A Terceira Margem – Parte CXCV

Navegando o Tapajós ‒ Parte XIII 

O Cruzeiro – Edição n° 22, 17.03.1956

 Revolta de Jacaré-Acanga IV   

Exilados na Bolívia   

O Cruzeiro, n° 22
Rio de Janeiro, RJ, 17.03.1956 

Depoimento Inédito dos três Revolucionários Desterrados em Santa Cruz de La Sierra [Texto de Jorge Ferreira e Fotos de Henri Ballot] 

O Cruzeiro – Edição n° 22, 17.03.1956

Em Santa Cruz de la Sierra, onde o Major Paulo Vitor, o Capitão José Chaves Lameirão e o Sargento José Gunther encontram-se exilados, o repórter Jorge Ferreira colheu o depoimento dos três participantes da malograda rebelião, enquanto Henri Ballot registrava fotograficamente a permanência daqueles militares em terras bolivianas. As revelações que se seguem baseiam-se na exposição feita ao jornalista pelos dois oficiais, que contam em detalhes os acontecimentos que se desenrolaram em Jacareacanga, depois da queda de Santarém até os últimos instantes da intentona.

Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), março.

‒  Assumimos toda a responsabilidade do movimento.

‒  Sobre nossas costas devem cair todas as suas consequências. E não fomos traídos por quem quer que seja. Disseram que o Brigadeiro Eduardo Gomes, o General Juarez Távora e uma parte considerável da Marinha tinha compromissos conosco, e que teriam falhado aos mesmos. É uma inverdade. Sequer conheço o Brigadeiro Eduardo Gomes pessoalmente, ou o General Juarez Távora.

‒  Não temos compromisso com ninguém, ninguém tinha compromissos expressos conosco: nem Exército, nem Marinha, nem Aeronáutica, nem partidos políticos. Houve falhas, evidentemente. Mas partiram de dois civis – cujos nomes peço não revelar. Logo mais lhe direi em que circunstâncias elas se processaram.

O Capitão José Chaves Lameirão, 28 anos, pai de dois filhos, paulista de Coroados, companheiro de Veloso desde os primeiros instantes da quase romântica rebelião das selvas amazônicas, fala apressadamente, empolga-se pela narrativa, despeja a jato suas emoções. O calor tórrido do meio-dia em Santa Cruz de la Sierra faz-nos suar em bicas. Vamos sorvendo a segunda jarra de limonada, e pergunto-lhe:

‒  Diga-me, Capitão, que motivos os levaram a rebelar-se?

‒  Ora, isso não é segredo. Levantamo-nos contra o Governo, contra a volta daqueles que deveriam ter sido alijados da vida pública do País depois de 24.08.1954. Pusemo-nos de armas nas mãos contra o “mar de lama” que levou o Presidente Vargas ao suicídio.

‒  Mas vocês, sendo um punhado, tinham esperanças de vencer as Forças Armadas de uma nação inteira?

‒  Tínhamos. Nosso plano era iniciar efetivamente a Revolução. Era preciso que alguém o fizesse. Veloso e eu tomamos a iniciativa. Nosso plano era apoderar-nos logo de início da Base Aérea do Cachimbo ‒ o que fizemos. É preciso que se saiba que o Cachimbo fica mais ou menos equidistante de Fortaleza, Recife, Natal e Salvador.

    Com a Base em nossas mãos, seria fácil aos camaradas que quisessem aderir, com seus aviões as “B-25”, as “Fortalezas Voadoras” do Nordeste e os “Ventura” de Salvador, principalmente – voar diretamente ao Cachimbo, e ali lutar pela causa. Chamaríamos também as atenções da Nação para aquele ponto, para o Amazonas, e isto poderia facilitar o levante no Sul.

–  O plano de vocês tinha, então, ramificações?

–  Não. Já lhe disse que o descontentamento de gran­de parte da Aeronáutica, Marinha e Exército é pa­tente. Achávamos que alguém começando a revolu­ção, ela se alastraria naturalmente. Dois elementos civis conheciam em detalhes nossos planos. E eles ficaram de fazer o serviço de ligação e coordenação nas Bases que estávamos certos nos eram favorá­veis. Mas esses homens falharam. Outro fator que nos prejudicou muito foi a saída do Rio de Janeiro. Pretendíamos decolar do Campo dos Afonsos silen­ciosamente, no sábado, dia 11, tomar o Cachimbo, no domingo, dia 12, que era carnaval. Só segunda ou terça é que seria dado o alarma. Por verdadeiro azar, porém, naquela manhã do dia 11 a chave da “hangar” em que se encontrava o “Beech”, e que desde que existe o Parque fica num determinado lugar, nesse dia não foi encontrada. Tivemos então que prender o Oficial de Dia, arrombar o “hangar”, desobedecer a torre de controle, e o alarme foi dado. Isto nos prejudicou muito.

O Major Paulo Vítor, paraense, 34 anos, casado, pai de três meninos que feito prisioneiro de Veloso em Jacareacanga depois aderiu à Rebelião passando um rádio ao Ministro da Aeronáutica dando ciência dessa decisão, é um homem calmo, de fala mansa, mas duro na ação. Não se arrepende, como Lameirão, de ter feito o que fez. Quando, no dia 29, estavam sob o fogo de três “Fortalezas Voadoras”, lá em Jacareacanga, momentos antes da retirada para a Bolívia, metralhou uma “B-25” pilotada pelo Tenente Zanoni, que segundos antes quase o matara.

‒  Devo ter acertado, porque o Zanoni, que vinha nos Metralhando em voo rasante, passou a fazer fogo lá de cima, a grande altura.

‒  E como foi a “Operação Jacareacanga”?

‒  Foi uma verdadeira Batalha. Nós ‒ o Capitão e eu ‒ iremos lhes contar tudo. Antes, porém, gostaria que fizesse uma referência ao tratamento que estão nos dando o povo e as autoridades da Bolívia. Estamos em Santa Cruz como se estivéssemos em nossa própria casa. Jamais nos esqueceremos desta prova de amizade deste País.

Passam a seguir, Paulo Vitor e Lameirão, a narrar os acontecimentos desenrolados após a recaptura de Santarém pelas Forças Legalistas. O Sargento João Gunther, 38 anos, casado, pai de três filhos, que os acompanhou desde o início, e que agora amargura, aqui, as consequências do exílio [toda a vez que fala da mulher o dos filhos os seus olhos tornam-se úmidos], de quando em vez dá um detalhe, corrige esta ou aquela passagem. Assim se passaram os fatos:

No dia 22, às 19 horas, os revoltosos retiraram-se de Santarém, evitando combate com as Forças do Governo que viajavam no navio “Presidente Vargas”; Veloso e Paulo Vítor retiraram-se num “Douglas” e Lameirão e “Cazuza” num “Beech”. Levaram armamento, munição e 25 homens leais. O voo era temerário, pois não havia cobertura de espécie alguma, era feito de noite, sobre a selva, e em meio de uma tremenda tempestade. Às 21 horas pousaram em Jacareacanga, tendo apenas um lampião a querosene iluminando cada extremidade da pista.

No dia seguinte Lameirão voa para Itaituba no “Beech”, levando, para serem libertados, os prisioneiros Tenente médico Adonay [que enquanto esteve preso atendeu desveladamente todos os doentes de Jacareacanga, salvando inclusive a vida de uma parturiente] e os Sargentos Farias Lima e Osvaldo Gomes. De ltaituba Lameirão deveria trazer 5 homens seus.

Acontece, porém, que estes haviam se retirado para Jacareacanga por via fluvial, e o Juiz de Direito, o Prefeito, o Delegado e outras autoridades de Itaituba pretendendo prender Lameirão assim que aterrissasse, armaram 50 homens e ficaram de emboscada no campo. Este continuava obstruído com tambores de gasolina, e só seria desobstruído com um senha de Lameirão. O Capitão deu a senha, os homens de emboscada, por não a compreenderem, retardaram muito a retirada dos tambores. Lameirão desconfiou e regressou a Jacareacanga com todos os prisioneiros. Nesse mesmo dia Veloso decidiu que um barco iria a São Luís, comandado por Cazuza, levando dez homens e nove prisioneiros, que deveriam ser soltos lá. Cazuza tinha ainda a missão de reconhecer a área, preparar armadilhas e a destruição de pontes, a fim de retardar a ação das tropas legalistas. E bom que se esclareça que o Rio Tapajós, na altura de S. Luís é encachoeirado, impedindo a navegação.

Tem-se que fazer o baldeamento e andar-se por uma estrada de 15 km, construída pela “Alta Tapajós” e depois retornar ao Rio. Nesses 15 km, portanto, passagem obrigatória das tropas legais, Cazuza deveria lutar. No dia seguinte, 24, Veloso, contra a opinião de Paulo Vítor e de Lameirão, decidiu ir pessoalmente, com 5 homens, para Pimental, dar combate aos 300 soldados que estavam encarregados de sufocar, por terra, a Rebelião.

No dia 25, Lameirão, em voo de reconhecimento, viu ancorado em Pimental o barco de Veloso, e jogou-lhe uma mensagem, pedindo que regressasse com urgência a Jacareacanga, pois haviam perdido o campo de Cururu, na retaguarda, e podiam ser atacados por dois fogos. Esta queda de Cururu deu-se em face da traição de um ex-Sargento do Exército, Vilobaldo de Alencar, homem que gozava da absoluta confiança de Veloso. Vejamos o que ocorreu. Paulo Vítor, no dia 20, resolveu ocupar Cururu, encarregando disso o citado Vilobaldo de Alencar. Este devia tomar o campo, aprisionar a guarnição que lá se encontrava e remover para Jacareacanga todo o armamento e a estação de rádio ali montada. Com esta estação os revoltosos poderiam falar com todo o País. Missão importante, para a qual Alencar – que em Jacareacanga exercia funções de relevo, que aderira à Revolução desde o início, que exercitava homens no tiro ‒ apresentara-se como voluntário. E foi nomeado chefe de nove homens, levando metralhadoras de mão, bombas de TNT, de gás lacrimogêneo, fuzis e farta munição. O plano era este: subir o Tapajós em navio aprisionado pelos revoltosos, entrar no Rio Teles Pires, evitando o Rio Cururu para não chamar a atenção da guarnição do campo, ir até certo ponto, depois trocar o navio por um barco com motor de popa e por fim ir a remo até uma picada que, em duas horas de marcha pela selva, leva ao campo de Cururu.

O ataque deveria ser de madrugada. Pelas informações de dois índios Mundurucus, a guarnição do campo era de sete homens, armados de sete carabinas. Alencar tinha, portanto, superioridade de homens, de armas e contava ainda com o fator surpresa. Pois Alencar fez tudo ao contrário: subiu o Cururu, alertou a guarnição, que passou a pedir reforços pelo rádio e passou dois dias e duas noites acampado na mata, sem atacar o campo.

Os reforços pedidos pelos legalistas chegaram [40 homens bem armados] e saíram ao encontro de Alencar em um barco requisitado de uma missão de Padres alemães localizada nas adjacências. À frente do barco vinha Frei Plácido que, à noite, segurando uma lanterna, gritava em voz grave:

–  Não atirem, que aqui é o Frei Plácido! Eu sou de paz!

Pois com tudo isso, um homem de Alencar conseguiu prender o Frei. Alencar conferencia com o sacerdote, a sós, e resolve entregar-se. Os nove revoltosos que o acompanham recusam-se a render-se, como também se negam a entregar-lhe o armamento que possuem. E com a aproximação das Forças do Governo, três deles entram pelo igapó [mata inundada] e seis conseguem fugir no barco, regressando a Jacareacanga. Até o dia 29 não se tinha notícias dos três primeiros. No dia 25, interceptando mensagem de Cururu, Paulo Vítor soube da prisão do Alencar e dos reforços chegados àquele campo. Daí o apelo para que Veloso regressasse a Jacareacanga, para ali resistirem juntos.

Nesse mesmo dia 25 avião legalista sobrevoa Jacareacanga, comandado pelo Capitão Assis, e joga panfletos com os seguintes dizeres:

Povo de Jacareacanga. Suas vidas correm perigo. Aconselhem àqueles que estão com o Major Veloso para que abandonem esta loucura. Abandonem todos Jacareacanga. Fujam se possível. Pensem nas crianças. Quantas mulheres perderão seus maridos? Quem avisa amigo é!”. [Transcrição “ipsis literis”]

Paulo Vítor e Lameirão ficam sabendo que “Fortalezas Voadoras” haviam sido transferidas para Belém. Sabiam que a desigualdade era grande, e que o fim se aproximava. Voltam a Pimental, jogam mensagem a Veloso, insistindo no seu regresso. Querem estar juntos para qualquer decisão, inclusive para morrer. No dia 27 voltam a pedir que Veloso regresse. Sabiam que este se encontrava em São Luís, e que nessa mesma noite travou-se o combate no qual Cazuza perdeu a vida, sendo metralhado pelas costas. No dia 28, bombardeiros sobrevoam Jacareacanga, atirando panfletos exigindo a rendição e, caso contrário, ameaçando conquistar aquele povoado “a qualquer preço”. E logo, em seguida, as “B-25” metralham o acampamento dos revoltosos. Paulo Vítor passou, então, ao Brigadeiro Cabral, comandante da 1ª Zona Aérea, o seguinte rádio:

Informo Major Veloso encontra-se fora da Jacareacanga. Nenhuma decisão será tomada na sua ausência, para o que estamos dispostos a defender Jacareacanga também a qualquer preço”.

Belém responde pedindo a Jacareacanga para ficar na escuta às 14 horas, para uma resposta ao Major Paulo Vítor. Às 14 horas Belém pede que aguardem mais uma hora. As 16 horas chega o seguinte rádio:

O movimento que vocês chefiam não teve o apoio que esperavam. Veloso e Lameirão já são desertores. Falta pouco para você ser também considerado desertor. Apresente-se enquanto é tempo, pois a solução do seu caso é mais simples. Se possível, aconselhe Veloso o Lameirão também se apresentarem. Não sacrifiquem inutilmente suas vidas, de seus companheiros em Jacareacanga e de seus patrícios no cumprimento do dever. Aguardo resposta. O Capitão Barreira e Stravaqui oferecem-se para conversar com você amanhã, em fonia, do avião, e estará em Jacareacanga na hora que você desejar. a) Brigadeiro Alves Cabral

Eis a resposta de Paulo Vítor:

Aguardamos regresso de Veloso. Proponho sobrevoo de Jacareacanga do avião comandado pelo Capitão Barreira amanhã às 14 horas Z. [11 horas Rio]

Logo em seguida um “Beech” legalista sobrevoa Jacareacanga, chamando a estação de rádio local e procurando saber o nome do operador. Lameirão atende e pede para que se identifique quem quer saber o nome do operador.

‒  É o Brigadeiro Cabral.

‒  Aqui é o Capitão Lameirão.

‒  Abra o campo para que eu possa aterrar e falar com você.

‒  Negativo.

‒  Desobstrua o campo, Capitão. Vamos conversar aí mesmo, em terra.

‒  Estranho o pedido do Brigadeiro em face dos rádios trocados entre o Major Paulo Vítor e a 1ª Zona Aérea, assinados pelo senhor mesmo.

‒  Ignoro a existência desses rádios. Leia-os para mim.

O Capitão deu ciência ao brigadeiro do teor das mensagens.

‒  Deve ter sido resolução de quem estava respondendo pela Zona. Endosso-os. Mas abra o campo, Capitão.

‒  Negativo, Brigadeiro.

‒  Está bem. Vou tomar as providências para vocês parlamentarem amanhã com o Capitão Barreira. Boa tarde, Capitão. Seja feliz.

‒  Ah, brigadeiro. O senhor sabe que uma “B-25” metralhou o nosso acampamento? Que poderia ter matado mulheres, crianças e prisioneiros?

‒  Quando foi isso?

‒  Hoje, pela manhã.

‒  Não estou de acordo com esse ataque. Até amanhã, Capitão. Tenha uma boa noite.

‒  Até amanhã, Brigadeiro. Felicidades para o senhor.

Em Jacareacanga, no povoado, que dista três quilômetros da Base, a população estava sobressaltada. Após o ataque da “B-25”, Paulo Vítor e Lameirão providenciaram a retirada de mulheres, crianças e velhos, além dos prisioneiros, para lugar seguro, na outra margem do Rio. Deram liberdade aos seus homens para que se retirassem com suas famílias. Com eles ficaram apenas seis caboclos, que se recusaram abandoná-los.

Tinham, nesse dia, 28, resolvido entregar Jacareacanga, assim que Veloso chegasse. Não iriam sacrificar a vida da população civil de Jacareacanga sem a menor possibilidade de êxito.

‒  Mas esperaríamos Veloso, de qualquer forma. E se fôssemos obrigados, lutaríamos. Não morreríamos “de graça” – diz-nos Paulo Vítor.

Foram recolhidas todas as armas que estavam em poder dos civis. Frei Angélico, que estava presente, aplaudiu a medida.

‒  Esse Frei não tomou qualquer partido. Esteve conosco sempre, aconselhando-nos. Seu desejo era evitar derramamento de sangue entre irmãos.

No dia 29, pela manhã, Frei Angélico, a pedido de Paulo Vítor e de Lameirão, rezou missa pela alma de Cazuza. Às 10 horas o Major, o Capitão, o Sargento Gunther, os seis voluntários e Frei Angélico saíram para o campo. Às 11h15, obtiveram informação confidencial de que Veloso não poderia mais atingir Jacareacanga, que estava isolado na selva, e o conselho de que “se retirassem para o estrangeiro com a máxima urgência”. Paulo Vítor e Lameirão decidiram então ganhar tempo. Pediram, na parlamentação combinada com os legalistas, mais 24 horas, “para esperarem o Veloso”. Com isso pretendiam consertar o “Douglas”, que estava com “pane” de partida no motor esquerdo. Às 11h30 chegam duas esquadrilhas do Governo: três “Catalina” e três “B-25”, além de um “Beech”. O Capitão Barreira, do “Catalina”, inicia a parlamentação. Os outros, para que as duas partes estivessem à vontade, tinham ordem do Coronel Walter Bastos para desligar os respectivos rádios e tirar os fones dos ouvidos. O Capitão Barreira disse:

‒  Vocês não têm a menor chance de êxito. Vai haver derramamento inútil de sangue. Rendam-se.

‒  Queremos mais 24 horas. Veloso não está aqui. Amanhã decidiremos com ele ou sem ele.

‒  Não estou autorizado a decidir isto. Vou comunicar-me com Brigadeiro Cabral.

Barreira entrou em contato com o Brigadeiro. Aqui embaixo, Vítor, Lameirão e Gunther viviam momentos decisivos. Se lhes fossem cedidas as 24 horas, no dia seguinte ninguém os encontraria em Jacareacanga, teriam, de madrugada, rumado para a Bolívia. Mas o Brigadeiro Cabral que estava no “Beech” ao saber do pedido de Paulo Vítor e Lameirão, teve uma explosão de raiva. E ‒ contam-nos Paulo Vítor e Lameirão – passou a proferir impropérios, chamando os revoltosos de “cachorros e de cretinos”. Apontam Frei Angélico como testemunha. E disse ainda isto:

‒  Amanhã vou mandar fuzilar vocês. Vou espetar o Paulo Vitor na ponta de uma espada. Vou arrasar tudo. Amanhã não, hoje de tarde! De tarde não, agora! “B-25”! Preparem-se para atacar a casa de rádio.

As “B-25” abriram fogo imediatamente sobre a casa de força e a estação rádio, onde se encontravam os oficiais revoltosos parlamentando com os legalistas. Paulo Vítor, Lameirão e Gunther, os únicos que tinham metralhadoras de mão, refugiaram-se na mata. Os outros, inclusive o Frei, abrigaram-se por perto. E abriram fogo contra os aviões. A batalha durou cerca de 90 min. Uma rajada de metralhadora passou a poucos metros de Paulo Vítor. Cessado o tiroteio, dois “Catalina” amerissaram no Rio Tapajós, que estava desguarnecido, porque julgavam os revoltosos que a parlamentação excluía a possibilidade de combate.

As tropas paraquedistas saíram de dentro dos “Catalina” e ocuparam o povoado, que dista 3 km do campo. O Brigadeiro Cabral deu ordem para as “B-25” protegessem os “Catalina” e a progressão dos soldados para o campo.

Paulo Vítor, Lameirão e Gunther saíram da mata, correram cerca de 1.500 m em aberto, e foram até o local em que se encontrava o “Douglas”, camuflado. Decidiram sair dali imediatamente. Iniciaram a retirada da camuflagem dos motores, para dar a partida. Nesse instante passou a “B-25” pilotada Capitão Zanoni, e abriu fogo contra os revolucionários. Paulo Vítor respondeu, e afirma ter atingido o alvo. Tentaram dar a partida no motor esquerdo. Nada.

Apelaram para a manícula, auxiliados pelos seis voluntários que com eles permaneceram até os últimos instantes. No povoado as tropas governista já marchavam para o campo. E o motor esquerdo teimava em não pegar. Foram 75 min de ansiedade, de esperança de desespero, em que estavam praticamente entre a vida e a morte. Mas o; motor roncou! O direito foi fácil: estava em ordem. Iniciaram a saída da mata. O “Douglas” encalhou. Foram 5 min que pareciam séculos. Por ordem de Paulo Vítor, os seis caboclos desobstruíram 500 m da pista numa largura de 15 m.

Paulo Vítor arremeteu, e o “Douglas” decolou levando-os para o exílio. Eram exatamente 14h07. Uma das “B-25” percebendo a fuga, perseguiu-os por mais de uma hora.

‒  O que nos salvou foi o mau tempo. Entrávamos pelas nuvens adentro, procurando fugir da mira da “B-25”. Nós não tínhamos a menor possibilidade de reação. Estávamos à mercê deles.

Às 19h47, depois de voarem 1.500 Km, pousavam em terras bolivianas em Santa Cruz de la Sierra, onde amargam as penas do desterro.

‒  Mas há um projeto de anistia, que certamente será aprovado e permitirá o regresso de vocês três ao Brasil. Foi proposto pelo próprio Governo.

‒  Se o Governo agiu assim, ele deve saber por que o faz. Ficaremos aguardando os acontecimentos.

‒  E se não vier a anistia?

‒  Iremos trabalhar. E quando pudermos, chamaremos as nossas famílias e nos fixaremos nesta terra que tão generosamente nos recebeu

No dia 4 de março, o embaixador brasileiro na Bolívia, Sr. Teixeira Soares, pediu ao Governo deste país o internamento de Vítor, Lameirão e Gunther, longe de Santa Cruz de la Sierra, de Cochabamba e de La Paz. Alegando que estas três cidades são pontos de escala do CAN, da FAB, e que os três rebelados continuariam, assim, mantendo contato com seus camaradas de farda. Até o momento em que redigimos estas notas, nada havia sido resolvido pelo Governo boliviano. (O CRUZEIRO, N°22)

O Cruzeiro – Edição n° 22, 17.03.1956

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 15.04.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia   

O CRUZEIRO, N° 22. Depoimento Inédito dos três Revolucionários Desterrados em Santa Cruz de La Sierra – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista O Cruzeiro, 17.03.1956.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;    

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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