Indígenas isolados que vivem no Peru se refugiam no Brasil

Rio Branco (AC) – “Nunca aconteceu uma aproximação tão intensa de indígenas isolados no lado brasileiro.” O sertanista José Carlos Meirelles fala com a segurança de quem, desde os anos 1970, trabalha com povos isolados do Acre.

Comunidade Nativa Bélgica, do povo Yine Piro, no departamento de Madre de Dios (Peru) (Foto: Jardy Lopes/set19) – Publicada em: Amazônia Real

No fim de janeiro deste ano, chegaram até ele notícias de que um grupo se aproximou de uma aldeia no Alto Rio Iaco, na Terra Indígena (TI) Mamoadate. Os Manxineru da aldeia Extrema, a última dentro da TI, se depararam com vestígios e ouviram assobios como num sinal para não avançarem mais. Para especialistas ouvidos pela Amazônia Real, é muito provável que sejam os Mashco Piro, que formam o maior grupo de indígenas isolados nesta região fronteiriça e também do mundo.

Os Mashco Piro costumam ficar no período intenso de chuvas na região sul da Amazônia nas partes mais altas e secas. Já nos meses de estiagem, que se estende de abril até o fim de setembro, descem para as partes baixas. Eles são conhecidos por se movimentarem em uma vasta área de floresta – que vai das cabeceiras dos rios Madre de Dios (o Madeira no Brasil) – atravessando o rio de Las Piedras ao Taumanu – e indo até as nascentes dos Rios Acre, Juruá, Chandless, Iaco e Purus. Nesse momento, portanto, deveriam estar longe do território brasileiro.

“Algo deve estar acontecendo para eles se aproximarem tanto do lado brasileiro, pois no Peru, quando [os invasores] topam com índios isolados, eles tocam chumbo”, arrisca o sertanista Meirelles. “Pode ser que estejam procurando no Brasil uma área mais tranquila, e que não falte caça. Pode ser que estejam apenas passando um tempo escondidos. Devem estar se sentindo pressionados.”

Essa pressão pode decorrer de atividades como garimpos, exploração de gás e petróleo, extração descontrolada de madeira e a forte presença do narcotráfico na Amazônia peruana. Mas os Mashco Piro também acabam sendo forçados a se deslocar pela pressão desenvolvimentista dos governos.

A fronteira Brasil-Peru – com extensão de 2,8 mil quilômetros – é uma das mais ameaçadas por explorações econômicas ilegais e projetos de infraestrutura defendidos pelos governos dos dois países. Um dos que ganharam força desde 2019 é a construção de uma rodovia entre as cidades de Cruzeiro do Sul, a segunda maior do Acre, e Pucallpa, capital do departamento de Ucayali.

O traçado da estrada passa por uma das regiões mais ricas em biodiversidade em dimensão global. E é nesse vasto território que se registra a maior presença de povos indígenas em isolamento voluntário do mundo, incluindo os Mashco Piro nas cabeceiras do rio Juruá.

Outro projeto de grande impacto é a conexão rodoviária entre as províncias de Puerto Esperanza e Inãpari, no departamento de Madre de Dios. A rodovia vai atravessar áreas naturais protegidas no Peru e estaria bem próximo da fronteira com as TIs Mamoadate e Cabeceira do Rio Acre.

“Os Mashco Piro vão ficar bem no meio do traçado da rodovia. A rota tradicional deles vai estar afetada por ramais de madeireiras e de garimpo”, alerta o indigenista José Frank de Melo, assessor técnico do Setor de Geoprocessamento da Comissão Pró-Índio (CPI-Acre).

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Fabio Pontes  – AMAZÔNIA REAL

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