Caos na pandemia: Indígenas viram alvo de fake news antivacina

Lideranças denunciam missionários evangélicos por disseminarem notícias falsas e comprometerem a imunização nas aldeias da Amazônia.

Na fotografia acima, o cacique Fernando Katukina, cuja morte após a vacina causou disseminação de fake news (Foto: Odair Leal/Secom/2021) – Publicada em: Amazônia Real

Belém (PA) – Em áudio que circula pelo Whatsapp, um cacique do povo Marubo de uma aldeia da Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, foi enfático em avisar que ninguém do local se vacinará contra o novo coronavírus. No Acre, o cacique Txanahuya Hunikui (do povo Huni Kuin), “sentindo-se sentimental” em um post do Facebook, lamentou a morte da liderança indígena Fernando Katukina e de um outro cacique Huni Kuin, aproveitando para repassar a seguinte desinformação: “Ambos vítimas da vacina clonada contagiadas envenenadas com o vírus do monochip maligno infeccioso que acabaram de tomar a tal vacina!!!”

Por causa de mensagens como essas, indígenas têm se recusado a receber a vacina contra a Covid-19. Líderes e organizações indígenas têm se mobilizado para desfazer o caos criado pela propagação de notícias falsas nas aldeias, que eles atribuem à influência de missionários e pastores evangélicos. Mas a luta tem sido desigual e as equipes de saúde enfrentam dificuldades para imunizar um dos povos mais ameaçados na pandemia.

O coordenador-geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Paulo Kenampa Marubo, explica à Amazônia Real a situação. “Foi dito que eles não iriam tomar [a vacina]. A gente tentou explicar, mas eles não estão acreditando. Só acreditam no que está sendo dito pelos missionários. Dizem que essa vacina veio para acabar com a sociedade, tanto a não indígena como a indígena. Essas informações erradas ficam na cabeça dos nossos parentes, principalmente dos nossos anciãos”, conta ele, em entrevista à reportagem.

A aldeia citada por Paulo Marubo fica na cabeceira do rio Ituí, no município de Guajará (a 1.600 quilômetros de Manaus), já na divisa com o Acre. É uma das 56 aldeias da Terra Indígena Vale do Javari, na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru, onde vivem cerca de 7 mil indígenas contatados das etnias Marubo, Mayoruna, Kulina Pano, Matís, Kanamari, Korubo e Tson wük Dyapah (este de recente contato). O território, o segundo maior do Brasil em extensão e conhecido por concentrar o maior número de indígenas isolados do mundo, viu ameaças externas se intensificarem na pandemia de Covid-19. Como a maior parte do território Vale do Javari abrange o município de Atalaia do Norte, Paulo Marubo relatou dificuldades para ter acesso, via fluvial ou via terrestre, até esta aldeia específico do cacique que recusa vacina.

Por Cicero Pedrosa Neto

ÍNTEGRA DISPONÍVEL EM:   AMAZÔNIA REAL     

NOTA – A equipe do ECOAMAZÔNIA esclarece que o conteúdo e as opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião deste ‘site”.   

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.