A Terceira Margem – Parte CCXI

Navegando o Tapajós ‒ Parte XXV

O Canoeiro

 Cerâmica Santarena XII

Ritos Fúnebres 

Novamente Arthur Ramos, na obra já citada, faz referência ao rito fúnebre dos Bororo e da importância do clã neste momento em que cada membro utiliza as cores e ornamentações especiais de cada clã e, logicamente, estes mesmos cuidados são levados em conta em relação ao clã a que pertencia o morto.

Os Ritos Funerários, a avaliar pelas descrições de Karl von den Steinen e do Padre Colbacchini, são bem complexos entre os Bororo. Quando um Índio está muito mal, o Bari [feiticeiro da tribo] é chamado e prediz a sua morte. Daí em diante, o Índio não toma nenhum alimento. Se a morte não chega no dia previsto, o Bari encarrega-se de mostrar a exatidão da sua profecia, sufocando o moribundo. Quando o Índio morre, seu corpo é ungido de urucu e imediatamente coberto a fim de que as mulheres e as crianças não o vejam. Começam então os altos lamentos das mulheres. Os parentes demonstram a sua dor, talhando o corpo profundamente com conchas cortadiças, de maneira a fazer correr profusamente o sangue. O número dos ferimentos é proporcional ao afeto que se tributava ao morto. Os ferimentos são depois tratados com a polpa do fruto do jenipapo. Começam os cânticos fúnebres, cadenciados ao ritmo do Babo, instrumento feito de uma cabaça elíptica oca, contendo no seu interior algumas sementes duras, e um cabo de madeira.

Enquanto isso, o morto é envolvido numa esteira com os objetos que lhe pertenciam, inclusive o arco e as flechas quebrados. O cadáver é em seguida transportado ao Baimannageggeu, espaço de terreno, no centro da Aldeia, onde se iniciam os funerais oficiais, que duram toda a noite. Os cânticos são dirigidos pelo chefe da Aldeia, ornado com o Pariko. O cântico principal é depois seguido dos cânticos de cada Clã. A sepultura, de 30 a 40 centímetros de profundidade, é cavada próximo ao Baimannageggeu. Nela é depositado temporariamente o morto, e coberto de terra e água, enquanto que os parentes novamente retalham o próprio corpo, em altos gritos.

Diariamente os parentes vêm lançar água à sepultura, para apressar a putrefação do corpo e poderem retirar os ossos. O luto é observado pelos parentes, da maneira seguinte: arrancam ou cortam os cabelos e depois, à medida que vão crescendo, não os cortam na fronte e ao nível das orelhas, enquanto dura o luto. Abstêm-se de pintar o corpo com urucu. A duração do luto é de alguns meses a um ano e mais.

Na mesma tarde do enterramento, o Aroettowarari [médium] evoca as almas para saber a localidade onde se encontra a caça. Partem então todos os Índios para essa caça religioso-mágica em honra do morto. Os animais mortos são levados aos parentes do defunto e são comidos numa refeição comum. Duas semanas depois do enterramento, recomeçam os cânticos e as danças especiais – Mariddo, Aige e Aroe Maiwo – e por fim, ao som de um cântico especial, o morto é desenterrado, ainda putrefeito, e os ossos são extraídos e lavados no Rio próximo. É organizada uma refeição social, para a qual são convidadas as almas dos mortos. As mulheres não tomam parte nesta refeição. Os ossos são então pintados de urucu e ornados com as cores do Clã do morto.

O crânio é também adornado cuidadosamente com penas. Tudo é colocado num cesto, também ornado com as cores do Clã, e na manhã seguinte, os ossos, dentro do cesto, são entregues à sua sepultura definitiva, no Rio próximo ou num Lago, mas sempre num lugar determinado, o Aroe Gari, ou “morada das almas”. Durante todo o tempo dos funerais, os Índios adotam as ornamentações especiais, já descritas, e que variam para cada Clã. (RAMOS)

Contextos Deposicionais 

As escavações realizadas no entorno de Santarém, mencionadas no capítulo anterior, identificaram dois tipos de descarte relativos à Cerâmica cerimonial dos Tapajó: os bolsões e a Cerâmica associada ao lixo comum. Nestas modalidades é difícil inferir qualquer tipo de ritual fúnebre já que os vestígios foram removidos e as peças misturadas sem qualquer tipo de cuidado.

A Noroeste do sítio Carapanari, porém, num local em que se pode descortinar o Rio Tapajós, foi realizada, sem dúvida, a descoberta mais importante. Foi localizado um vaso inteiro, com capacidade para armazenar em torno de 5 litros de bebida, e ao seu redor foram detectadas cinzas, o que nos leva a crer que o artefato foi enterrado e, ao redor dele, acesas pequenas fogueiras. No seu interior foi encontrada uma faca confeccionada em arenito, indicando um ritual funerário. Este modo de descarte, de deposição “in situ”, indica, evidentemente, a ocorrência de um ritual funerário. Nos grandes vasos de bebida, como o encontrado no sítio Carapanari, se misturavam as cinzas do morto que eram bebidas pelos participantes do rito.

Vasos de Cariátides 

Para os seres superiores, a bebida era colocada no vaso de cariátides considerando sua pequena capacidade e a dificuldade que se teria para alcançar o líquido em decorrência dos inúmeros artefatos aplicados em suas bordas. Os urubus-reis que adornavam, invariavelmente, a peça de Cerâmica destinavam-se a conduzir o homenageado para sua derradeira morada. Observamos em algumas peças que estes animais, invariavelmente, quando voltados para a borda do vaso, tinham suas asas fechadas e para fora abertas sugerindo um rito de passagem.

Vasos de gargalo 

Os vasos de gargalo serviam de urnas mortuárias onde eram depositadas parte das cinzas do defunto. Estes vasos eram decorados com o animal que representava o clã do defunto e alguns de seus animais místicos.

O fato de as aves se apresentarem com as asas abertas ou fechadas e os grandes sauros serem representados com a boca aberta ou fechada pode sugerir que o falecido tenha morrido em ação, no combate ou na caça, ou simplesmente de velhice na segurança de sua Aldeia.

Outros animais que compõem as peças representavam, seguramente, alguma façanha heroica, na guerra ou na caça que muitas vezes, pela sua relevância, era motivo, inclusive, para mudar até o nome do homenageado.

As figuras antropomorfas que, eventualmente, faziam parte dos ornamentos representando adultos ou crianças indicavam, eventualmente, a idade do finado. A presença constante dos batráquios nos vasos rituais reverencia o animal que garantia a supremacia bélica dos Tapajó no combate.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 07.05.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

RAMOS, Arthur. Introdução à Antropologia Brasileira – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Livraria Editora da Casa, 1961.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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