Garimpeiros, grileiros e madeireiros não fazem quarentena e avançam sobre a floresta e povos indígenas

Entrevista especial com Dom Roque Paloschi – Arcebispo de Porto Velho denuncia o desmonte dos serviços de saúde a povos originários, situação que se agrava com o aumento de ações ilegais que espalham morte, destruição e o novo coronavírus.

Foto: Cimi/Guilherme Cavalli – IHU UNISINOS

Enquanto o mundo se recolhe e segue as recomendações dos órgãos de saúde para manter o distanciamento social como forma de conter o avanço do novo coronavírus, a quarentena parece não ter o mesmo efeito sobre quem pratica ações ilegais na região amazônica. “Ao contrário, aproveitam a falta de fiscalização e de gestão política e administrativa no país para continuar com as ações ilícitas nas terras indígenas”, denuncia o arcebispo de Porto Velho, Dom Roque Paloschi, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Mas o religioso lembra que não é só a quarentena que faz crescer os ataques a povos indígenas, havendo um agravante ainda maior: “os contínuos discursos do governo do Brasil em incentivar as invasões, com sua retórica desenvolvimentista”. “Outra grande preocupação são os projetos de emenda constitucional e projetos de lei, como o PL 191/20, que regulamenta a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas”, acrescenta Paloschi.

A equação é sempre desfavorável aos povos originários. Além dos objetivos ataques a reservas e aldeias, com requintes de violência e crueldade, esses garimpeiros, grileiros e madeireiros que avançam sobre a floresta são os principais vetores que levam a covid-19 para os povoados. Situação que se agrava ainda mais diante dos desmontes que os setores de atenção à saúde indígena vêm sofrendo. “Há uma situação de desmonte e descontinuidade da política da saúde indígena, e isso já vem de um tempo atrás. A saúde indígena é um subsistema do SUS, o que provoca um esvaziamento das unidades gestoras e o enfraquecimento dos distritos sanitários”, explica o religioso.

Paloschi reconhece que a situação da covid-19 e as disputas políticas que se criaram em torno da pandemia são um desafio para todos os setores. Mas lembra que, no caso dos indígenas, que já vinham sofrendo, a questão é ainda mais desesperadora. Ainda assim, defende que não se perca a esperança. Aliás, supõe que do próprio modo de vida indígena podem vir respostas para que concebamos resistências e um novo horizonte. “Uma liderança indígena daqui de Rondônia, diante das tantas ameaças e retiradas de direitos, levantou a voz e disse: ‘são 520 anos de resistência, não é esse presidente que vai meter medo na gente’. Eles continuarão lutando contra toda ameaça a sua integridade física, cultural e territorial”, reflete.

Dom Roque Paloschi é gaúcho da cidade de Lajeado, arcebispo de Porto Velho, Rondônia, desde 2015, e presidente do Conselho Indigenista Missionário – Cimi. É formado em Filosofia pela Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e desde 2005 vem atuando no episcopado da região Norte do país, quando acompanhou de perto a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol.

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