Estudo pioneiro mapeia regiões da flora amazônica e pode ajudar na conservação das espécies

Um estudo recente publicado no Journal of Ecology estabeleceu uma nova divisão da flora amazônica baseada na distribuição de mais de 5 mil espécies lenhosas (árvores e arbustos). O trabalho, que analisou dados sobre a composição de espécies pela primeira vez, pode contribuir para futuros esforços de conservação.

O mapeamento da ocorrência de espécies de árvores e arbustos resultou em 13 sub-regiões da flora amazônica. Foto: Duda Menegassi

    • Mais de 5 mil plantas de diferentes cantos da Floresta Amazônica foram analisados por dois biólogos brasileiros
    • Foi a primeira divisão espacial da flora baseada na composição de espécies. Os pesquisadores reuniram informações sobre 301 comunidades de plantas distribuídas por toda Amazônia
    • O trabalho também indica o grande potencial de impacto das mudanças climáticas na vegetação da Amazônia
    • Conhecer a distribuição espacial da flora é essencial para proteger a Amazônia, já que as sub-regiões permitem direcionar esforços de conservação

Um estudo recente publicado no Journal of Ecology estabeleceu uma nova divisão da flora amazônica baseada na distribuição de mais de 5 mil espécies lenhosas (árvores e arbustos). O trabalho, que analisou dados sobre a composição de espécies pela primeira vez, pode contribuir para futuros esforços de conservação.

De acordo com os autores – os biólogos Karla Silva-Souza e Alexandre Souza, do departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – mapeamentos anteriores focaram na fitofisionomia da vegetação ou em conjuntos de dados que incluem espécies de animais, plantas e características de habitat.

“Enquanto o método revela padrões universais de distribuição da biota [todos os seres vivos], ele pode ocultar importantes padrões para grupos específicos, como é o caso dessas plantas lenhosas”, explica Silva-Souza.

Nessa nova metodologia, os pesquisadores reuniram informações sobre a composição de espécies de 301 comunidades de plantas distribuídas em toda Amazônia. Lugares que estatisticamente compartilhavam menos espécies individuais foram separados em sub-regiões diferentes, enquanto aqueles com mais espécies em comum foram agrupados dentro da mesma sub-região.

 

O estudo cobriu toda a Floresta Amazônica (área verde) por meio da coleta de amostras de 301 localizações de plantas lenhosas na América do Sul (pontos pretos). Mapa de Silva-Souza & Souza (2020, Journal of Ecology)

No total, o estudo identificou 13 sub-regiões na Floresta Amazônica, que cobre 40% da América do Sul e inclui territórios de nove países. Essas áreas também possuem espécies exclusivas (endêmicas), ou seja, que ocorrem apenas em uma certa sub-região.

Enquanto algumas zonas florísticas são amplas – como a sub-região 1 (na ilustração abaixo, à direita), perto dos Andes – outras são pequenas e periféricas, como a sub-região 13, próxima do Cerrado brasileiro. Algumas espécies que caracterizam essas duas sub-regiões são, respectivamente, Jacaranda macrantha (caroba) e Astrocaryum chambira (palmeira chambira); e Astronium fraxinifolium (gonçaleiro) e Cochlospermum regium (algodão-do-cerrado).

 

As 13 sub-regiões florísticas (b) delineadas pelos pesquisadores indicam a variação na composição das espécies da flora e sua ocorrência (a) na Amazônia. Mapas de Silva-Souza & Souza (2020, Journal of Ecology).

Mudanças climáticas e o futuro das espécies

Além disso, os cientistas quiseram investigar – também baseado em estatísticas – se as características dessas sub-regiões estão relacionadas às atividades humanas e aos fatores ambientais e históricos. Por exemplo, a estabilidade da vegetação ao longo de milhares de anos.

“A importância das atividades humanas que nós observamos na distribuição das sub-regiões indica o desmatamento e a fragmentação da floresta como resultado de invasões de terra e agricultura de grande escala”, diz Karla Silva-Souza.

“O número também sugere que o atual regime de chuvas e temperatura influencia a distribuição das sub-regiões e indica o profundo impacto que as mudanças climáticas podem ter na organização espacial da flora amazônica”, ela acrescenta.

O co-autor Alexandre Souza explica que o aumento na frequência de anos secos na Amazônia pode causar a expansão de certas sub-regiões florísticas e a contração de outras. “Algumas sub-regiões podem ter suas extensões territoriais aumentadas porque elas têm mais espécies que são tolerantes à poucas chuvas. Essas iriam proliferar enquanto outras sub-regiões com menos plantas tolerantes à seca iriam perder espécies e território”.

Conhecimento sobre a distribuição espacial da flora é essencial para proteger a Amazônia, afirma Silva-Souza. “Muito pouco se sabe sobre as espécies que existem na região, mas à medida que aprendemos mais sobre elas a partir de inventários florísticos e esforços de identificação, divisões espaciais mais precisas podem ser estabelecidas”.

A Floresta Amazônica abriga 25% da biodiversidade mundial e é uma das maiores forças no equilíbrio climático e biogeoquímico da Terra. Silva-Souza explica que esforços de classificação como esses podem ajudar a protegê-la. “Conhecimento sobre a distribuição espacial da flora em sub-regiões contribui para aumentar o número de espécies protegidas, já que os esforços de conservação são decididos de acordo com sua distribuição numa vasta região”.

Por: Jenny Gonzales
Fonte: Mongabay

PUBLICADO EM:    AMAZÔNIA.ORG.BR       MONGABAY NEWS

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