Museu Goeldi pesquisa a dinâmica florestal no Parque Estadual do Utinga

O projeto, coordenado pelo pesquisador Leandro Ferreira, possibilita monitorar, em longo prazo, o comportamento das espécies florestais e seus processos de crescimento, mortalidade e recrutamento.

Agência Museu Goeldi

Recentemente, foram instaladas três parcelas permanentes nas florestas de terra firme do Parque Estadual do Utinga (PEUt), localizado na Região Metropolitana de Belém. A iniciativa é da equipe liderada pelo pesquisador Leandro Valle Ferreira, da Coordenação de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Resultados preliminares indicam que há necessidade da política de conservação ser estendida a todo Parque, pois até agora foi encontrada baixa similaridade entre as espécies identificadas nas parcelas do estudo, onde somente 51 das 197 espécies encontradas nas três áreas demarcadas para a pesquisa se repetem.

O projeto de pesquisa “Implantação de parcelas permanentes para o monitoramento da dinâmica florestal do Parque Estadual do Utinga” é uma parceria entre o Museu Goeldi e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), entidade responsável pela gestão das unidades de conservação no estado. As parcelas permanentes são áreas demarcadas em formações florestais, utilizadas com a finalidade de se obter dados sobre o comportamento das vegetações encontradas nestes espaços.

Implantação – As parcelas do Parque do Utinga começaram a ser implantadas no primeiro semestre de 2019, e seguem o “Manual de Campo para o Estabelecimento e Remedição de Parcelas”, elaborado pela Rede Amazônica de Inventários Florestais (Rainfor), um projeto de colaboração internacional, que busca, em linhas gerais, compreender as dinâmicas dos ecossistemas da Amazônia e tem o MPEG entre as instituições parceiras.

Para demarcar as áreas escolhidas para compor as parcelas “foram utilizados piquetes de marcação de PVC, com as extremidades superiores pintadas com tinta resistente à água e de cores contrastantes, para facilitar a localização”, relata o pesquisador Leandro Ferreira.

Em forma de quadrado com área de um hectare (100m x 100m), cada uma das três parcelas permanentes foi dividida em 25 quadras que medem 20 metros de lado (20m x 20m). Dentro de cada quadra, todas as árvores, palmeiras e lianas, com diâmetros acima de dez centímetros, são medidas, pintadas, marcadas com fichas de alumínio enumeradas e, sobretudo, identificadas detalhadamente.

Para a coleta de material vegetal que cai do dossel da floresta, isto é, o estrato superior da mata, foram dispostos 13 equipamentos conhecidos como armadilhas de liteira, dentro de 13 quadras de cada parcela permanente. As coletas do material sustentado pelas armadilhas são feitas mensalmente, enquanto a remedição dos diâmetros das plantas ocorrerá anualmente. O objetivo é estudar, ao longo do tempo, o comportamento das espécies florestais e seus processos dinâmicos de crescimento, mortalidade e recrutamento.

Resultados – Os primeiros resultados, nas palavras de Leandro Ferreira, são bastante animadores. De acordo com o pesquisador, foram marcados 1.374 indivíduos, totalizando 197 espécies, por sua vez pertencentes a 41 famílias botânicas. O número de espécies identificadas em cada parcela permanente variou entre 100 e 119 espécies.

Contudo, a grande descoberta da equipe aponta para uma baixa similaridade de espécies entre as três parcelas permanentes, com média de 34%. A explicação para o resultado, como explica Ferreira, se deve ao fato de 111 espécies (56,3%), das 197 espécies identificadas, serem restritas a uma das três parcelas, enquanto apenas 51 espécies (20.8%) ocorrerem nas três parcelas.

“Esses resultados são importantíssimos, pois demonstram que os fragmentos florestais de terra firme onde foram implantadas as parcelas têm uma flora bem distinta. Diante disto, a conservação desta flora deve ser feita em todo o parque, para obtermos um grau de conservação da biota”, avalia Ferreira.

Segundo Ferreira, o projeto também possibilitou a inclusão do parque estadual na Rede Internacional de Monitoramento da Dinâmica da Vegetação, no qual estão integrados dezenas de países que monitoram centenas de parcelas permanentes, que servem para gerar informações para a conservação da biota em escala mundial.

“Esperamos que essas parcelas de vegetação possam ser usadas pelos estudantes de graduação, pós-graduação e por pesquisadores das instituições de estudo e pesquisa do Pará”, almeja Leandro Ferreira, que já ministrou conteúdo experimental de duas disciplinas de pós-graduação nas três áreas demarcadas do parque.  

Parceria – As pesquisas desenvolvidas pelo Museu Goeldi no Parque Estadual do Utinga vem provendo de informações importantes para a gestão da unidade de conservação. Em 2018, na área dos estudos botânicos, o pesquisador Leandro Ferreira realizou o registro da orquidácea Vanilla pompona Schiede, pertencente ao gênero do qual se extrai a essência de baunilha, em uma região de vegetação de campinarana do parque estadual. Foi o primeiro registro de ocorrência da espécie dentro de uma área protegida no Pará, revelando a importância das florestas urbanas para a conservação da biodiversidade.

Em fevereiro de 2020, o Ideflor-bio promoveu o “I Seminário de Pesquisa nas Unidades de Conservação da Região Metropolitana de Belém”, no qual Leandro Ferreira e seus bolsistas de iniciação científica, Arnold Patrick e Adrià Miranda, apresentaram resultados de pesquisas realizadas por eles no Parque do Utinga. Foram apresentados três trabalhos sobre os diferentes tipos de vegetação existentes no parque; um inventário sobre as espécies de epífitas e, também, um trabalho sobre o impacto do efeito de borda na floresta de terra firme. A equipe desenvolve estudos botânicos no Parque do Utinga desde 2018.

Em entrevista para o portal do Ideflor-bio, Ferreira contou que, até o momento, foram catalogadas 461 espécies, divididas em 95 famílias botânicas, encontradas em floresta de terra firme, vegetações secundárias, lagos, florestas inundadas e campinaranas e em diferentes formas de vida, como árvores, arbustos, cipós, palmeiras, herbáceas e epífitas. Ele também explicou que a flora do parque estadual ainda está subestimada, uma vez que grupos pteridófitas, briófitas e fungos começaram a ser identificados somente agora.

Com o objetivo de preservar ecossistemas naturais, estimular a realização de pesquisas científicas e incentivar atividades de educação ambiental, o Parque Estadual do Utinga (PEUt) é uma unidade de conservação (UC) de proteção integral. A área abrange florestas de terra firme, de igapó e ombrófila densa, que incluem vegetação de palmeiras, ervas, epífitas, lianas, arvoredos e árvores.

Texto: Hojo Rodrigues

Agência Museu Goeldi

 

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