Amazônia: a falácia do “ponto de inflexão”

Na atual fase da campanha permanente de fustigamento político e midiático contra o Brasil, pelos problemas ambientais reais e supostos do País, um conceito tem sido recorrente, o alegado “ponto de inflexão” do bioma Amazônia, que estaria prestes a degradar-se em ecossistemas mais pobres.

A causa desse colapso ecológico (chamado dieback, em inglês) seria uma combinação de ação humana direta – desmatamento, queimadas etc. – com as mudanças climáticas globais, que, segundo os catastrofistas de plantão, são igualmente atribuídas ao Homo sapiens.

Embora não tenha sido observado em nenhum dos demais biomas brasileiros, quase todos mais degradados do que a Amazônia (à exceção do Pantanal), o suposto fenômeno tem sido citado reiteradamente pelos proponentes de um endurecimento da – já draconiana – legislação ambiental brasileira, para incluir o insidioso conceito de “desmatamento zero” nos biomas Amazônia e Cerrado, que equivaleria a uma camisa-de-força autoimposta para toda sorte de atividades produtivas e de desenvolvimento.

Um exemplo é o manifesto divulgado em setembro de 2019 pela ONG empresarial estadunidense Ceres, representando mais de 200 fundos internacionais de investimento e gestão de ativos, para pressionar as empresas atuantes nos países amazônicos a se posicionarem frente ao desmatamento e aos incêndios que “ameaçam” a região, cujo modelo tem sido usado em iniciativas semelhantes contra o governo brasileiro, nos últimos meses. O texto afirma, em parte:

(…) Como a maior extensão de floresta equatorial contínua no planeta, a Amazônia desempenha um papel crucial no sistema climático da Terra. O desmatamento na região poderia levar todo o ecossistema perigosamente próximo de um ponto de inflexão, após o qual a floresta não será capaz de manter-se por si própria, transformando-se gradualmente em um sistema mais parecido com uma savana, que é muito mais seco, com menos biodiversidade e capaz de estocar significativamente menos carbono. Isto atingiria severamente o setor agrícola e outras atividades econômicas, pela redução das chuvas e o aumento das temperaturas, a longo prazo (grifos nossos) (Ceres, 18/09/2019).

Mais recentemente, em 5 de outubro, o jornal inglês The Guardian publicou um artigo ainda mais sensacionalista, com o alarmante título “Estudo diz que Amazônia está próxima de um ponto de inflexão de mudança de floresta equatorial para savana”. O texto da correspondente ambiental Fiona Harvey não poupa palavras:

Pesquisadores advertem que grande parte da Amazônia poderia estar próxima de perder a sua natureza distinta e mudar de uma floresta equatorial de copa fechada para uma savana aberta com muito menos árvores, como resultado da crise climática.

As florestas equatoriais são altamente sensíveis a mudanças nos níveis de chuva e umidade, e incêndios e secas prolongadas podem resultar em áreas com perda de árvores e mudanças para uma mescla de bosques e pradarias, semelhante a uma savana. Na Amazônia, sabia-se que tais mudanças eram possíveis, mas ainda distantes de muitas décadas (sic).

Uma nova pesquisa mostra que esse ponto de inflexão poderia estar muito mais perto do que se pensava. Até 40% da floresta equatorial da Amazônia encontra-se agora em um ponto em que poderia existir como savana, em vez de floresta equatorial, segundo um estudo publicado na revista Nature Communications.

Entrevistado pela jornalista, o autor principal do artigo, o ecólogo holandês Arie Staal, do Instituto Copérnico de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Utrecht, apresenta uma explicação bastante simplificada do princípio fundamental da pesquisa: “Na medida em que as florestas crescem e se espalham por uma região, isto afeta a precipitação de chuvas. As florestas criam a sua própria chuva (sic), porque as folhas liberam vapor d’água e ele cai como chuva mais adiante. A chuva significa menos incêndios, o que gera ainda mais florestas.”

Porém, explica, se há uma perda de grandes áreas da floresta, ocorre uma redução correspondente nos níveis de precipitação e umidade atmosférica. “Condições mais secas tornam mais difícil a floresta se recuperar e aumentam a inflamabilidade do ecossistema” e, uma vez cruzado o ponto de inflexão de conversão em vegetação típica de savana, uma reversão ao estado anterior é improvável, afirma.

Seu colega e coautor Ingo Fetzer, do Centro de Resiliência de Estocolmo, reforça a mensagem alarmista: “Nós agora entendemos que as florestas equatoriais de todos os continentes são muito sensíveis às mudanças globais e podem perder rapidamente a sua capacidade de se adaptar. Uma vez perdida, a sua recuperação levará muitas décadas para retornar ao seu estado original. E dado que as florestas equatoriais abrigam a maioria de todas as espécies globais, tudo isto se perderá para sempre.”

No texto original do artigo, as conclusões dos autores são ainda mais enfáticas e eles chegam ao requinte de oferecer números precisos sobre a possível extensão do colapso ecológico das florestas de várias regiões:

Em áreas onde as mudanças climáticas causam secas, algumas áreas atualmente cobertas por florestas podem cruzar um ponto de inflexão para um estado não-florestal, enquanto em áreas onde as mudanças climáticas aumentam a umidade, algumas áreas atualmente não cobertas por florestas podem cruzar o ponto de inflexão reverso. (…) Nós descobrimos que o primeiro tipo de transição ocorre principalmente na América do Sul, onde 1,45 milhão de quilômetros quadrados de florestas, localizados principalmente no Norte da Amazônia, podem cruzar um ponto de inflexão devido às mudanças climáticas globais. Na África, apenas 3.000 km2 e, na Australásia, apenas 1.000 km2 de florestas podem cruzar esse ponto de inflexão. A área que pode experimentar o ponto de inflexão reverso é distribuída mais equitativamente entre os continentes: 660.000 km2 na América do Sul, 300.000 km2 na África e 310.000 km2 na Australásia. (…)

Para ilustrar a argumentação, os autores apresentam a figura abaixo:

A legenda original diz, em parte: “a. Distribuições mínima (verde) e máxima (bege) de florestas sob o clima recente (2003-2014). b. Distribuições mínima (verde) e máxima (bege) de florestas nas condições do clima do final do século XXI (2071-2100). c. Mudanças no potencial florestal entre os climas recente e tardio do século XXI; as áreas vermelhas são florestas estáveis sob o clima atual, mas que cruzam os pontos de inflexão para a faixa de chuvas não-florestal sob o clima do final do século XXI; as áreas azuis são muito secas para florestas no clima recente, mas cruzam o ponto de inflexão para a faixa estável de floresta-precipitação sob o clima do final do século XXI. (…)”

Como se pode perceber, na parte “a” da figura, na América do Sul, os autores qualificam como “florestas” áreas do território brasileiro que integram outros biomas não-florestais, casos do Cerrado, Caatinga e Pampa, simplificação que por si só compromete qualquer prognóstico sobre um bioma específico, como a Amazônia.

Ademais, as projeções feitas se baseiam nos questionáveis modelos matemáticos de clima que têm sido amplamente usados para justificar o alarmismo global sobre as mudanças climáticas.

Sem mencionar o fato de Staal ter afirmado que “as florestas criam a sua própria chuva”, quando, na verdade, o que faz a Floresta Amazônica é apenas devolver à atmosfera cerca de 50% da água da chuva oriunda do Oceano Atlântico.

Ou seja, uma série de equívocos superpostos.

Outro artigo, publicado em março na mesma revista, foi ainda mais ambicioso, prevendo um prazo de apenas meio século para a destruição do bioma Amazônia, após atingido o “ponto de inflexão”, e que este poderia ocorrer no próximo ano:

Os resultados empíricos proporcionam estimativas de primeira ordem para a duração das mudanças de ecossistemas icônicos, como a floresta equatorial da Amazônia e os recifes de coral do Caribe. O modelo empírico estima que um ecossistema do tamanho da Amazônia (~5,5 milhões km2) mudará em 49 anos… o que é, em linhas gerais, compatível com as mudanças multidecadais projetadas pela avaliação de especialistas e modelos baseados em processos. De forma preocupante, inventários recentes de áreas da Amazônia mostram uma taxa de sequestro de carbono declinante e há evidências crescentes de que o desmatamento adicional e a degradação da retroalimentação entre a formação de umidade e a cobertura vegetal pode levar a um ponto de inflexão de amplitude sistêmica, já em 2021. (…) (grifos nossos) (Gregory S. Cooper, Simon Willcock e John A. Dearing, “Regime shifts occur disproportionately faster in larger ecosystems”, Nature Communications, 10/03/2020).

Sem surpresa, o “estudo” recebeu ampla divulgação midiática, inclusive, no mesmo Guardian (10/03/2020) que, atualmente, disputa com vantagem o título de principal porta-voz do catastrofismo ambiental planetário. Em entrevista ao jornal, John A. Dearing, professor de Geografia Física da Universidade de Southampton, sintetiza os resultados:

O que estamos dizendo é, não se baseiem na longevidade desses sistemas apenas porque eles existem há milhares, se não milhões de anos – eles entrarão em colapso muito mais rapidamente do que pensamos. (…) Este é um artigo que é satisfatório do ponto de vista científico, mas preocupante de um ponto de vista pessoal. Seria melhor não ter chegado a esses resultados.

Dearing não consegue disfarçar o orgulho de integrar uma casta de cientistas engajados, que, nas últimas décadas, têm sido guindados ao estrelato, por conta do fornecimento em série de prognósticos negativos que reforçam o dogma catastrofista prevalecente. Entretanto, além da questionável técnica de extrapolação de dados de ecossistemas marinhos para a Amazônia, o trabalho tem uma conclusão mirabolante, a de que os 5,5 milhões de quilômetros quadrados do bioma poderiam ser devastados em menos de 50 anos. Uma simples operação aritmética mostra que, para que isto ocorresse, seria necessário que 110 mil quilômetros quadrados de floresta fossem derrubados ou se deteriorassem a cada ano até 2070, taxa mais de dez vezes superior ao índice anual de desmatamento registrado no Brasil nos últimos anos, e que nem mesmo os ambientalistas mais delirantes se atrevem a sugerir.

Como o estudo anterior, o de Cooper, Willcock e Dearing e, a rigor, a virtual totalidade das iniciativas acadêmicas sobre o “ponto de inflexão” padecem de um vício de origem: são projeções baseadas em modelos matemáticos hipotéticos com pouca ou nenhuma base em evidências reais. Ou seja, não passam de exercícios acadêmicos que, de modo algum, deveriam ser utilizados para apoiar a formulação de políticas públicas. Não por acaso, trata-se da mesma escola dos modelos matemáticos de clima usados para fomentar a campanha de “descarbonização” da matriz energética mundial, cujos resultados são “viciados” pela questionável ênfase atribuída ao dióxido de carbono (CO2) na dinâmica climática global, que não oferece resultados compatíveis com os registros históricos e paleoclimáticos.

Velhos conhecidos 

Não é coincidência que o conceito tenha sido criado por dois dos mais notórios cientistas engajados na agenda ambientalista, o climatologista brasileiro Carlos Nobre e o biólogo estadunidense Thomas Lovejoy. Todavia, apesar de o virem desenvolvendo desde a década de 1990, ainda não conseguiram oferecer evidências palpáveis de que o fenômeno realmente possa ameaçar o bioma Amazônia, apenas as onipresentes projeções de modelos matemáticos hipotéticos. Em seu artigo conjunto mais recente, significativamente intitulado “Ponto de inflexão da Amazônia”, publicado pela revista Science Advances em fevereiro de 2018, apenas afirmam:

Nós acreditamos que, com um desmatamento de 20-25%, sinergias negativas entre desmatamento, mudanças climáticas e o uso disseminado de fogo indicam um ponto de inflexão em que o sistema amazônico se converterá em ecossistemas não-florestais, na Amazônia Oriental, Sul e Central. (…)

Nós acreditamos que a linha de ação sensata não é apenas coibir estritamente o desmatamento adicional, mas também reconstruir uma margem de segurança contra o ponto de inflexão da Amazônia, reduzindo a área desmatada a menos de 20%, pela razão de sentido comum de que não se deve descobrir o ponto de inflexão preciso, indo até ele (grifos nossos) (Science Advances, 21/02/2018).

Convenhamos que o verbo “acreditar”, mesmo no plural, não é substituto para evidências científicas verificadas no mundo real.

Nobre é um dos arautos da proposta do “desmatamento zero”, como enfatizou na entrevista de página inteira publicada no jornal O Globo de 19 de julho último, na qual considerou como um “símbolo histórico” a carta de investidores internacionais enviada em junho a embaixadas brasileiras em sete países, com ameaças de redução de investimentos no País, devido às supostas ameaças à Amazônia (Alerta Científico e Ambiental, 25/06/2020).

Na ocasião, ele deixou claro qual é o objetivo do aparato ambientalista internacional: “Eles falam em zerar o desmatamento. Zerar, não importa se legal ou ilegal. É zero. A carta de empresas brasileiras enviada ao governo fala em desmatamento ilegal. Não basta. (…)”

O “ponto de inflexão” é uma abstração jamais observada em nenhum dos seis biomas brasileiros – Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa. Se as evidências do mundo real são úteis, o caso da Mata Atlântica é significativo, pois o bioma perdeu entre 80-90% da sua cobertura original desde o século XVI e não demonstra qualquer sinal de um “colapso irreversível” como o sugerido por Nobre et alii.

E é sempre relevante recordar que o bioma Amazônia encontra-se virtualmente preservado em 84% da extensão original encontrada pelos europeus, de 1500 em diante. Trata-se de uma área de 3,5 milhões de quilômetros quadrados, na qual cabem a Alemanha, França, Reino Unido, Irlanda, Noruega, Finlândia, Suécia, Holanda, Itália, Espanha e Portugal. Se fosse um país independente, seria o sétimo do mundo em extensão, com uma área superior à da Índia. E não mencionamos isto para justificar as práticas predatórias de exploração econômica do território amazônico, que devem ser reduzidas com o recurso a atividades econômicas e técnicas modernas e a repressão às ilegalidades, no marco das leis em vigor. Porém, tais dimensões e o fato de o Brasil deter mais de um quarto da área de florestas existentes no planeta costumam ser ignorados pelos profissionais do catastrofismo, que se empenham em apontar injustamente o País como o vilão ambiental número um do planeta.

PUBLICADO EM:       MSIA INFORMA 

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