A Terceira Margem – Parte CCVI

Navegando o Tapajós ‒ Parte XX

O Canoeiro

 Cerâmica Santarena VII 

Cachimbos 

Cachimbos (Wagner Souza e Silva)

Os cachimbos apresentam diferenças fundamentais em relação à Cerâmica Santarém no que se refere à forma, à confecção e aos motivos ornamentais. O aspecto mais curioso é que se trata de cachimbos angulares. Não há registros etnográficos, até o ano de 1700, sobre o uso do tabaco pelos habitantes da Bacia do Rio Amazonas, além disso, os cachimbos dos Índios da América do Sul são, na sua maioria, de forma tubular. Estes cachimbos angulares foram, sem dúvida, introduzidos pelos europeus. Frederico Barata argumen­ta que alguns desses cachimbos foram modelados pelos próprios jesuítas, ou Índios sob sua orientação. Barata afirmou que “o barro empregado é muitas vezes o mesmo dos vasos típicos”. Contrariando esta afirmativa, a análise da Cerâmica de Santarém mostra que o antiplástico utilizado era, predominantemente, o cauixi e o caco moído, ao passo que nos cachimbos, grande parte não possuía nenhum aditivo ou, quando havia, era o caripé. A técnica utilizada na sua confecção corrobora que a manufatura dos cachimbos é bem mais recente.

Eles eram manufaturados em duas partes iguais para depois serem unidas. Como curiosidade, quase metade dos cachimbos tubulares, do acervo do Museu Paraense Emilio Goeldi, têm o formato do órgão sexual masculino. Os demais são antropomorfos ou zoomorfos.

Pesquisa em curso 

O trabalho mais recente proposto para a área foi o de Roosevelt [1987]. Ela começou discordando das teorias explicativas propostas para o desenvolvimento cultural das terras baixas, que classificam a Amazônia como um ambiente de floresta tropical chuvoso, pobre em recursos, uniforme sazonalmente, úmido e de solo extremamente lixiviado, portanto não propício para o estabelecimento de sociedades mais complexas. A descoberta de sociedades populosas e complexas, nestas terras baixas, como é o caso de Santarém e Marajó, foi atribuída a invasão e difusão de povos vindos dos Andes, local considerado como o “centro de inovação da América”. Segundo a autora, o problema com esta explicação do desenvolvimento cultural nas terras baixas foi a caracterização imprecisa do meio-ambiente, que considerou a Amazônia como uma floresta tropical chuvosa. Porém, a Amazônia não é uniforme e possui em seu interior áreas com clima sazonal de savana, como é o caso de Marajó e Santarém. Ela ressaltou que este também é o clima de algumas das mais antigas e avançadas culturas nas terras baixas americanas, como os Maias e os povos da região do Circumcaribe. Roosevelt descreveu a região de Santarém como situada na Boca do Rio Tapajós em ambiente de savana e possuindo solo de terra firme junto à várzea. Considerou-a diferente das outras várzeas do Amazonas, porque conserva antigas superfícies de terra que datam do Pleistoceno e até mais antigas. Para começar sua pesquisa na área, Roosevelt estabeleceu uma sequência hipotética, baseada na análise tipológica das coleções e comparações com sequências, também hipotéticas de outras regiões. Embora faça a descrição, a autora não apresenta as características e tipos cerâmicos considerados para sua elaboração. Roosevelt tentou:

usar esta sequência para seriar os componentes das coleções dos levantamentos de superfície de Nimuendaju e Bezerra de Menezes para construir estágios sequenciais de assentamentos na região, porém estas coleções são principalmente de Cerâmica simples impossíveis de seriar sem dados estratigráficos da escavação.

A sequência hipotética constitui-se das seguintes fases:

‒ Santarém, Igarapé-Açu, Aldeia, Lago Grande, Taperinha, Ayaya e Rhome.

Roosevelt identificou a fase Santarém com a chefia ou cacicado dos Tapajó datando do primeiro milênio A.C.. Seus numerosos sítios de terra preta, localizados nas terras firmes, indicam uma enorme população multiétnica. A Cerâmica tem como aditivo cauixi e possui uma decoração extremamente trabalhada com aplique, incisão e pintura, sendo filiada ao horizonte-estilo Inciso Ponteado. Suas formas mais comuns são as garrafas, tigelas, pratos e efígies. Além dessas, inclui cachimbos, apitos e alguns pequenos vasilhames perfurados, possivelmente para tomar drogas.

A fase IgarapéAçu é datada relativamente em torno de A.D. 500-1000, filiada às tradições Borda Incisa e Policroma e possui, como aditivo da Cerâmica, o cauxi. Segundo Roosevelt, da Cerâmica conhecem-se apenas amostras de superfície, cujos motivos característicos são os grandes entalhes nas paredes dos vasilhames e nas bordas flangeadas e entalhadas.

Roosevelt relacionou a fase Aldeia, localizada em Santarém, com os horizontes estilo Saladoíde-Barrancoíde do Orenoco e considerou-a mais antiga que a anterior. Segundo sua descrição, a Cerâmica possui uma pasta avermelhada, com tempero de cauixi ou caripé, pintura vermelha e branca, asas zoomorfas e entalhe curvilíneo. Sua datação é estimada em cerca de 2100 A.C. a A.D. 500 no Orenoco.

A fase Lago Grande que aparece no local de mesma denominação e em Santarém, é ainda mais antiga. É caracterizada por uma Cerâmica de paredes espessas, temperada com cascalho e cauixi. As formas dos vasilhames são hemisféricas de cor vermelho-amarronzado, com decoração simples, incisa e ponteada.

A Cerâmica da fase Taperinha é proveniente de um sambaqui na região de mesmo nome, localizado aproximadamente a 40 km de Santarém. Roosevelt, baseada na hipótese de Hartt, supôs que o sambaqui possa representar um período de transição entre as ocupações pré-cerâmicas e as primeiras ocupações cerâmicas. Os vasilhames são hemisféricos e não decorados, tendo a pasta temperada com cascalho e conchas.

Ainda neste sambaqui, definiu a fase hipotética pré-Cerâmica Ayaya, com base no material lítico toscamente lascado, como pontas, raspadores, quebra-coquinhos e batedores.

E além desta fase pré-cerâmica, sugeriu a possibilidade de uma mais antiga no mesmo local, chamada Rhome. O material característico desta seriam grandes pontas finamente entalhadas, com base côncava ou pedúnculo, filiadas morfologicamente ao Protoarcaico.

Roosevelt afirmou que se sua reconstituição hipotética do sambaqui de Taperinha estiver correta, as três últimas fases descritas seriam os primeiros componentes conhecidos das primeiras ocupações cerâmicas e do pré-cerâmico registrados nas várzeas do Amazonas. Com o objetivo de testar sua sequência hipotética criada, a autora planejou escavações em Santarém, Taperinha e Lago Grande. O projeto iniciou-se em 1987, realizando corte-testes em Taperinha e Aldeia. As escavações em Taperinha revelaram um:

sambaqui bastante extenso apresentando 6,5m de profundidade e diversos hectares de terra. Os líticos lascados do sítio compõem-se de toscos artefatos de sílex local laminados por percussão, incluindo ainda lascas utilizadas, raspadores, gumes, cinzéis, machados, pedras de quebrar nozes, moedores, alisadores e utensílios de ossos e chifres.

A Cerâmica encontrada em Taperinha possui como aditivo areia. […] Baseada em datações radiocarbônicas de carvão, conchas e carbono proveniente da Cerâmica, a idade deste sambaqui foi estabelecida entre 5.000 e 4.000 A. C.. Roosevelt afirma que, embora a Cerâmica de Taperinha seja semelhante a algumas outras cerâmicas antigas, é no mínimo 1.000 anos mais antiga de que a do Norte da América do Sul e 3.000 anos mais antiga que a Cerâmica dos Andes e Mesoamérica. Isso prova portanto, que a Cerâmica de Taperinha não pode ser derivada delas, porém é possível que as outras sejam derivadas da Cerâmica amazônica ou que tenham origens independentes. As escavações em Santarém não produziram material possível de ser datado. Porém com base nos estilos horizontes cerâmicos da Amazônia, Roosevelt estabeleceu que:

em algum momento após cerca de 3.000 anos A.C., surgiu ao longo das várzeas dos Rios, em diversas partes da Grande Amazônia, um modo de vida que parece ter sido bastante similar àquele dos atuais Índios amazônicos.

Isto é, eram:

culturas de Aldeias de agricultores sedentários, embora estas culturas aparentem ter sido totalmente agrícolas na Amazônia. Elas parecem representar o estabelecimento generalizado nas terras baixas de horticultores de raízes.

Sua subsistência, além do cultivo de raízes, incluía a caça e a pesca. Embora os sítios da região Santarém e Lago Grande ainda não tenham produzido datações [o primeiro provavelmente por falta de material adequado, uma vez que o sítio fica no centro da Cidade de Santarém, e o segundo porque ainda não foi escavado], a análise do material cerâmico com base nos estilos horizontes confirma a sequência hipotética da autora. Ao contrário dos outros, Taperinha produziu datações inquestionáveis, provando assim sua antiguidade como a estabelecida na sequência hipotética. Os resultados do projeto desenvolvido por Roosevelt vêm fornecendo importantes contribuições para arqueologia amazônica, pois derrubou a suposição que o solo amazônico não suportaria ser habitado por longos anos, estabelece o surgimento da Cerâmica como mais antiga na Amazônia do que em outras regiões do Norte da América do Sul e muda as teorias sobre a ocupação Pré-histórica da América. (GUAPINDAIA)

Cachimbo (Janduari Simões)

Fases 

Santarém (Primeiro Milênio A.C.) 

Temperada com “cauixi”, é ricamente elaborada e suas formas mais comuns são as garrafas, tigelas, pratos, efígies, cachimbos, apitos e pequenos vasilhames perfurados.

Igarapé-Açu (A.D. 500-1000) 

Temperada com “cauixi”, seus motivos caracte­rísticos são os grandes entalhes nas paredes dos vasilhames e nas bordas flangeadas e entalhadas.

Aldeia (2100 A.C.)  

Temperada com “cauixi” ou “cariapé”, localizada em Santarém e considerada a mais antiga que a anterior. A Cerâmica possui pintura vermelha e branca, asas zoomorfas e entalhe curvilíneo.

Lago Grande  

Temperada com “cascalho” e “cauixi”. Oriunda do Lago Grande e de Santarém, é ainda mais antiga. Possui paredes espessas, os vasilhames são hemisféricos de cor vermelho-amarronzado com decoração simples, incisa e ponteada.

Taperinha (A.C. 5000-4000)  

Temperada com “cascalho” e “conchas”. Proveniente de um sambaqui na região de Taperinha, a uns 40 km de Santarém. Vasilhames hemisféricos e sem decoração, embora semelhante a algumas outras cerâmicas é, no mínimo, mil anos mais antiga do que a do Norte da América do Sul e 3.000 anos mais velha que a Cerâmica dos Andes e Mesoamérica.

Ayaya 

No mesmo sambaqui de Taperinha, definiu esta fase com base no material lítico toscamente lascado, como pontas, raspadores, quebra-coquinhos e batedores.

Rhome  

O material característico desta seriam grandes pontas finamente entalhadas, com base côncava ou pedúnculo filiadas morfologicamente ao Protoarcaico.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 30.04.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

GUAPINDAIA, Vera Lúcia Calandrini. Os Tapajó: Arqueologia e História ‒ www.historiaehistoria.com.br, 2004.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;   

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

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