A Terceira Margem – Parte CIII

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXXIII

Porto Velho – Humaitá

 Descendo o Rio Madeira ‒ IV  

Partida para Humaitá, AM  

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam. (Henry Ford)

No dia 20.12.2011, acompanhado do Comandante 5° Batalhão de Engenharia de Construção (5° BEC) ‒ Batalhão Carlos Aloysio Weber, Tenente-Coronel da Arma de Engenharia Moacir Rangel Junior, fizemos uma visita ao General-de-Brigada Ubiratan Poty, Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva (17ª Bda Inf Sl), sediada em Porto Velho, RO, que entusiasmado com o Projeto Desafiando o Rio-Mar, determinou ao seu chefe de Comunicação Social que entrasse em contato com a mídia televisiva de Rondônia para agendar entrevistas conosco.

Entrevista à Rede TV, Porto Velho

Porto Velho, RO (21.12.2011)  

As ordens do Gen Poty foram cumpridas à risca e, às sete horas, no jornal da manhã, fomos entrevistados nos estúdios da TV Globo. Após a entrevista, nos deslocamos imediatamente para o Porto Graneleiro da Hermasa ([1]) onde estava ancorado nosso Barco de Apoio (Piquiatuba) com os caiaques a bordo. Por volta das nove horas, chegaram as equipes da TV Record e SBT que entrevistaram a mim e a meu filho João Paulo e solicitaram tomadas do deslocamento dos caiaques no Rio Madeira. Às 11h30 nos apresentamos nos estúdios da Rede TV e, após a entrevista, agendamos tomadas no Rio Madeira para as dezessete horas.

O Barco a Motor Piquiatuba, do 8° Batalhão de Engenharia de Construção (8° BEC), deslocara-se de Santarém, PA, a Porto Velho, RO, cumprindo sua tradicional missão de transporte de tropa e abastecimento para os destacamentos da Engenharia Militar. Voluntariamente, apesar de ser um período de festas, a tripulação, do Grupo Fluvial do 8° BEC, formada pelos Soldados Mário Elder Guimarães Marinho (Comandante do B/M), Walter Vieira Lopes (Subcomandante do B/M), Edielson Rebelo Figueiredo (Chefe da Casa de Máquinas) e Marçal Washington Barbosa Santos (cozinheiro), nosso bom Gourmet, se prontificaram a nos acompanhar neste período em que a embarcação não tinha nenhuma outra missão agendada.

Partida do Porto da Hermasa, RO (22.12.2011) 

A TV Globo tinha marcado conosco uma entrevista, antes da largada, para as 06h30 no Porto da Hermasa e arredores. Só conseguimos partir para nossa primeira jornada às 08h30, três horas além de minha programação original.

Teríamos, fatalmente, de enfrentar, no primeiro dia, a canícula amazônica no período da tarde. Parti, preocupado, já que era a primeira vez que meu filho surfista me acompanhava em uma jornada desta natureza e este não era seu esporte favorito. A postura no caiaque, a necessidade de se remar em torno de seis a sete horas por dia eram desafios que ele teria de vencer no primeiro dia, acrescido do calor vespertino.

João Paulo e os Garimpos do Rio Madeira

Depois da primeira curva à direita, no Rio Madeira, a presença das dragas de garimpeiros, em busca de ouro, se tornou uma constante, alguns conjuntos (fofocas) formavam horrendas Vilas onde a promiscuidade e a falta de cuidado com o meio-ambiente era a tônica. Lembrei-me da preocupação do IBAMA em proteger os microrganismos que, segundo eles, infestam os perigosos troncos que descem o Rio Madeira e ameaçam a vida dos ribeirinhos enquanto o uso indiscriminado do mercúrio nas dragas não sofre qualquer tipo de controle.

Paramos em um banco de areia, para descansar depois de remar quinze quilômetros, onde encontramos duas mulheres contratadas pelos garimpeiros, uma delas se encantou com as tatuagens do João Paulo. Durante esta breve parada passou, no canal do Rio Madeira, uma garça branca graciosamente jangadeando um pequeno tronco de madeira. Na segunda parada, próximo à Ilha dos Mutuns, já por volta das treze horas, percebi que meu filho começava a sofrer com o calor amazônico. Contatei o pessoal de apoio e disse que deveríamos achar um local de parada antes das quinze horas, o que foi feito. Paramos próximo à Comunidade Aliança, seis quilômetros a montante do local planejado que teria sido alcançado com folga se tivéssemos saído às 05h30.

À tarde, já devidamente embarcados, o João Paulo teve seu primeiro contato com os famosos banzeiros amazônicos.

João Paulo na Foz do Rio Jamari – RO

À noite, fomos assaltados por um enxame de pequenos percevejos, tivemos que apagar todas as luzes, deixando aceso apenas o farolete de popa onde se amontoou uma pululante e disforme massa marrom de centenas desses pequenos insetos que eram varridos para as águas periodicamente pelo João Paulo.

Partida da Comunidade Aliança, RO (23.12.2011)  

Pontualmente às 05h30 partimos para nossa nova jornada. Fizemos a primeira parada, estrategicamente, na Foz do Jamari para abastecer o Piquiatuba de água limpa para poder lavar nossas roupas e tomar um banho decente. Fizemos a segunda parada próxima à Ilha das Curicacas e informamos ao pessoal de apoio que o local de parada, próximo à Comunidade Boa Hora, seria por volta das 11h30.

Foram sessenta quilômetros percorridos e o meu parceiro surfista se portou com muita tranquilidade, embora a canoagem não seja a “sua Praia”. O João Paulo e a tripulação foram convidados, por jovens da Comunidade, para um jogo de futebol na lama enquanto eu permanecia a bordo digitando o material que seria postado em Humaitá, AM.

Ao entardecer, enxames de carapanãs nos atacaram, esgotando nosso estoque de repelente. Recolhemo-nos cedo para fugir do ataque impiedoso dos mosquitos.

Tripulação na Comunidade Boa Hora – RO

Partida da Com. Boa Hora, RO (24.12.2011)  

Partimos à 05h30 para nossa nova jornada e fizemos nossa primeira parada em um enorme banco de areia, a jusante da Ilha Botafogo onde os piuns faziam a festa. Como nos dias anteriores, nenhum sinal de chuva e um Sol causticante. O Mário e o Marçal vieram até nós com um refrigerante gelado que foi degustado com imensa satisfação. Perguntei ao meu filho se ele estava em condições de alongar o trajeto em mais ou menos dezessete quilômetros para atingirmos a Foz do Rio Ji-Paraná (também conhecido como Machado), ele aquiesceu. A fotografia aérea, do Google Earth, dava a entender que suas águas eram melhores que as do Madeira, ledo engano. Fizemos uma última parada próximo à Ilha Assunção e partimos num ritmo forte para o novo objetivo. Aportamos pouco depois do meio-dia, depois de percorrer setenta quilômetros em sete horas, incluindo as paradas. À tarde, o João Paulo e a tripulação foram até a Comunidade de Calama ([2]) adquirir alguns itens para complementar nossa despensa e, à noite participaram dos festejos pagãos na última Cidade de Rondônia, só retornando às três horas da manhã.

Partida para Humaitá, AM (25.12.2011)   

Acordei às 04h30 e parti, exatamente às cinco horas, sem meu parceiro tresnoitado. Havia decidido partir cedo para evitar a canícula da tarde, já que a jornada seria de mais de sessenta quilômetros.

Parece que São Pedro quis fazer uma brincadeirinha e a chuva amazônica se estendeu desde minha saída até a chegada, em Humaitá, às 11h45.

Como ainda era noite, coloquei minha lanterna de cabeça e percorri a Foz do Ji-Paraná com certa cautela. A quantidade de peixes, atraídos pela facho de luz, que saltava sobre o caiaque, batiam no casco, no convés ou em meu corpo me impressionou; se o caiaque fosse aberto, a refeição para uns dois dias estaria garantida. Ainda era noite quando adentrei no Estado do Amazonas. Como a chuva fria não dava trégua, decidi não parar e tocar direto até Humaitá, afinal eu já adotara tal procedimento no Rio Solimões navegando, sem parar, 108 km de Anamã a Manacapuru.

Em Humaitá, acostei no Piquiatuba que já estava ancorado no Porto Hidroviário de Humaitá. Os fiscais portuários autorizaram nossa permanência temporária naquele local até as 22 horas. A jornada terminara e a chuva amainou e o Sol finalmente apareceu.

Humaitá – AM

Humaitá, AM (25.12.2011)  

Disquei o 190 e mais uma vez a valorosa Polícia Militar do Estado do Amazonas se prontificou em nos apoiar. O Tenente PM Daniel Melo nos levou até o Quartel do 54° Batalhão de Infantaria de Selva (54° BIS), Batalhão Cacique Ajuricaba, numa infrutífera tentativa de nos acomodar no Hotel de Trânsito da Guarnição gratuitamente. Ao retornarmos ao Piquiatuba, o mesmo já fora transferido para o Porto do Caçote onde encontramos, também, a lancha do amigo José Holanda, de Itacoatiara.

Decidi passar a noite embarcado. O Tenente PM Daniel Melo prometeu realizar uma diligência para tentar achar a pesquisadora Elisabeth Tavares Pimentel cuja tese revolucionária defende a existência do Rio Hamza.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 07.12.2020 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem. 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Porto Graneleiro da Hermasa: a soja que sai do Mato Grosso e Rondônia é transportada via terrestre para o Porto da Hermasa em Porto Velho e descarregada em grandes balsas que descem o Rio Madeira e são armazenadas no Porto Graneleiro da Hermasa de Itacoatiara que exporta mais de dois milhões e quinhentas mil toneladas de soja, por ano. Isso diminui o custo do frete em US$ 30,00 por tonelada e evita o congestionamento da malha viária do Sudeste.

[2]    Colonizadora Calama S.A.: a ocupação sistemática do território de Rondônia iniciou-se no final da década de 60, com a colonização particular da Colonizadora Calama S.A.

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