A Terceira Margem – Parte CLXXIX

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte LV

Rio Solimões

Anamã, AM – Iranduba, AM  

Em Manacapuru costumam dizer que:
“Quem bebe a água do Meriti
nunca mais sai daqui”.

Rio Solimões

07.03.2013 – Partida para Manacapuru 

Acordamos mais tarde, às 05h00, o Braço do Lago Anamã que permite acessar o Rio Solimões precisava ser abordado com um mínimo de luz para podermos enxergar as curvas e optar por remar pela parte interna das mesmas evitando a correnteza forte que iríamos encontrar por aproximadamente 4,5 km. Não solicitamos apoio motorizado da PM tendo em vista que a distância do hotel até nossas embarcações era relativamente curta. Às 05h40min, partimos enfrentando uma considerável correnteza contra, mantendo uma média de apenas 4,0 km/h, levamos quase uma hora para atingir o Solimões.

Lago Miriti – Manacapuru, AM

A chuva intermitente da tarde anterior intensificou-se durante a madrugada e nos acompanhou durante todo o trajeto. Avistamos uma grande Ilha defronte a Manacapuru por volta das 11h00, antigamente conhecida pelo nome de Ilha de Manacapuru, que foi engolida e levada pelas águas na década de 60. Vinte anos depois, o Rio iniciou sua reconstrução com banco de areia e, mais tarde, com uma grande praia, hoje conhecida pelo nome de Ilha de Santo Antônio.

Eu havia locado a Boca do Lago Miriti no meu GPS mas, acostumado com as ações tumultuárias do Solimões, enviei o Mário à minha frente para confirmar com os moradores a localização exata. Chegamos juntos à Boca do Miriti confirmando a posição exata obtida no Google Earth. Notamos a pujança do Lago depois de remarmos algumas centenas de metros ao observar que as águas se tornavam cada vez mais negras, mostrando que o belo Lago não havia se deixado contaminar pelas barrentas águas do Solimões. Navegamos lentamente admirando essa pérola de Lago que atrai tantos turistas à região. Nosso destino final era o Complexo Turístico Paraíso D’Ângelo.

Manacapuru 

Manacapuru é uma palavra de origem indígena derivada das expressões Manacá e Puru. “Manacá” ([1]) é uma planta e, em Tupi, quer dizer – Flor e “Puru”, da mesma origem significa – enfeitado, matizado, logo, Manacapuru = “Flor Matizada”.

Paraíso D’Angelo – Manacapuru, AM

Paraíso D’Ângelo 

Dentre as várias opções de ecoturismo, ou locais agradáveis que existem na nossa imensa Amazônia, um, dentre todos, se destaca que é o “Complexo Turístico Paraíso DÂngelo”, às margens do Miriti, com uma infraestrutura que inclui hotel, restaurante, cabanas, toboágua, dentre outras.

Paraíso D’Angelo – Manacapuru, AM

O ponto alto do Complexo e que mais chama a atenção é a serenidade de cada um de seus integrantes a começar pelo amigo D’Ângelo. Conversar com o senhor João Saraiva D’Ângelo, que se caracteriza como um “italiano-cearense-amazonense” (Itaceam) é um privilégio. Os entalhes do hotel “Itaceam”, o bom gosto da decoração do restaurante são realmente encantadores e em cada um destes lugares a marca D’Ângelo está presente. Quando entrei em contato com o amigo D’Ângelo para dizer da nossa intenção de conseguir que a Prefeitura de Manacapuru patrocinasse nosso pernoite e alimentação nas suas instalações, ele se ofendeu dizendo que eu e minha equipe éramos convidados pessoais dele. À noite, em entrevista à AmazonSat, eles me perguntaram onde a minha Expedição se encontrava e eu respondi – no Paraíso – e não estava faltando com a verdade.

Paraíso D’Angelo – Manacapuru, AM

Festival das Cirandas  

A Ciranda é uma dança em que os participantes, de mãos dadas, imitam o ondulado suave das ondas do Mar. De origem portuguesa, é dançada em rodas e a música e a letra, originalmente lusitanas, foram totalmente abrasileiradas. A Ciranda chegou ao Brasil-Colônia pelas praias pernambucanas e, no final do século XIX, a Ciranda nordestina foi incorporada às manifestações culturais do Amazonas por Antônio Felício, na Cidade de Tefé. No início da década de 80, o senhor José Silvestre do Nascimento e Souza e a professora Perpétuo Socorro, organizaram a primeira Ciranda no Colégio Nossa Senhora de Nazaré, em Manacapuru. Com o passar dos anos, a pequena manifestação local ganhou notoriedade no cenário folclórico regional e nacional e, em decorrência disso, foi criado, em 1997, o Parque do Ingá, destinado exclusivamente à apresentação das Cirandas. A criação do anfiteatro, com capacidade para vinte mil pessoas, precipitou a idealização de um festival próprio, dirigido unicamente à apresentação das Cirandas. No mesmo ano da criação do Parque do Ingá, foi realizado o “I Festival de Cirandas de Manacapuru”, contando com as Cirandas Flor Matizada, Tradicional e Guerreiros Mura, quando então foi estabelecida uma data fixa para a realização do mesmo, o último final de semana do mês de agosto, sendo destinada uma noite para a apresentação de cada Ciranda.

Manacapuru, AM

Manacapuru – Iranduba  

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam. (Henry Ford)  

Rio Solimões

Estava fotografando e filmando do alto da escadaria que conduz ao toboágua do Paraíso D’Ângelo quando fui surpreendido com o irritante ruído de um jet-ski que cruzava o Lago velozmente. É impressionante notar a omissão e mesmo a conivência das autoridades ligadas ao meio-ambiente em relação a estes rapinantes motorizados.

09.03.2013 – Partida para Iranduba  

Rio Solimões

Como Iranduba ficava a pouco mais de quatro horas de remo desde o Lago Miriti, resolvemos tomar o café no Paraíso D’Ângelo antes de partir, não havia pressa em deixar as confortáveis instalações do Paraíso D’Ângelo. Aprontamos as embarcações para partir logo após o café e ficamos aguardando o café que foi servido pontualmente às 07h30.

O amigo D’Ângelo e seu secretário foram gentilmente se despedir dos expedicionários. O Mestre João Saraiva D’Ângelo é um destes homens à frente de seu tempo, capaz de planejar e/ou executar os mais diversos projetos das mais diversas áreas simultaneamente. Partimos, sem pressa, admirando a beleza natural do Lago Miriti, que infelizmente tem sofrido, ao longo dos anos, com as investidas humanas e descaso das autoridades. Depois de quatro horas de remo, aportamos em Iranduba.

Rio Solimões

Ao lado do Porto construído pelo DNIT, telefonei para meu amigo e irmão General Fraxe para lhe expressar meu apoio. O General Fraxe, agora Diretor Geral do DNIT, não foi promovido a General de Exército, Disse-lhe, então, que o Exército Brasileiro perdia a oportunidade de ter em seus quadros um Oficial General da mais alta estirpe, mas que, em contrapartida, ganhava o Brasil por poder continuar contando com seus serviços ligados à nossa sofrível infraestrutura de transportes.

Rio Solimões

A Polícia Militar nos alojou no seu aquartelamento e, depois de instalados, fomos almoçar no restaurante “O Canoeiro”, escolhido não por seu sugestivo nome, mas pela proximidade física do quartel da PM.

Fizemos contato com o senhor José Raimundo, conhecido como “J. Raí”, que nos entrevistou na Praça principal da Cidade e, mais tarde, nos acompanhou até a farmácia do Levenílson Mendonça da Silva, o “Lei” que, na descida do Solimões, nos acompanhara numa visita ao sítio Hatahara onde estavam realizando escavações arqueológicas.

Iranduba, AM

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 24.03.2021 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Manacá-de-cheiro (Brunfelsia hopeana) – é extremamente perfumado e suas flores mudam de cor. Inicialmente elas são azul-arroxeadas e vão, lentamente, com o tempo, clareando até tornarem-se brancas. Durante a floração, que ocorre na primavera e verão, as flores apresentam um colorido de diversos matizes. É um arbusto que pode atingir três metros de altura.

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