Coronavírus: O que podemos aprender com um xamã da Amazônia? Parte 4: Os seres que protegem o mundo

Yãkoanari – o primeiro filho de Omama que se tornou o primeiro xamã, quando o pai preparou o pó da yãkoana e deu para ele beber (aspirar) –, é o pai dos xapiri e é considerado “um antepassado de verdade, um espírito muito poderoso. Nas palavras dos brancos, é o dono da yãkoana” (p. 136).

“Os xapiri nunca se deslocam na floresta como nós. Descem [das montanhas] até nós por caminhos resplandecentes de luz, cobertos de penugem branca, tão fina quanto os fios das teias de aranha warea koxiki que flutuam no ar. Esses caminhos se ramificam para todos os lados, como os que saem de nossas casas. Sua rede cobre toda a nossa floresta. Eles se bifurcam, se cruzam e até se superpõem, para muito além dela, por toda a vasta terra, a que chamamos urihi a pree ou urihi a pata, e que os brancos chamam de mundo inteiro. [Os caminhos] Foram abertos pelos antigos xamãs que os fizeram dançar [os xapiri] muito antes de nós, desde o primeiro tempo” (p. 116).

Quando os xapiri chegam para dançar e ajudar o xamã a fazer curas, trazem consigo todos seus filhos, que são os habitantes da floresta. “Há quem pense que cada um é único, mas suas imagens sempre são muito numerosas” (p. 117). “As araras-vermelhas, amarelas e azuis, os tucanos, papagaios, jacamins, mutuns, cujubins, gaviões herama, wakoa e kopari, morcegos e urubus são muitos na floresta, não é? E os jabutis, tatus, antas, veados, jaguatiricas, onças-pintadas, suçuaranas, cutias, queixadas, macacos-aranha e guaribas, preguiças e tamanduás? E os pequenos peixes dos rios, poraquês, piranhas, peixes pintados kurito e arraias yamara aka, então? ” (p. 116).

Os espíritos dos morcegos, especialmente, são aqueles que vêm para enfraquecer e manter as pessoas em estado de fantasma. Nesse momento, os xapiri fazem a limpeza, retirando toda a putrefação que está no interior nas entranhas. “Também lavam cuidadosamente nossa boca e peito para acabar com todo o cheiro de carne queimada” (p. 141).

Na verdade, os animais como um todo são filhos dos xapiris: são aqueles seres dos primeiros tempos, os pais de todos os demais animais que hoje estão na floresta e são caçados pelos humanos para servirem de alimento. Eles são o espelho dos primeiros humanos que, para proteger a vida de seus filhos, se transformaram em animais para servir de caça e alimento para eles. Por isso, os povos tradicionais da floresta sabem que os animais de caça são sagrados porque são seus ancestrais, o que faz com que eles não sejam mortos aleatoriamente nem de modo indiscriminado. Quando as pessoas do grupo precisam de caça para comer, os xamãs chamam os xapiri para dançar e isso faz com que os próprios animais se aproximem e se ofereçam à pessoa no momento em que estão caçando.

“Nós também, por mais que comamos carne de caça, bem sabemos que se trata de ancestrais humanos tornados animais. São habitantes da floresta, tanto quanto nós” (p.117). “Não pensem que a floresta é vazia. Embora os brancos não os vejam, vivem nela multidões de espíritos, tanto quantos animais de caça. Por isso suas casas são tão grandes. Tampouco pensem que as montanhas estão postas na floresta à toa, sem nenhuma razão. São casas de espíritos; casas de ancestrais. Omama as criou para isso. São muito valiosas para nós. É do topo delas que os xapiris descem para as terras baixas, por onde andam e se alimentam, como os animais que caçamos. É também de lá que eles vêm a nós quando bebemos yãkoana para chamá-los e fazê-los dançar” (p. 118) (grifo nosso).

Como se tornar um xamã

O pó yãkoana, que faz parte do ritual de iniciação e das ações na vida de um xamã, é produzido com a resina da parte interna da casca da árvore yakoana hi, que contém um alcaloide alucinógeno chamado dimetiltriptamina (DMT). Segundo Bruce Albert, essa substância possui uma estrutura química que se assemelha à da serotonina e por isso ativa os receptores desse neurotransmissor no cérebro, produzindo estado alterado de consciência durante o ritual xamânico. É inalando esse pó que o jovem aprende a ver os xapiris, e então pede que eles dancem e cantem. É assim que o xamã recebe as mensagens de Omama, transmitidas por meio dos cantos, colhidos das “árvores das línguas sábias”, que estão nas partes remotas da floresta.

Davi Kopenawa explica que quando alguém pede a um xamã para ensiná-lo a ver os xapiri, isso não lhe pode ser negado. Contudo, é um processo que demanda muito tempo para a iniciação, no qual o indivíduo aprende a beber (aspirar) corretamente a yãkoana, que é o alimento que atrai os xapiri e ele também aprende outros procedimentos adequados à vida de um xamã. “Nós não nos tornamos xamãs comendo carne de caça ou plantas das nossas roças, e sim graças às árvores da floresta” (p. 236). “Alguém só se torna xamã mesmo quando o espírito de Omama desce até ele. Sem isso, os outros xapiris não teriam vontade de se aproximar dos jovens novatos” (p. 500).

O processo de iniciação é rigoroso, requer restrição alimentar e também sexual. Devido a esse rigor e as reações que a substância provoca no corpo e na mente, desperta medo em muitos jovens, quando começam a ver os xapiri. Nesse longo aprendizado, o futuro xamã aprende a lidar com o medo e a reagir favoravelmente às suas reações e sensações que sente. “Se alguém beber sem cautela, a imagem dessa yãkoana atingirá seu crânio como um violento golpe de machado e o jogará no chão. Desmaiará logo, e não voltará a si tão cedo […] Quando descem a nós, mal temos tempo de escutar um zumbido e eles já pegaram nossa imagem, para perdê-la muito longe dali” (p. 136).

“O poder de seu pó é tamanho que faz explodir na pessoa uma luz deslumbrante, que cega. Por isso, quando a pessoa não o conhece [yãkoana], ela é logo derrubada com muita força e despenca no chão. Fica se batendo para todos os lados, com o ventre tomado de terror. Depois, fica lá, na poeira, sem consciência, por bastante tempo” (p. 136-7). Por isso, a iniciação de um xamã tem um aspecto mágico, sagrado e misterioso ao mesmo tempo, porque é nesse aprendizado que cada um se aperfeiçoa para perder o medo e consegue trazer para dançar para si os xapiri mais antigos, cujo ensinamento é mais poderoso ainda.

Durante o processo de iniciação, o xamã novato recebe do xamã mais antigo os conhecimentos ancestrais, por meio das visões do xapiri que vem dançar para guiá-lo. Mas para que esse espírito continue dançando e cantando, é preciso que o xamã jovem pense a aja com calma, para não atrair xapiri maléficos, porque estes poderão fazer maldades para os outros e para o próprio xamã novato também. Por isso, um dos grandes desafios de um xamã é trabalhar com as próprias emoções. À medida que o xamã se desenvolve nessa direção, ele pode receber xapiri mais antigos e mais poderosos para curar.

Quando um xamã experiente morre, ele deixa seus xapiri para quem fica no seu lugar, por meio de uma transferência do saber ancestral. Quando isso não acontece, os xapiri ficam vagando, e persistem em descer para dançar. “Eles se parecem muito com seus finados pais [os xamãs]. Assim, quando vêm dançar em forma de fantasma, vemos através deles os antigos xamãs que os tinham, e sua lembrança volta a nós com muita saudade” (p.127).

Também há xapiri mulheres, que são as filhas dos xamãs. “Então, quando essas moças chegam à puberdade, os xapiri manifestam sua vontade de dançar para elas. Se elas não tiverem medo de responder aos seus cantos, eles irão se instalar com elas para valer” (p.123). “Sua pele macia é pintada com urucum brilhante. Dançam com muita graça, às vezes com seus bebês nas costas, dormindo na tipoia” (p.127).

As lindas xapiri também criam um grande atrativo para os xapiri homens. “Os xapiri homens se apaixonam por elas sem dificuldade! Por isso essas mulheres espíritos sempre os precedem. Eles se juntam com muita pressa para segui-las, vindos de todos os lados, cada vez mais numerosos. Nunca dançam sozinhos entre eles. Seu olhar é atraído pela grande beleza dessas mulheres espíritos que os seduz e os apaixona” (p. 128).

Por: | 24/05/2020 às 21:38

Esta série de artigos é baseada no livro  “A queda do Céu: palavras de um xamã yanomami”, de autoria de Davi Kopenawa e do antropólogo francês Bruce Albert.

Referência: KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Leia os artigos da série:

Coronavírus: O que podemos aprender com um xamã da Amazônia? Parte 1: Invasão e mortes na Terra Yanomami

Coronavírus: O que podemos aprender com um xamã da Amazônia? Parte 2: Criação do mundo e a mitologia Yanomami

Coronavírus: O que podemos aprender com um xamã da Amazônia? Parte 3: Os conflitos e os xapiri

A fotografia que abre este artigo mostra crianças Yanomami comendo frutas (Rosa Gauditano/Studio R)

Elvira Eliza França é mestre em Educação pela UNICAMP, pós-graduanda em Neurociência e Comportamento pela PUC (RS), especialista em Programação Neurolinguística pelo NLP Comprehensive dos EUA e graduada em Comunicação Social pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP).  É autora dos livros: “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não-convencionais em Manaus, Amazonas” editado pela Valer e Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas (2002); “Corporeidade, linguagem e consciência: escrita para a transformação interior” (1995), “Dimensões interiores da escrita: a voz da criança interior” (1993), “Do silêncio à palavra: uma proposta para o ensino da filosofia da educação” (1988) e “Filosofia da educação: posse da palavra” (1984), publicados pela Editora Unijuí (RS).

PUBLICADO EM:       AMAZÔNIA REAL    

 

Um comentário em “Coronavírus: O que podemos aprender com um xamã da Amazônia? Parte 4: Os seres que protegem o mundo”

  1. A professora Elvira França é, positivamente, uma das mais brilhantes escritoras sobre questões do conhecimento ancestral. Esta série de textos publicados pela Ecoamazônia, vem alargar os horizontes do conhecimento tradicional e, além de mostrar a força impulsionadora da natureza amazônica, trás, em sua essência, importantes postulados acerca da relação homem-espiritualidade, em sua expressão mais singela.

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