Reunião do Geea debate Geomorfologia fluvial e estresse antropogênico na Amazônia

Geomorfologia fluvial e estresse antropogênico na Amazônia. Este foi o tema de debates na 63ª reunião do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (Geea) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) realizada quarta-feira (18), no auditório da diretoria do Instituto. A apresentação do tema foi feita pelo Dr. Naziano Filizola Jr, Ph.D e professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O palestrante começou confessando sua fonte inicial de inspiração para seus estudos e pesquisas na área de Geomorfologia, o livro de Leandro Tocantins, denominado “O rio comanda a vida – uma interpretação da Amazônia”, lançado inicialmente em 1952 e até hoje considerado um clássico entre as obras sobre a região amazônica. Nela, Tocantins fala sobre floresta, várzea, costumes, mitos e especialmente sobre a importância dos rios e do regime das águas no modo de vida dos povos amazônicos.

Além dessa obra clássica sobre a Amazônia, o palestrante também indicou outras quatro publicações importantes e que tem servido como referência em seu campo de atuação: “anthropogenic stresses on the world`s big rivers – estresse antropogênico nos maiores rios do mundo”; sediment transport in aquatic enrivornments – transporte de sedimentos em ambientes aquáticos, damming the Rivers of the Amazon bassin – represamento de rios da bacia amazônica e The potential impact of new Andean dams on Amazon fluvial ecosystems – o potencial impacto das novas represas andinas no ecossistema fluvial amazônico.

Filizola apresentou várias ilustrações sobre os principais rios do mundo, mostrando que a maior parte deles se encontra na região tropical e também enfatizando o papel de destaque do rio Amazonas, responsável por 16% a 20% de toda a água doce lançada nos oceanos. Nesse contexto, ele chama a atenção para a importância estratégica desse rio e a responsabilidade que compete aos governos e sociedade dessa região para sua preservação e uso adequado.

O palestrante mencionou os aspectos das mudanças morfológicas dos rios por causas naturais, meandramentos e capturas fluviais, por exemplo, e também as causas induzidas pelo homem, como barragens, garimpo e desmatamento. Segundo ele, não raro as causas naturais e humanas se sobrepõem, potencializando mudanças no ambiente e ocasionando vulnerabilidade das populações. Como exemplo local, ele cita um trabalho desenvolvido por um de seus alunos no lago Janauacá no qual revela as mudanças dos hábitos da população por causa das modificações ambientais da área, entre 1986 e 2007; a mais evidente delas foi o deslocamento dos centros de serviços sociais, antes localizados às margens dos rios e agora nos eixos das rodovias.

Os estudos desenvolvidos pelo palestrante e sua equipe também tem mostrado uma correlação entre o regime hidrológico e o padrão de sazonalidade da malária no Estado do Amazonas, incluindo diferenças entre os sistemas aquáticos de águas brancas, com altas concentrações de sedimentos e de águas pretas, com baixas concentrações. Segundo ele, esse tipo de conhecimento científico tem grande importância na adoção de políticas públicas aplicadas ao sistema de saúde. Também estudos do grupo mostraram a influência das cheias e vazantes no acesso de alunos e professores em escolas ribeirinhas na Amazônia e a importância do conhecimento científico para gerenciar esses temas.

Hidrelétricas

 

GEEA Naziano Foto Werica Lima INPA1

 

Filizola fez um apanhado sobre o tema das hidrelétricas mostrando que existem milhares delas espalhadas pelo mundo, mas concentradas no Hemisfério Norte, especialmente nos Estados Unidos, Canadá, Ásia e Europa. Por outro lado, ainda existe um grande vazio na América do Sul e na África, sendo que esses continentes se colocam como “a bola da vez” para o crescimento desse setor que avança vorazmente, mesmo a despeito do avanço acelerado de outras fontes de energia, como a solar e a eólica.

Ele também aponta para o paradoxo de que a construção de barragens para hidrelétricas vem aumentando nos países pobres e em desenvolvimento, como os da América do Sul e África, enquanto vem diminuindo em países ricos, como Estados Unidos, em que muitas barragens vêm sendo demolidas na tentativa de restabelecer as condições naturais dos rios antes represados. Nesse sentido, os países em desenvolvimento, como o Brasil, estão trilhando caminhos que os países desenvolvidos estão deixando de trilhar, por questões ambientais e da melhoria da qualidade de vida de suas populações.

O palestrante mostrou alguns estudos que comprovam uma série de impactos das hidrelétricas sobre o ecossistema aquático e as populações humanas, incluindo a alteração no pulso de inundações, diminuição da pesca, aumento da concentração de mercúrio e emissão de gases de efeito estufa. No entanto, fez um apanhado mais detalhado sobre as alterações na dinâmica dos sedimentos, mostrando os resultados geralmente nocivos acarretados pela sua retenção na área do represamento e consequente diminuição de nutrientes nas áreas à jusante, o que reflete em efeitos nocivos na pesca, na agricultura e, no transporte. Citou também o caso das “terras caídas”, um fenômeno natural nos rios de água branca que gera forte aporte de sedimentos no sistema aquático, mas algo ainda carente de maiores estudos em termos das relações com o ciclo hidrológico (pulso de inundação), tipos de solos e intervenções humanas nos arredores.

Em suas pesquisas, Naziano tem produzido dados absolutos sobre a quantidade de sedimentos transportados em suspensão nas águas do sistema fluvial amazônico. Cita o rio Amazonas como o maior transportador do mundo de sedimentos (estes originados nos Andes), cujo aporte ao oceano é estimado em mais de 850 milhões toneladas por ano, medido na estação hidrométrica de Óbidos, no Pará.

O palestrante também chamou a atenção para o que aconteceu no Rio Madeira, com a construção das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, levando a uma redução dos sedimentos transportados por aquele rio, a jusante de Porto Velho, numa retenção de ao menos 20% do fluxo natural.

Garimpo

Quanto ao garimpo praticado há décadas no rio Madeira em outros rios como o Tapajós, o palestrante mostrou seus impactos negativos já bem compreendidos e discutidos pela sociedade, mas ainda carecendo de uma tomada de posição mais responsável pelo poder público. Naziano também expressou preocupação com as populações que militam em tal atividade e que precisam ser assistidas de alguma forma dentro de uma política adequada e ambientalmente sustentável para o setor na região amazônica.

Território

Com base em seus estudos, Naziano chama a atenção para os conflitos de uso do território, relacionados às diversas ações humanas na região. Com base no que vem ocorrendo nos países asiáticos, em que não apenas rios, mas também bacias hidrográficas vêm sendo conectadas para fins de produção de energia, gestão hídrica e outros interesses econômicos. Também comenta quanto às previsões que têm sido apresentadas quanto a um futuro sombrio para o padrão natural de distribuição das espécies de peixes e outros organismos aquáticos. Preocupa-se com isso em relação às perspectivas para a Amazônia diante dos atuais estressores em relação a um futuro não muito distante, a exemplo do que vem ocorrendo em bacias como a do Mekong, na Ásia, e até mesmo no Brasil como é o caso da bacia do Rio São Francisco, dentre outros.

Eventos climáticos extremos

GEEA Naziano Foto Werica Lima INPA2

 

Naziano destaca os eventos climáticos extremos, anunciadas pelo Painel Intergovernamental para a Mudança do Clima (IPCC) onde sobressai a ocorrência de secas e enchentes pronunciadas e bastante frequentes nas últimas décadas na Amazônia. Tais eventos associados a outros tipos de alterações naturais ou humanas podem gerar consequências nefastas irreversíveis e conclama os políticos e a sociedade em geral para estarem alertas sobre esses fenômenos e os levarem em conta na estipulação de políticas públicas. Na sua avaliação, somente uma boa governança local, associada a uma governança regional será capaz de enfrentar os problemas em curso e evitar catástrofes ainda maiores do que as já conhecidas. Para isso, a ciência é fundamental e os governantes precisam dar a ela o respeito e o apoio que merece.

No momento dos debates, o palestrante respondeu a perguntas de todos os presentes e se posicionou sobre vários temas levantados, como a poluição nas áreas urbanas, o projeto de asfaltamento da BR-319, ainda indefinido e carente de um debate público consistente, bem como sobre programas de ordenamento paisagístico e suas consequências no meio fluvial em cidades como Manaus (Caso do Programa Prosamim). Ao final, o pesquisador Geraldo Mendes, secretário-executivo do grupo, entregou o certificado da participação do palestrante e mencionou ter sido essa uma das mais enriquecedoras reuniões do Geea.

Da Redação – Geea

Fotos: Wérica Lima

VER MAIS EM: http://portal.inpa.gov.br/index.php/ultimas-noticias/3602-reuniao-do-geea-debate-geomorfologia-fluvial-e-estresse-antropogenico-na-amazonia     

 

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