“A natureza está secando”: quilombo no Marajó vive impactos do arrozal e clima de violência

Comunidade de Remanescentes do Quilombo Gurupá possui mananciais secos e convivem com agrotóxico utilizado nas fazendas do agropecuário Paulo César Quartiero. Na fotografia, a paisagem da rizicultura.

(Foto de Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Vida e água são praticamente sinônimos. Se é certo que a água rege a vida em todos os locais do mundo, no caso do Arquipélago do Marajó a afirmação parece ter outro grau de concretude. No conjunto de ilhas incrustado entre a foz do rio Amazonas e o Oceano Atlântico, marés, chuvas e períodos de estiagem determinam todos os aspectos do viver.

A tal ponto que Rosivaldo Moraes Correa, professor de matemática na escola da Comunidade de Remanescentes do Quilombo Gurupá, fala em uma ditadura da água. A expressão é referência ao livro do padre italiano Giovanni Gallo (1927-2003), “Marajó – a ditadura da água”, que viveu parte de sua vida no arquipélago.

Hoje, porém, os fluxos de água ao redor do município de Cachoeira do Arari, no Pará, estão impactados por um agente externo, capaz de tudo abalar: água envenenada pelo uso intensivo agrotóxico das fazendas, fuga de animais e a até então inconcebível seca de igarapés acompanham uma severa transformação do Marajó em um polo de rizicultura.

Rosivaldo explica o ciclo das águas, regido por duas forças principais: as marés, que ditam diariamente a possibilidade de locomoção entre as casas, realizável apenas de barco; e as estações do ano, marcadas pelo alto índice pluviométrico no inverno chuvoso e um verão seco.

Entrada da Comunidade Quilombola do Gurupá, no Marajó, Pará (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Em linha reta, apenas 71 quilômetros separam Cachoeira do Arari da cidade de Belém, capital do Pará. Mas a viagem é longa e envolve uma tortuosa travessia de balsa, que pode durar três horas, entre Belém e Salvaterra, município vizinho à Cachoeira do Arari. Até poucos anos, só se chegava ao quilombo de barco.

Hoje existe um ramal com acesso pela estrada que liga Cachoeira do Arari à Salvaterra. Antes da chegada à sede do Município, envereda-se por um ramal, atravessando plantações de arroz e descampados onde são criados búfalos de maneira livre, muitas vezes adentrando a estrada – o que demanda cautela do condutor.

Pouco a pouco a vegetação se transforma. A savana vai ganhando densidade, até chegar ao território quilombola, cercado por floresta densa e açaizais. Na parte do quilombo ao redor do rio Gurupá, existe uma área de terra firme onde moram algumas das 850 famílias que compõem o quilombo. Ele ocupa uma área de 11 mil hectares, divididos em sete setores, e que formam uma única comunidade. Para além desta área de terra firme, há também uma região de várzea fértil para os açaizais, que se estende pelo rio Arari e seus belos igarapés. São cursos de água sinuosos, cercados por árvores inclinadas, que pendem em direção ao rio.

Os arrozais impactam a vida no Quilombo Gurupá desde o ano de 2010, quando o agropecuarista Paulo César Quartiero chegou à região para expandir seus negócios de arroz. Segundo os quilombolas, os impactos são muitos, e possuem várias facetas. O agropecuarista e político gaúcho, para escoar sua produção, construiu um porto no território reivindicado pelos quilombolas, sem que estes fossem consultados.

O arrozal, por si só, atrai patos e marrecos, que deixaram o território do quilombo. A migração dessas aves influenciou tanto o ecossistema quanto a alimentação de seus moradores: além de terem perdido uma importante fonte de proteína – o pato é um dos elementos tradicionais da culinária paraense – fugiram seus predadores. Para que cresçam os arrozais e se evitem as pragas, Quartiero utiliza nas lavouras agrotóxicos que chegam ao quilombo pelo fluxo dos rios. Por fim, para irrigar as plantações, a água da foz do Rio Arari é retirada, influenciando na reprodução dos peixes e secando os igarapés. Também o açaizal, principal fonte de renda para os quilombolas, começou a secar, sem que estes compreendam os motivos de tal mudança.

“Nós estamos na foz do rio Arari. Com relação à rizicultura no município de Cachoeira do Arari, com a chegada do Quartiero, que tem empreendimento colado com a sede do município, nas margens da rodovia PA-154, aí vocês podem dizer: ‘está longe do território, não influencia’. Nós acreditamos que influencia. Direto”, afirma Rosivaldo Correa, referindo-se ao conhecido ruralista que encabeça a produção da monocultura de arroz na região.

A reportagem da Amazônia Real visitou a Comunidade Quilombo Gurupá na primeira quinzena de janeiro deste ano. Rosivaldo denunciou o impacto do uso de agrotóxicos no lugar, uma realidade que está longe de ser restrita ao quilombo, e que assola pequenas comunidades tradicionais da Amazônia.

A aplicação é “feita por via aérea. Todos os dias, quando está germinado, de acordo com o período que eles julgam necessário. Todo mundo é testemunha porque todo mundo vê, passa na PA-154. Tem vezes que já aconteceu de pessoas passarem de moto, e quando ver está todo molhado de agrotóxico”.

Ele conta também que há intenso uso de produtos químicos para secar as plantações por parte de Quartiero. Às vezes, quando vai para a cidade resolver alguma pendência, a vegetação está verde. Poucas horas depois, ao retornar ao quilombo, ela está toda seca. “Tudo isso, não tem outra palavra: é veneno”, afirma.

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Fonte: Amazônia Real 

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