A Terceira Margem – Parte CLXIV

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XL

Comunidade Luciano, AM

Cruzeiro do Sul, AC – Ipixuna, AM   

05.01.2012 ‒ Partida para o Extremo da Boa Fé    

Guajará, AM

Nossa partida de Cruzeiro do Sul foi adiada, por mais de uma vez, tendo em vista o feriadão da passagem do ano que retardou as medidas administrativas necessárias a enfrentar os mais de 2.700 km que nos separavam da 16° Brigada de Infantaria de Selva – a Brigada das Missões – comandada pelo General Paulo Sérgio, onde poderíamos contar, novamente, com o apoio do Exército Brasileiro.

Partimos às 06h30 (hora oficial do Acre) com a ideia de percorrer os 262 km que nos separavam de Ipixuna, em quatro dias, uma média de 65,5 km/dia que poderia ser alcançada, confortavelmente, com sete horas de remo diárias. Aqui no Amazonas, como no Acre, os ribeirinhos não adotaram a mudança de horário decretada pelo governo, e ainda consideram uma hora a menos que o horário oficial como pudemos verificar desde a Comunidade do Lago Tauré ([1]), no Estado do Acre.

Como impor um horário oficial a um povo cujo trabalho está vinculado diretamente às leis da natureza? Quando ultrapassamos o limite entre o Estado do Acre e do Amazonas, o relógio do celular, automaticamente, alterou o horário e, mais uma vez, verificamos a incoerência de se adotar o mesmo fuso horário para um Estado Continental como este. Aqui os ribeirinhos, também, continuavam com o chamado “horário velho”.

Extremo da Boa Fé, AM.

O dia transcorreu sem grandes alterações, continuei marcando a localização e o número de famílias das Comunidades e não avistamos, neste dia, nenhum afluente do Juruá. Os pequenos e graciosos botos tucuxis ([2]) apareceram diversas vezes e pareciam mais preocupados em demonstrar suas habilidades acrobáticas do que realmente pescar.

Extremo da Boa Fé, AM.

Por volta das 12h00, solicitei ao Soldado Mário que nos ultrapassasse e procurasse alguma Comunidade que possuísse uma escolinha onde pudéssemos acampar com certo conforto. Eu e o Marçal estávamos preparados para remar por mais umas duas horas, mas o Mário aportou em uma pequena Comunidade à frente onde conseguiu autorização da esposa do Sr. Expedito Braz da Conceição para acantonar ([3]) na escolinha da pequena Comunidade Extremo da Boa Fé ([4]). Havíamos remado 87 km nesse dia. A quantidade de piuns era impressionante! Depois de tomar banho no Rio, entrei na barraca, montada na sala de aula da Comunidade e dei início à digitação dos dados coletados. Os piuns, para os quais não conhecíamos qualquer tipo de repelente nativo ou industrializado, me atormentavam. Os pequeninos insetos passavam pela tela da barraca como se ela simplesmente não existisse.

A noite foi relativamente tranquila, exceto pelos grunhidos dos porcos que tinham se abrigado da chuva sob o piso da escolinha e passaram a noite inteira grunhindo, roncando e brigando.

06.01.2012 ‒ Partida para Boca do Campina   

Boca do Campina, AM

Remamos pouco menos de 20 km e chegamos à Boca do “Paraná Boa Fé” como é chamado por alguns ribeirinhos mas, que na verdade é um Rio, pois suas águas não ligam o Juruá a qualquer outro Rio como seria o destino de um verdadeiro Paraná. Continuando nossa Expedição, abordamos o Estirão do Ipixuna, que se inicia desde a Foz de um pequeno Igarapé que leva o mesmo nome do Estirão e que é mais conhecido pelos ribeirinhos como Igarapé do Cagão ([5]). É, sem dúvida, até então, o trecho em que o Juruá é menos sinuoso, apenas nove curvas importantes, se estendendo por uns 30 km até as coordenadas 07°12’44,2” S / 72°07’03,2” O. Eu havia solicitado que o Mário marcasse algumas Comunidades para que pudesse confrontar os dados mais tarde com os meus e, graças a isso, ele só conseguiu nos alcançar nas proximidades da Comunidade da Boca do Campina, ([6]) à margem direita do Juruá e do Igarapé Campina que faz a divisa dos Municípios de Guajará e de Ipixuna. Havíamos remado 76 km nesse dia.

Prof Raimundo Nonato – Boca do Campina, AM

Após contato com o Professor Raimundo Nonato Andriola, da Escolinha Sólon Melo, consegui autorização dele para acantonar na mesma. Antes de ocuparmos a escolinha, o Professor determinou às filhas e sobrinha que fizessem uma faxina.

A esposa do Professor, Maria Gesilda Saturnino da Costa, agente de saúde da Comunidade, permitiu que o Marçal preparasse o nosso almoço na sua cozinha e mais tarde fizeram uma festa surpresa, em comemoração ao meu aniversário, com direito a bolo e refrigerantes.

Boca do Campina, AM

O Professor e sua família foram por demais prestativos e nos dispensaram toda atenção possível. Eu e o Professor Raimundo passeamos, pela Comunidade e, mais de uma vez ouvi as reclamações dos moradores em relação às restrições impostas pelo pessoal ligado ao meio-ambiente que acabam provocando a evasão dos ribeirinhos em direção aos grandes centros. Como se já não bastassem as precárias condições de vida que lhes inflige o meio extremamente hostil, lhes são impostas restrições de toda a ordem que impedem as Comunidades de alcançar uma vida mais digna e mais segura.

Nesta Comunidade existe um enorme Jacaré-açu que, volta e meia, lhes ameaça e subtrai animais domésticos criados com tanta dificuldade. Na época da alagação, as águas permitem que este gigantesco sauro transite com liberdade pela Comunidade e sob as casas, criando um clima de terror entre seus membros. O trânsito entre as residências é feito através de um terreno encharcado que poderia ser melhorado através de passarelas, mas seria necessário usar a madeira da mata vizinha e aí entram os “talibãs verdes” impedindo ou dificultando providências desta espécie. O Professor (Imagem 21) estava de prontidão na hora de nossa despedida e partimos guardando em nossos corações, mais uma vez, o carinho e a consideração deste hospitaleiro povo das águas.

07.01.2012 ‒ Partida para a Ipixuna  

Partimos logo ao alvorecer, tendo como objetivo aportar em Ipixuna, a 99 km de distância. Graças ao bom Deus, a chuva intensa que caiu durante a noite arrefeceu a canícula amazônica e, depois de pouco mais de hora de remo, experimentamos uma chuvinha fina e agradável que refrescava nossos corpos atenuando em muito nosso esforço. Demarquei a Foz principal do Riozinho da Liberdade ([7]) e uma segunda Boca mais a montante ([8]) que é gerada na época da alagação.

Igarapé Turrufão – Ipixuna, AM.

Confirmei essa interpretação, fundamentada na fotografia aérea do Google Earth, de 31.12.1969, e na observação do terreno, baseada no relevo e vegetação consultando uma moradora local. A pouco mais de 30 km de Ipixuna, nas proximidades da Comunidade Nova Esperança, identificamos um Furo ([9]). O tumultuário Rio eliminara, mais uma vez, um de seus inúmeros laços abreviando seu traçado. Na chegada a Ipixuna, tentamos, sem sucesso, pedir apoio à Expedição, contatando com as autoridades Policiais Militares através da central de Manaus. Esta é minha quinta incursão pelos amazônicos caudais de modo que, lembrando de minha primeira Expedição, pelo Solimões, pedi ao Sd Mário que solicitasse a um moto-táxi que avisasse os Policias Militares de nossa presença no porto da Cidade.

Mais uma vez, nossos amigos da Polícia Militar, desta feita representados pelo 1° Tenente Rodney Barros Ferreira, nos apoiaram incansavelmente.

O Tenente nos colocou em contato com o representante do empresário Abraão Cândido, que conhecêramos em Manaus, com a finalidade de aportar as embarcações e guardar nossos pertences. Depois de descarregarmos o material da lancha, o Tenente nos levou até o restaurante da simpática acreana Sr.a Consuelo, que havia preparado uma saborosa refeição para os exaustos navegantes. O prestativo policial providenciou também acomodações em um hotel e nos indicou o restaurante onde deveríamos fazer as refeições. Graças ao novo amigo da PM do Estado do Amazonas, conseguimos fortalecer nossos corpos antes de partirmos para a próxima jornada até Eirunepé (554 km).

²Total Parcial:  Cruzeiro do Sul ‒ Ipixuna =           262,0 km

²Total Geral:    Foz do Breu ‒ Ipixuna =                729,5 km

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 03.03.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Comunidade do Lago Tauré: Porungaba

[2]    Botos tucuxis: Sotalia fluviatilis.

[3]    Acantonar: acampar em uma instalação existente.

[4]    Boa Fé: 07°19’38,4” S / 72°21’01,0” O.

[5]    Igarapé do Cagão: coordenadas da Foz – 07°14’03,7” S/72°18’14,3”O.

[6]    Boca do Campina: 07°12’57,0” S / 72°03’15,9” O.

[7]    Foz principal do Riozinho da Liberdade: 07°10’51” S / 71°48’42” O.

[8]    Segunda Boca mais a montante: 07°11’21” S / 71°50’04,2” O.

[9]    Furo: 07°08’32,5” S / 71°47’30,8” O.

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