A Terceira Margem – Parte CXXX

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte VI 

FOZ DO BREU/AC – Google maps

Pioneiros Brasileiros I 

O Purus e o Juruá abriram-se há muito à entrada dos mais díspares forasteiros – do sírio, que chega de Beirute, e vai pouco a pouco suplantando o português no comércio do “regatão”; ao italiano aventuroso e artista que lhes bate as margens, longos meses, com a sua máquina fotográfica a colecionar os mais típicos rostos de silvícolas e aspetos bravios de paisagens; ao saxônio fleumático, trocando as suas brumas pelos esplendores dos ares equatoriais. E, na grande maioria, lá vivem todos; agitam-se, prosperam e acabam longevos. (CUNHA, 2000)  

A Saga dos Pioneiros 

O “Juruá Federal, escrito pelo Dr. José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho, foi publicado pela primeira vez nos Anais do Congresso Internacional de História das Américas da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1922.

Esta magnífica obra é o resultado das pesquisas realizadas pelo próprio autor quando este era Juiz de Direito em Cruzeiro do Sul, Acre. A nomeação do então Bacharel Castello Branco pelo Presidente da República como Juiz Municipal do 2° Termo da Comarca de Cruzeiro do Sul, no Território do Acre, foi publicada no DOU de 06.03.1913. O livro constitui-se, ainda hoje, em um dos acervos mais completos e fiéis sobre a região do Juruá. Relata-nos Sobrinho:

Ferdinando Denis, no seu livro Brasil, publicado em 1838, ao tratar dos principais afluentes do Amazonas, omite o Juruá e o Purus dando somente na mesma direção o Javari, Madeira, Tapajós e Xingu, porque nesse tempo o Juruá era tido como de pouca importância. Esta suposição é confirmada pelo Padre Constant Tastevin, na monografia “O Juruá”, publicada em 1920, na “La Géographie”, de Paris, em que afirma que os portugueses nunca pensaram em se estabelecer no Juruá, que até Chandless, passava por ser menos importante que o Jutaí. Dava-se um curso de uns 1.000 quilômetros, ou seja, menos de um terço de sua verdadeira extensão, parecendo, assim, que se o não conhecia além de Urubu, cachoeira no Vale do Chiruan ([1]).

O geógrafo Chandless, que explorou mais da metade do Juruá, cerca de 1.260 milhas, não alcançou o Ipixuna, voltando do Seringal Ouro Preto, 80 milhas abaixo da Foz do Moa. Em 1854, diz João Wilkens de Matos, Secretário do Governo da Província do Amazonas, num relatório apresentado ao Presidente Herculano Penna que, após uma viagem de 40 dias, em canoa, se chegava à Boca do Parauacu, hoje Tarauacá. Ainda o mesmo Wilkens, em 1858, na qualidade de Diretor de Terras, informa a existência de silvícolas aldeados até o Lugar Xué ([2]), no Baixo-Juruá.

Chandless que, em 1867, aproximou-se da fronteira do território com o Estado do Amazonas, refere ter sido antecedido pelo brasileiro João da Cunha Corrêa, o qual lhe dissera que havia subido o Tarauacá, daí passando ao Envira, donde varou para o Purus. (SOBRINHO, 2005)

O autor do “Juruá Federal” teve a oportunidade ímpar de entrevistar Guilherme da Cunha Corrêa, filho de João da Cunha Corrêa – o João de Cametá e ratificar a afirmativa de William Chandless.

SOBRINHO, 2005: Esta narrativa é comprovada pelo testemunho de Guilherme da Cunha Corrêa, ainda vivo e proprietário do Seringal Concórdia, no Baixo-Juruá, filho do referido João da Cunha Corrêa, que era natural de Cametá, Estado do Pará.

Acrescenta o dito Guilherme que seu pai fora nomeado Diretor dos índios do Rio Juruá, entre 1855 e 1857, na administração do Dr. Antônio Ferreira do Amaral, época em que cometiam a Manoel Urbano da Encarnação idêntico encargo no Rio Purus, e nesse caráter fizera uma demorada viagem pelo Juruá, colhendo alguns produtos da região e distribuindo pelos indígenas grande quantidade de machados, terçados, facas, miçangas e fazendas, conseguindo alcançar a Foz do Rio Juruá-mirim, muitas milhas além da fronteira da Zona Estadual com a Federal.

Nunca hostilizou os silvícolas. De quem soube granjear amizade e confiança, tendo eles apenas no Estirão dos Náuas, se retirado de suas tabas para a margem oposta do Rio.

Nessa viagem, João da Cunha Corrêa, encontrou uma índia velha com duas filhas, que foram conduzidas a Teffé, sendo depois batizadas pelo Padre Torquato Antônio Ribeiro, de Fonte Boa.

Regressando do Juruá-mirim, o denodado bandeirante subiu o Rio Tarauacá, penetrou no Envira, alcançou o Vale do Purus, num de seus afluentes, denominado, hoje, segundo parece, Chandless.

Aí procurou Manoel Urbano, conhecido pelos indígenas por “tapaúna catu” [o preto bom], e como não o encontrasse por ter subido o Purus, Corrêa voltou ao Teffé, levando em sua companhia uma índia, que lhe dera um “tuchaua” ([3]), a qual foi batizada com o nome de Leocádia, e faleceu em 1912. Era quase branca, de rosto oval e bem conformado, estatura mediana, nariz pequeno e aquilino. Essa viagem de João Corrêa ao Alto-Juruá, por essa época é de certo modo confirmada pelo pernambucano Serafim Salgado, na sua exploração ao Rio Purus, em 1857, quando assevera que os índios “Cucumas” ([4]) lhe declinaram nomes dos brasileiros civilizados que viram nas cabeceiras do Juruá. Assim, não padece dúvida que o destemido sertanista foi quem primeiro transitou terras do Juruá, na qualidade de Diretor dos silvícolas. (SOBRINHO, 2005)

A exploração comercial do Vale do Juruá já se iniciara, ainda que de forma incipiente, antes mesmo da viagem de João de Cametá com os regatões que subiam o Rio e seus afluentes em busca de plantas medicinais e especiarias e que foi incrementada, mais tarde, com o aumento significativo da produção da goma elástica depois da chegada dos seringalistas atraídos à região pela quantidade e qualidade da Hevea brasiliensis.

SOBRINHO, 2005: Em princípios de 1884, o pernambucano Antônio Marques de Meneses, vulgo “Pernambuco”, acompanhado de Antônio Torres, Pedro Moita, José Vieira, Manoel Meneses, Jacinto de Tal e Joaquim Nascimento, aportava ao Estirão dos Náuas, donde voltou, sem demora, por ter sido atacado pelos índios, que lhe deram uma surra.

Em maio do mesmo ano ([5]), aportavam em Manaus, os italianos Henrique Gani, Antônio Brozzo, Domingos Stulzer, vindos da República Argentina, que ali encontraram os seus compatriotas Antônio Marcílio e Luiz Paschoal, sócios e proprietários do Seringal Nova Iorque, no Baixo-Juruá, nesse tempo pertencente ao Município de Teffé e hoje ao de São Felipe ([6]).

A convite dos últimos, vieram aqueles em sua companhia para o aludido Seringal Nova Iorque, seguindo depois para o Alto-Juruá, em viagem de exploração, trazendo consigo os cearenses Ismael Galdino da Paixão e Domingos Pereira de Sousa, que exploraram, em junho seguinte, esse pedaço do Juruá, que vai do referido Estirão dos Náuas à Embocadura do Juruá-mirim. Esses excursionistas foram os primeiros que exploraram o Rio com o fim de o povoarem, tanto que, pelo caminho, iam deixando sinais de sua passagem, respeitando, porém, a parte visitada por Pernambuco, somente porque este lhes avisara de que havia passado por ali e pretendia localizar-se numa terra firme, próxima à Foz do Rio Moa, na qual, atualmente, se acha implantada a Cidade de Cruzeiro do Sul. Encontraram pelas cercanias do Rio Moa extensos bananais e grande número de índios, que os iam seguindo com o maior interesse, por terra.

No meio do Estirão dos Náuas, no local em que hoje se encontra o Barracão do Seringal Buritizal, foram os viajantes à terra, deparando com uma enorme maloca dos silvícolas chamados “Náuas”, os quais deram o nome ao dito Estirão, e após uma certa demora, necessária apenas para oferecerem aos aborígines alguns brinquedos ou outros objetos que lhes despertassem a curiosidade, continuaram sua rota, parando novamente na extremidade Sul do referido Estirão, na terra firme, presentemente apelidada “Colônia Rodrigues Alves” e daí encontraram novamente muitos índios, tendo-lhes feito oferecimentos idênticos. Foram, porém, obrigados a fazer fogo para o ar, a fim de atemorizá-los, uma vez que eles tentaram lançar mão de suas armas, instrumentos esses a que os indígenas prestavam muita atenção e pelos quais se mostravam assaz interessados desde o primeiro encontro na parte central desse Estirão.

Coube aos italianos a parte do Rio que vai do Seringal Treze de Maio ao Paraná dos Mouras e aos brasileiros do Tatajuba ao Juruá-mirim. Um lustro ([7]) após, em 1889, outros expedicionários, José Serafim dos Anjos, vulgo “Tucandeira”, Joaquim Nascimento, José Raimundo, vulgo “Zé-Grande”, e Antônio Doutor, Francisco Barraqueiro e Norberto de Tal, sob a direção de Francisco Xavier Palhano, foram do Juruá-mirim até Flora, numa canoa chamada “Fura Mundo”, que partiu do Porto de Redenção, de Bernardo Costa, próximo ao Rio Liberdade, por conta de quem faziam a exploração, não podendo ir além por ter sido ferido Antônio Doutor.

No ano seguinte ([8]), o mesmo Francisco Xavier Palhano partiu do dito Porto de Redenção, em companhia de José Tucandeira, Francisco de Oliveira Lima, vulgo “Lagartixa”, João Facundo da Costa, Antônio Ramalho, Joaquim Nascimento e Conrado de Tal, chegando a explorar de Tanaré a Minas Gerais, tendo sido flechado Antônio Ramalho e João Facundo, numa sapopema que fica num Sacado abaixo do Triunfo, depois de uma grande luta com os índios Capanauas.

Subiram depois, mas no mesmo ano, o português Antônio Granjeiro, que deu nome ao Tejo, João Pereira dos Anjos, Francisco Agostinho, Antônio Poeta e o referido Francisco Xavier Palhano, que exploraram da Boca do Tejo ao Breu. Doze brasileiros, entre os quais Valdevino José de Oliveira, ainda vivo e residente em Pirapora, Manoel Tomás, José Tucandeira, Maximino Rodrigues, Francisco de Oliveira Lima, vulgo “Lagartixa” ou “Galo”, Antônio Luiz de Andrade, João Dourado, Antônio Rocha e Francisco Barreto, exploraram o Juruá do Rio Breu até perto de cem praias acima da Foz do Rio Vacapistéa, o que não tem grande importância para o nosso trabalho, mas citamos para mostrar que os nacionais foram muito além do território brasileiro, pelo Tratado de Petrópolis, sem topar com os peruanos.

Em 1888, o Moa era desvendado de sua Barra até o Seringal denominado São José, por Joaquim Barros Rego, Manoel Mendes de Matos, Francisco Teobaldo de Melo, Amaro Teobaldo de Melo, José Merouca, João Veríssimo, José Batista de Lima e Antônio Xavier Moreira. Deste ponto em diante, foram seus investigadores João Batista de Lima, Rufino José da Silva, José Alves da Silva, Miguel de Almeida, Francisco José de Melo, Joaquim de Barros Rego, Sebastião Costa, Luiz Monteiro, Joaquim Tomás da Rocha, Amaro Teobaldo de Melo, Francisco Teobaldo de Melo e Vicente Ferreira Lima, em épocas diversas. O Rio Azul ou Breguesso, afluente do Moa, foi explorado em 1893 por Joaquim Tomás da Rocha, Francisco e Amaro Teobaldo de Melo, Raimundo Cláudio, Francisco das Chagas Moreira e José Alexandre. O Juruá-mirim foi explorado por Ismael Galdino da Paixão, Joaquim Correia de Oliveira, Francisco Albuquerque [da firma Cohen & Albuquerque], Manoel Martins, Manoel Felipe, José Joaquim e Boaventura de Tal.

O Tejo, de sua Foz até Restauração, em 1890, teve como exploradores José Joaquim de Lima, Francisco Lagartixa, Manoel Tomás, Antônio Peixoto, Francisco Ferre, João Dourado e Vicente Venâncio de Almeida. Mais tarde Manoel Patrício, André Lopes e Mariano de Barros percorreram o resto do Tejo e o Riozinho das duas Bocas, importante afluente de sua margem direita. O Alto Rio Liberdade teve como principal explorador, em 1894, Pedro Juvêncio Barroso. (SOBRINHO, 2005)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 14.01.2021 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia   

SOBRINHO, Dr. José Moreira Brandão Castello Branco. O Juruá Federal – Brasil – Brasília, DF – Senado Federal, 2005.    

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Chiruan: Xeruã.

[2]    Xué: Chué.

[3]    Tuchaua: cacique.

[4]    Cucumas: Kokamas.

[5]    Mesmo ano: 1884.

[6]    São Felipe: Eirunepé.

[7]    Lustro: período de cinco anos.

[8]    Ano seguinte: 1890.

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