A Terceira Margem – Parte VIII

Momentos Transcendentais no Pantanal   02.07.2015 

Ama as águas! Não te afastes delas! Aprende o que te ensinam! Ah, sim! Ele queria aprender delas, queria escutar a sua mensagem. Quem entendesse a água e seus arcanos – assim lhe parecia – compreenderia muita coisa ainda, muitos mistérios, todos os mistérios. (HESSE)

Acordamos cedo e fiquei aguardando a penumbra lentamente se dissipar. Parti bem antes de o Sol nascer. Gosto de navegar solitariamente usufruindo das belezas naturais que me cercam e enfrentar todo tipo de obstáculos acompanhado de longe pelo Grande Arquiteto do Universo.

Saindo antes do amanhecer tenho a rara oportunidade de me entranhar nos sutis meandros aquáticos, de imergir literalmente no momento mágico que é o despertar de um novo dia. A uniformidade da flora vai ganhando novos contrastes, novas cores, novas luzes, numa invulgar explosão que apresenta progressivamente a pujança extrema da biodiversidade tropical.

A fauna preguiçosa acorda e entoa uma ode maravilhosa sob a batuta do astro rei, tons diversificados, emitidos pelas mais diversas gargantas, irmanadas numa sinfonia única acompanhada de longe pelo som melancólico dos bugios. Meu coração e minha mente seguem a par e passo as estrofes da “Litania das Horas Mortas” de Da Costa e Silva, o Príncipe dos Poetas Piauienses e autor da letra do Hino do Piauí.

Litania das Horas Mortas

(Da Costa e Silva)

Por estas horas de silêncio e solidão,

Eu gosto de ficar só com o meu coração.  

É nestas horas de prazer quase divino

Que eu me sinto feliz com o meu próprio destino.

Por estas horas é que a cisma ([1]) me conduz

Por estradas de treva e caminhos de luz.  

É nestas horas, quando em êxtase medito,

Que sinto em mim a nostalgia do infinito.  

Por estas horas, quando a sombra estende os véus,

A fé me leva além dos mais remotos céus.  

É nestas horas de tristeza e de saudade

Que desperta em meu ser a ânsia da Eternidade.  

Por estas horas, minhas naus ousam partir

Para Istambul, para Goionda, para Ofir…  

É nestas horas, Noite amiga, em teu regaço,

Que eu me difundo pelo Tempo e pelo Espaço.  

Por estas horas eu somente aspiro ao Bem,

Que em vida se tornou minha Jerusalém.  

É nestas horas, quando o espírito descansa,

Que me depões na fronte o teu beijo, Esperança!  

Por estas horas é que eu sinto florescer,

Como os astros no céu, o jardim do meu ser,

É nestas horas de quietude que deponho,

Ó Noite! Em teu altar, minha lâmpada – o Sonho.

Por estas horas é que eu gosto de sonhar,

Para ter ilusões brancas como o luar.  

É nestas horas de mistério e beatitude

Que a Glória me fascina e a Poesia me ilude.  

Por estas horas de tranquila e doce paz,

Quanta serenidade o espírito me traz!  

É nestas horas, quando a treva se constela ([2])

Que ouço o teu canto nas estrelas, Filomela!  

Por estas horas, a minh’alma anseia por

Teu encanto, Ventura! e teu engano, Amor!  

É nestas horas de tristeza e esquecimento

Que eu gosto de ficar só com o meu pensamento.  

Por estas horas eu me julgo Parsifal ([3])

Para ir pela renúncia à conquista do Graal.  

É nestas horas que, como um eco profundo,

Repercute no meu o coração do mundo.  

Por estas horas transitórias e imortais

Se desvanecem minhas dúvidas fatais.  

É nestas horas de harmonia indefinida

Que eu tento decifrar o teu enigma, Vida!  

Por estas horas, meu instinto morre, com

A intenção de ser justo, o anseio de ser bom.  

É nestas horas de fantástico transporte

Que eu busco interrogar a tua esfinge, Morte!

Por estas horas, eu me enlevo assim, porque

Vela no lodo humano a luz que tudo vê…  

Por tuas horas silenciosas, benfazejas,

Deusa da Solidão, Noite! bendita sejas!

Nestas horas adentro solenemente nos umbrais de um templo sagrado e avisto, extasiado, a “Terceira Margem do Rio”.

Somente os canoeiros iniciados nos mistérios das águas são capazes de aprender humildemente com elas, com os ventos, observando as nuvens, a flora e os seres que nela habitam entendendo suas sutis mensagens.

Aprendi com eles a conhecer minhas potencialidades e meus limites, a fazer companhia a mim mesmo e a me satisfazer com isso, a refletir sobre minhas ações ou omissões, a declamar poesias educando a respiração enquanto pico a voga pelos ermos sem fim.

A cumprir, fielmente, a 4ª Lei da Guerra na Selva, de autoria de meu caro amigo Coronel Fregapani: ‒ aprenda a suportar o desconforto e as fadigas sem queixar-se e seja moderado em suas necessidades. Mais que uma lei é um paradigma para qualquer canoeiro que pretenda alcançar, com sucesso, seus mais supinos objetivos.

Depois da magnífica alvorada apareceram preguiçosos jacarés-tingas (Caiman crocodilus) banhando-se ao Sol, irritadas, barulhentas e abusadas ariranhas (Pteronura brasiliensis) e fleumáticos cabeças-secas (Mycteria americana) empoleirados nos galhos mais altos dos arbóreos monumentos.

Paramos nas proximidades de uma fazenda onde pudemos recarregar a bateria de nossos equipamentos eletrônicos.

Momentos Tumultuosos no Pantanal  

03.07.2015

Mantive minha monástica e prussiana rotina partindo antes do alvorecer e parei por duas vezes, por uns 15 minutos, antes de passar pelo Porto Ciriaco (km 28, deste 4° dia de viagem), aguardando meu parceiro (VMN) e como ele não aparecesse prossegui lentamente documentando a paisagem.

Pouco antes de passar pelo Porto Ciriaco, por volta 09h30, onde eu pretendia fazer a terceira parada, a chalana passou por mim e o “Velho do Rio” me informou, conforme combinara com o VMN, que pararia para o almoço, às 11h00. Decidi, então, abortar a próxima parada, afinal eu alcançaria a chalana em menos de duas horas. Desembarquei na chalana por volta das 11h15 tomei um banho refrescante, ingeri alguns bocados do peixe frito do dia anterior e fiquei aguardando por uns vinte minutos meu parceiro que chegou visivelmente alterado.

O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a tempestade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento. (Confúcio)

Já presenciei reações semelhantes, em oportunidades muito mais desafiadoras, quando nossos jovens guerreiros eram testados ao limite e não numa situação tão banal, tão trivial como a de agora onde contávamos com o conforto e apoio de uma chalana. Em situações extremas o esgotamento físico e o temor de enfrentar o desconhecido podem provocar erros de avaliação e decisões intempestivas que contrariam a lógica e o bom senso.

Aguardei o companheiro desabafar, e sem entender o porquê de sua descabida reação parti, depois de convidá-lo a continuar a jornada.

Estava alcançando a meta diária de 70 km quando a voadeira pilotada pelo “Limpa Rio” passou por mim levando o canoísta desertor (VMN) e toda a sua tralha.

Bem mais tarde, a chalana pilotada pelo Comandante Celso Ortega aproximou-se e ancorou na margem esquerda. Fomos contemplados, então, por uma chuva fina e fria além de rajadas de ventos que ultrapassavam os 30 km\h ‒ seria um desagravo de São Pedro à conduta irracional de nosso parceiro?

Passamos a noite preocupados com nosso veterano pescador na expectativa de que ele arranjasse um local abrigado para pernoitar e não decidisse enfrentar o Rio à noite. O “Limpa Rio” não enxerga muito bem e isso poderia comprometer a sua segurança caso arriscasse uma navegação noturna, além disso, a voadeira era o único recurso que nos permitia desencadear uma operação de resgate em caso de emergência ou pane no motor da chalana.

04.07.2015 

Choveu a noite toda, acordamos cedo, vesti uma camiseta de manga comprida, coloquei a saia do caiaque e parti enfrentando a chuva fina e gelada.

Combinei com o Sr. Celso que o aguardaria nas proximidades da Foz do Rio Touro Morto. Mantive uma média 11,5 km\h sem parar com o objetivo de manter o corpo aquecido.

Depois de remar por duas horas cruzei com o “Limpa Rio” que subia o Rio em busca da chalana – fiquei feliz em saber que o amigo estava bem e remei ainda com mais vigor. Passei por uma bela região de buritizais que não pude documentar em virtude da chuva, as margens aqui tinham sido substituídas por enormes regiões de várzeas. […]

 

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 27.07.2020um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS); 
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

[1]   Cisma: o devaneio.

[2]   Constela: dispõe os astros em constelação.

[3]   Parsifal: segundo a ópera de Richard Wagner um dos Cavaleiros da Távola Redonda que assume a condição de Rei do Graal.

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