferentes núcleos secundários, cujas relações ainda não foram bem caracterizadas; pertencem-lhe os índios que encontrei na invernada de Três Buritis, nos Campos de 14 de Abril, em José Bonifácio, Campos de Maria de Molina. Seu núcleo principal habita entre os Rios 12 de Outubro e Roosevelt [Rio da Dúvida]. Do grupo Setentrional só encontrei os Tagnanis, Tauitês, Salumás, Tarutês, Taschuitês; mesmo assim, apenas sobre Tagnanis e Tauitês consegui diversas notas. Os Anunzês, de Campos Novos, falam nos Taiópas e nos Xaodi-Kókas, até agora não achados; no extremo norte da região, Rondon tem descoberto, recentemente, grupos pertencentes a outras nações indígenas. […]

As aldeias dos índios da Serra do Norte, em geral, são construídas no alto de pequenas colinas, longe dos cursos d’água. Algumas distam mais de um km do Rio ou do Ribeirão mais próximo. Visam dois objetivos, ao que supomos, levantando suas palhoças em tal situação: sofrem menos dos mosquitos e dominam o território vizinho, o que é vantajoso, vivendo, como até agora viviam, em lutas constantes. A aldeia é construída numa grande praça, de 50 metros de diâmetro; o chão, limpo de mato, arrancado à mão, é entretido sempre assim pelo piso dos moradores.

Uma noite de dança, interminável caminhar nos mesmos pontos, basta para alisar o terreiro das vilas. A mancha circular, que faz o chão da aldeia no meio do cerrado, toma a feição de uma estrela, mercê dos trilhos que partem de sua circunferência. O acesso à praça das vilas é livre: não há cerca, nem tapume, que impeça a chegada ao terreiro. Ao redor, não há fortificações, nem defesas. Constam sempre de duas casas as aldeias Nambiquara; uma defronte da outra, nas extremidades de um dos diâmetros da praça. Aquela região compreende grandes matas, cerrados e charravascais, poucos tapetes de campo. Os índios escolhem de preferência o cerrado para localizar sua aldeia. A mata é perigosa pelas serpentes, pelas feras e até pelos madeiros, que se despencam, muitas vezes, e esmigalham os caçadores; o campo também o é porque oferece a aldeia ao ataque do inimigo, não protege, de nenhum modo, a casa contra o invasor.

Mas o cerrado cumpre muito bem esse mister; poucos são os males que favorece e muitos os benefícios que proporciona. Bem o entenderam os Nambiquara; suas palhoças se confundem com o matiz acinzentado da vegetação ambiente. São moitas do cerrado; quem olha, à distância, quase não as vê. Diluem-se suas formas, aliás bem definidas, nas formas imprecisas do cerrado. Naturalmente, alguém que tenha o hábito de ver as coisas naquele véu poeirento da flora xerófita dos chapadões dá depressa com as palhoças; a confusão não ilude uma vista experiente. Mas o fato desse mimetismo é real. Nas aldeias encontra-se a morada fixa, definitiva; mas além dessa habitação-domicílio, usam ainda os Nambiquara um tipo de habitação-provisória que levantam rapidamente, onde quer que se encontrem à hora de anoitecer.

As casas definitivas, dos índios do vale do Juruena, são pouco diferentes das habitações dos que vivem no extremo da Cordilheira do Norte.

A aldeia – (Kôkôzú) – do Rio Juína, onde estivemos, constava de duas casas. A primeira era pequena, hemisférica, mal feita, provida de uma porta mais ou menos ampla; cabiam nela, à vontade, cerca de 20 indivíduos. A outra tinha forma de prisma reto, triangular, de que o solo formava uma das faces. Era mais bem acabada. Media nove metros de comprimento, 3.5 de largura por 2,5 de altura. Uma das suas extremidades era fechada; ao lado, escondida pelas folhas que caíam do teto, uma pequena porta. A outra extremidade era aberta livremente. A cabana estava orientada no sentido Este-Oeste; a extremidade fechada, do lado do nascente. Destarte, à tarde, o Sol entrava pela casa a dentro, durante algumas horas. Duas forquilhas, plantadas nos extremos, sustentavam a travessa longitudinal, à qual vinham ter alguns caibros fixados, do outro lado, no chão, e destinados a suportar as grandes palmas protetoras do uauaçu. As palmas que se achavam de um lado eram dobradas, no alto, sobre o outro lado do teto, por cima da travessa longitudinal; para mantê-las assim, corriam, ao longo da casa, duas varas, amarradas aos caibros interiores por meio de laços de embira. […]

Frequentemente mudam o local do domicílio. Seguindo o trilho que nos levou à maloca do Juína, onde pernoitamos, passamos por diferentes lugares onde havia estado a aldeia. Não é ainda conhecida a causa determinante das mudanças para locais tão próximos; talvez a morte de um índio, ou a ocorrência de alguma desgraça comum. […]

Para prevenir a entrada da enxurrada por debaixo da palha, que vem do teto ao chão, cercam os índios Tagnanis e Tauitês as suas casas cônicas, pelo lado de dentro, ao longo da linha que as limita, com uma série de talas imbricadas, feitas das cascas do jatobá. A chuva não penetra. Quem imaginasse que o interior das cabanas é abafadiço e quente faria injustiça ao edifício; o ar entra de um modo admirável, através dos intervalos das folhas. Todavia, quando os índios acendem foguinhos, a coisa muda de figura. E, felizmente para eles, a permeabilidade da cobertura de palha livra seus olhos de graves doenças, que se encontram em muitos povos incultos, cujas habitações retêm a fumaça. […]

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 18.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmetes  

Bibliografia  

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1938.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    No cânone de Policleto seriam 7 vezes e, no de Lisipo, 8,0 vezes.

[2]    Pereba: como curiosidade pere’wa (ferida) é nome tupi para lesões cutâneas.

[3]    Invaliosa: sem valor.

[4]    1.200: O Cel Rondon superavaliou erroneamente a população dos Nambiquara afirmando tratarem-se de 20.000 indivíduos. Em 1938, Claude Lévi-Strauss (LÉVI-STRAUSS) simplesmente replicou o equivo­cado levantamento de Rondon nas suas anotações.

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