Saúde Yanomami denuncia à PF conflito entre indígenas e garimpeiros em Roraima

Júnior Hekuari Yanomami, presidente do Condisi-Y, diz que houve ao menos duas mortes de indígenas.

Imagem de avião destruído, no dia 19 de junho, no território (Foto de Amazônia Latitute/2020)

Boa Vista (RR) e Manaus (AM) – O Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Y’ekuana (Condisi-Y) está apurando uma denúncia de conflito armado, na manhã do dia 14 de junho, entre indígenas e garimpeiros na comunidade Xaruna, que fica região da Serra do Parima, município de Alto Alegre, em Roraima.  Júnior Hekuari Yanomami, presidente do Condisi-Y, disse à agência Amazônia Real que recebeu a denúncia via radiofonia nesta terça-feira (23), em Boa Vista, capital do estado. “Dois indígenas yanomami morreram baleados por garimpeiros e outros ficaram feridos”, disse.

Segundo Júnior Hekuari Yanomami, a denúncia foi formalizada por moradores de outra comunidade, a Macabei, que também fica na região do Parima. “Eles relataram que os dois corpos ficaram na mata”, afirmou.

“Temo que isso possa desencadear novos conflitos mortais. As comunidades estão se reunindo para fazer guerra pelas mortes e também há relatos de garimpeiros que estão se armando na região do Arathau”, disse ele.

A reportagem recebeu informação de outras lideranças dando conta de que próximo à comunidade Xaruna tem um garimpo ativo, onde mais de dez homens exploram minérios ilegalmente. O conflito, segundo um relato via radiofonia, teria começado por volta das 10h55 do dia 14 de junho após um grupo de indígenas ir ao local e atirar para “espantar eles”.

“Um garimpeiro deu comida para eles. Depois os parentes voltaram para comunidade (Xaruna). De repente, um indígena mudou de ideia. Um indígena yanomami tirou (sic) arma de fogo na direção para espantar eles. Depois garimpeiros reagiram, pegaram suas armas e tirou (sic) um yanomami. Depois um garimpeiro correu atrás matou um yanomami. Dois garimpeiros matou os Yanomami e fugiram onde tem garimpos”, diz o relato da comunidade Xaruna, o qual a Amazônia Real teve acesso.

A reportagem procurou representantes da Polícia Federal e da Fundação Nacional do Índio (Funai) para falar sobre a denúncia do conflito, mas não obteve respostas até o momento.

O presidente do Condisi-Y. Júnior Hekuari Yanomami, disse ainda que pediu investigação urgente e apoio da Polícia Federal e da Funai. Também foi enviado ofício comunicando o conflito ao Ministério Público Federal e à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

O documento, ao qual a reportagem teve acesso, cobra as autoridades que sejam tomadas providências em relação ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Segundo a Hutukara Associação Yanomami (HAY), o território está invadido por mais de 20 mil garimpeiros desde o ano de 2019.

“A situação se agravou de tal forma que o caos social se instalou e a atividade criminosa caminha para sair do controle das forças de segurança”, alertou o Condisi-Y.

Avião destruído pelos indígenas Yanomami (Foto do Amazônia Latitude/2020)

Nesta segunda-feira (22), o site “Amazônia Latitute” divulgou em sua página no Facebook uma notícia de que indígenas Yanomami destruíram um avião de garimpeiros em outra região da terra indígena, em Roraima.

“Na última sexta-feira (19), indígenas yanomami da região do Alto Mucajaí, em Roraima, destruíram um avião Cessna de pequeno porte (modelo 182K Skylane, matrícula PT-CZC), que supostamente voltava de área de garimpo. Com pouco combustível na aeronave e sem GPS, o piloto pousou em uma pista próxima à comunidade dentro da Terra Yanomami. Os indígenas o detiveram e ele foi entregue às autoridades federais”, diz o site, que publicou fotos e vídeos do avião.

O território Yanomami tem 9,6 milhões de quilômetros quadrados e é onde vivem mais de 26 mil pessoas das etnias Yanomami e Y’ekuana, entre os estados do Amazonas e de Roraima. Com a chegada da pandemia do novo coronavírus na região, aumentou a vulnerabilidade na saúde dos povos indígenas agora também ameaçados pela Covid-19.

No início deste mês, líderes de organizações indígenas Yanomami lançaram uma campanha mundial para pressionar as autoridades do Brasil a expulsarem os garimpeiros ilegais da região.

Intitulada #ForaGarimpoForaCovid, a iniciativa já conseguiu 287 mil assinaturas em prol da saída dos garimpeiros, mas a meta é chegar a 350 mil.

Um estudo, que baseia a campanha, aponta que a Covid-19 pode contaminar até 40% dos Yanomami que vivem em áreas próximas aos garimpos ilegais.

O novo coronavírus já circula entre os povos Yanomami desde o mês de abril deste ano, quando morreu um adolescente da etnia, em Boa Vista.

Até o momento, segundo a Rede Pró-Yanomami e Yekuana, cinco indígenas Yanomami morreram vítimas da Covid-19 e outros três óbitos são investigados como suspeitos do novo coronavírus. No total, foram 168 casos confirmados da doença. Desses, 80 indígenas pegaram a doença dentro da própria Casa de Saúde Indígena Yanomami (Casai-Y), em Boa Vista.

A Casai-Y é destinada aos indígenas que precisam de tratamento fora de seu território. Outros 41 se contaminaram na terra indígena e 25 nas cidades de Boa Vista e Alto Alegre.

Equipe de saúde atende indígenas Yanomami no combate a Covid-19, no Rio Marauiá (Foto Dsei Yanomami 13/06/2020)
Por Emily Costa e Kátia Brasil, da Amazônia Real

Por: | 23/06/2020 às 21:19 

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