A Terceira Margem – Parte CCLXXVI

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 2ª Parte – XVI 

Fazenda Estrela.

Aldeia Jatobá ‒ Aldeia Zanakwa II 

Vejamos a famosa missiva:  

O grande Chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande Chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande Chefe de Washington pode acreditar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem. Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora.

Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos.

Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende. Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro. Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso. De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra.

Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos.

Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência. Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã.

Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe.  Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

Aldeia Queimada – Cacique Nelson

Fazenda Estrela à Aldeia Kamai (30.10.2015)  

Aldeia Queimada

Kêtêrôkô é nome Paresí de Aldeia Queimada. Ao lado das casas da Comissão Rondon, os índios levantaram sua grande palhoça; lá trabalham as mulheres e vão dormir os homens que prestam algum serviço à linha telegráfica. (ROQUETTE-PINTO)

Aldeia Queimada

Partimos cedo da Fazenda Estrela e, por volta das 08h00, chegamos à Aldeia Queimada onde acompanhados do Cacique Nelson visitamos o sítio original das casas da Comissão Rondon. Depois da visita fizemos uma preleção sobre os objetivos da Expedição para toda a Aldeia e seguimos viagem.

Aldeia Queimada

Passamos pela Aldeia Rio Verde comandada pelo Cacique Carlito e fizemos uma parada na Aldeia Kotitiko capitaneada pelo Cacique Juvenal que nos aguardava devidamente paramentado. Os jovens Paresí filmavam entusiasmados nossa chegada com seus celulares e “tablets” de última geração. O Cacique Juvenal fez sua apresentação pessoal e falou da necessidade de regularizar o uso de armas de fogo pelos Paresí argumentando que essa autorização fora dada pelo Coronel Rondon, há cem anos atrás, durante o lançamento das Linhas Telegráficas. Esse argumento foi replicado em todas as Aldeias pelas quais passamos. De Kotitiko fomos para a Aldeia Kamai comandada pelo Cacique Estevão. Cavalgáramos, neste dia 22 km.

Aldeia Queimada

Entrevistamos, depois de um revigorante banho, o Cacique Geral João Arrezomae (João Garimpeiro). Após a entrevista o Cacique fez uma prece emocionante, na língua Paresí-Haliti, desejando sucesso na nossa empreitada. Fomos acomodados numa espaçosa e muito asseada oca com piso de cimento onde passamos a melhor noite desde que iniciamos a Expedição.

Aldeia Kotitiko – Cacique Juvenal

Aldeia Kamai ao AC 01 (31.10.2015)   

O dia seguiu a rotina habitual até estacionarmos no Acampamento selecionado pela equipe de apoio – Sargento Yuri e Soldado Eder. Os insetos mencionados por Theodore Roosevelt apareceram com toda pujança e só encontrávamos sossego no interior das barracas. Tentei, diversas vezes, sem sucesso, contato com familiares e amigos através do celular. Fomos dormir cedo, não havia nenhuma opção de lazer no cerrado estorricado.

Aldeia Kotitiko – Cacique Juvenal

AC 01 – Fuga das Mulas (01.11.2015)  

E era preciso deixá-los inteiramente à solta para poderem vaguear à cata de sua parca alimentação, necessitando do maior tempo possível para descanso e pasto. Ainda em tais condições muitos se enfraquecem quando não é possível levar milho, como sucedia conosco. Não conseguíamos encontrá-los antes de clarear o dia, levando horas para reuni-los, o que nos obrigava a viajar durante o período mais quente e mais fatigante do dia. (ROOSEVELT)

Aldeia Kamai ‒ Cacique Geral João Arrezomae

Nesta manhã as mulas não foram encontradas. Como era de se esperar alguns dos animais esfaimados e sedentos sumiram na estrada.

Acampando na Aldeia Kotitiko

Como se este desastre já não fosse suficiente a Viatura Marruá empenhada na busca dos mesmos perdeu sua roda dianteira esquerda, justamente o rodado que fora objeto de manutenção no 2°BFron. Perdemos o dia todo procurando os fujões até recebermos notícia de que os mesmos tinham sido encontrados e presos pelo filho do Cacique Marinho da Aldeia Zanakwa. Conseguimos contatar o Comando do 2°BFron que nos prometeu providências para o dia seguinte.

Aldeia Kotitiko – Cacique Juvenal

AC 01 à Aldeia Zanakwa (02.11.2015) 

Zaiakúti – Escudo de caçada; é formado por um arcabouço de varas flexíveis mantidas por meio de tiras de urubamba ou mesmo de arame. Tem cerca de um metro de altura e 0,40 de largura. Se a vegetação não auxiliasse o disfarce, seria fraco protetor, dispondo de área tão escassa. (ROQUETTE-PINTO)

No dia seguinte, enquanto meus parceiros deslocavam-se para a Aldeia Zanakwa fui com o filho do Cacique Marinho até a Aldeia Rio Verde tentar, sem sucesso, contato com o 2° B Fron. À tarde fomos tomar um banho revigorante nas límpidas águas do Rio Verde seguidos por algumas simpáticas crianças da Aldeia. O Sargento Yuri tinha permanecido na estrada com a viatura Marruá e no final da tarde conduziu a nova viatura até a Aldeia. A ação rápida e meritória do Cmt do 2° B Fron trouxe tranquilidade à equipe preocupada com a possibilidade de mais um dia perdido. O Cacique Marinho mostrou-nos uma oca em construção e encenou o uso do escudo de caçada (Zaiakúti).

Relatos Pretéritos 

22 a 25.01.1914  

Rondon 

22 a 23.01.1914: Do acampamento do Salto prosseguimos, na manhã seguinte, a nossa marcha para o interior do Sertão; passamos por Aldeia Queimada no dia 23, onde recebi pedido de exoneração, que concedi, do Dr. Fernando Soledade, Tenente Luiz Thomaz Reis e o Botânico Hoehne, membros da Comissão Brasileira, que vinham com a turma chefiada pelo Capitão Amílcar Magalhães, meu dedicado e diligentíssimo ajudante.

25.01.1914: Dois dias depois, acampávamos na cabeceira da Mandioca, nome dado pelos primeiros exploradores de seringa do Rio Sacre, para lembrar que aí encontraram as roças de uma aldeia de Paresí cujo auxílio lhes era indispensável paia se poderem manter no Sertão.

Nesse acampamento, fomos alcançados pelos caminhões automóveis do serviço das Linhas telegráficas, que vinham de Tapirapuã e seguiam paia Utiariti, carregados com volumes da Expedição. Ao padre Zahm, ocorreu então a ideia de se aproveitar desse (RONDON)

Magalhães  

24.01.1914: Às 14h00, do dia 24, recebi em meu acampamento o Sr. Coronel Roosevelt, seu filho Kermit Roosevelt, os naturalistas Miller e Cherrie, assim como os membros da Comissão Brasileira destacados na 1ª Turma. Mandei armar as suas barracas em uma área já preparada por mim defronte ao meu acampamento, onde permaneceram até o almoço do dia imediato.

25.01.1914: No dia 25, após o almoço seguiu o Sr. Coronel Roosevelt com sua comitiva para o Rio da Dúvida, em cuja margem direita acampou. Às 16h55 o corneteiro do meu acampamento deu o sinal de comando do 5° Batalho de Engenharia, anunciando a vossa chegada ao meu acampamento […] (MAGALHÃES, 1916)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 09.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmetes  

 Bibliografia 

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Anexo n° 5 – Relatório Apresentado ao Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon – Chefe da Comissão Brasileira – Brasil – Rio de Janeiro, RJ, 1916

RONDON, Cândido Mariano da Silva. Conferências Realizadas nos dias 5, 7 e 9 de Outubro de 1915 pelo Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon no Teatro Phenix do Rio de Janeiro Sobre os Trabalhos da Expedição Roosevelt-Rondon e da Comissão Telegráfica ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ – Tipografia do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1916.

ROOSEVELT, Theodore. Através do Sertão do Brasil ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1944.

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1938.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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