Acre cria grupo de trabalho para reduzir impactos da Covid-19 em povos indígenas

O governo do Acre criou um grupo de trabalho (GT) para monitoramento, estudos e sugestões sobre os impactos da Covid-19 relacionados aos povos indígenas, no âmbito dos assuntos de competência do Estado. Na edição desta terça-feira, 18, o Diário Oficial traz o decreto assinado pelo governador Gladson Cameli instituindo o GT para acompanhar e realizar estudos acerca da disseminação da doença nas comunidades indígenas.

GT foi criado para monitoramento, estudos e sugestões sobre os impactos da Covid-19 relacionados aos povos indígenas, no âmbito dos assuntos de competência do Estado Foto: Cedida.

A decisão de criar o GT coincidiu com as preocupações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesta segunda-feira, 17, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que, embora a Covid-19 seja um risco para os povos indígenas em todo o mundo, a agência “está profundamente preocupada com o impacto do vírus nos povos indígenas das Américas, que continuam sendo o atual epicentro da pandemia”.

A OMS informou que a região das Américas registra mais de duas mil mortes de indígenas no momento e mais de 70 mil casos de infecções até o dia 6 de julho. No Acre, 24 indígenas morreram por causa da Covid-19, sendo 816 os casos confirmados de contágio por coronavírus nas terras indígenas.

O governador Gladson Cameli estabeleceu que o GT terá a missão de apresentar sugestões de estratégias e diretrizes ao Comitê de Acompanhamento Especial da Covid-19 sobre medidas que possam ser adotadas para amenizar os impactos da doença naquelas comunidades.

Na edição desta terça-feira, 18, o Diário Oficial traz o decreto assinado pelo governador Gladson Cameli instituindo o GT Foto: Cedida.

A criação do GT coincide, ainda, com uma reportagem do jornal O Globo, publicada no sábado, 15, revelando que um grupo de índios isolados fez contato com a aldeia Terra Nova, onde vivem os Kulina Madija (pronuncia-se madirrá) do Rio Envira, na fronteira do Acre com o Peru, em meio ao momento de maior risco desses povos por conta do avanço da Covid-19 dentro das florestas.

A reportagem teve como fonte o relato do cacique Cazuza Kulina. Ele contou que, há mais ou menos uma semana, um índio chegou sozinho à aldeia e pernoitou na casa de um morador. Um dia depois, homens, mulheres e crianças (estimados entre 10 e 20 indígenas) também chegaram.

A reportagem assinala que, por não terem memória imunológica para resistir às mais simples gripes, esses povos originários correm risco de serem dizimados caso sejam contaminados. O jornal apurou junto a moradores da aldeia Terra Nova que há índios kulina com sintomas de tosse, dor de cabeça e cansaço.

O cacique Cazuza disse que os índios isolados foram embora levando alimentos (macaxeira, banana e milho), panelas, machado e algumas peças de roupa, cobertas e redes. A área onde vivem os Kulina Madija é um dos pontos da Amazônia onde não existem barreiras sanitárias instaladas pelo governo federal.

O sertanista aposentado José Carlos dos Reis Meirelles, que durante mais de 40 anos viveu na floresta e liderou a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Envira, alerta sobre o perigo. Segundo o sertanista, existem seis aldeias e ao menos 400 índios isolados naquela região. A preocupação dele é que, em breve, os 400 índios isolados possam voltar para a aldeia Terra Nova.

De acordo com Meirelles, não precisa nem contágio por Covid-19, mas uma simples gripe, para causar mortandade. Na avaliação do sertanista, os índios isolados certamente já foram contaminados nem que seja por gripe comum, pois a aldeia que visitaram fica perto da Fazenda Califórnia, por onde transitam muitos brancos e indígenas gripados.

Meirelles acha possível que já estejam morrendo índios isolados por gripe comum. “Nesse caso, os índios isolados vão concluir que adoeceram após a visita à aldeia Terra Nova e que a doença (gripe) é resultante de feitiçaria dos Kulina Madija do Rio Envira. Portanto, na avaliação do sertanista, além da ameaça da gripe, pode acontecer uma guerra entre os indígenas”, alertou o sertanista.

No Acre, ao longo da fronteira internacional Brasil-Peru e de suas cercanias, dez terras indígenas e duas unidades de conservação (um parque estadual e uma estação ecológica federal), com extensão agregada de pouco mais de 2,1 milhões de hectares, distribuídas em sete municípios, constituem territórios de moradia permanente e/ou de usufruto de grupos indígenas isolados.

O GT será composto por membros representativos indicados pelo governador, sendo um titular e um suplente, um da Secretaria de Estado de Assistência Social, dos Direitos Humanos e de Políticas para Mulheres, um da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, um da Secretaria de Estado de Saúde, um da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte, um da Secretaria de Estado de Produção e Agronegócio e outro da Secretaria de Estado de Comunicação.

Confira o decreto:   Decreto 6.573  

PUBLICADO EM:   NOTÍCIAS DO ACRE

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