Entrevista com a secretária Especial de Saúde Indígena, Sílvia Waiãpi

“A vida na saúde, a vida na luta pela vida, para mim é um prazer muito grande”, declara a primeira mulher indígena a dirigir a Secretaria Especial de Saúde Indígena. Nesta entrevista, Sílvia Nobre Waiãpi fala sobre seu encantamento com a escola, sua carreira militar e o fortalecimento da parceria institucional entre Sesai e Funai.

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Sílvia Waiãpi durante entrevista na presidência da Funai (fotos: Mário Vilela/Funai)

Na conversa com a chefe da Assessoria de Comunicação Social da Funai, Priscilla Torres, a secretária Sílvia Waiãpi se emocionou ao relatar a infância no Amapá após deixar a aldeia do Povo Waiãpi ainda criança e ir viver na cidade por conta do tratamento de saúde. “É isso que eu tenho da minha infância, dessa transição de aldeia-cidade, de cidade-aldeia”, recorda. Recentemente empossada, ela está à frente da Sesai desde o dia 24 de abril.

“Quando eu sofri um acidente em que caí e transpassada por um pedaço de madeira, houve a necessidade de que eu fosse para a cidade para operar. E justamente pelo fato de precisar de assistência de saúde especializada, eu tive que ficar na cidade. Perdi um pouco do movimento da minha perna direita, e eu lembro que não era a primeira sensação que eu tive de infância, que são coisas que ficam muito marcadas com prazer. Algumas pessoas sentem cheiro, algumas pessoas sentem sabor, algumas pessoas se identificam com sons.

Eu lembro que, quando criança, a primeira coisa que eu tive quando abri os olhos, eu achei o hospital um lugar lindo, eu achei aquele lugar maravilhoso. Olhei e percebi que alguém estava me dando banho, e esse alguém era uma enfermeira. Eu estava em uma pia e o hospital para mim naquele momento foi o lugar mais bonito e precioso que eu vi. E eu acho que a minha vida na saúde ficou marcada ali. Com a sensação de saber que um hospital podia ser um lugar transformador, que podia trazer esperança para a vida de alguém”.

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Sílvia Waiãpi ajuda a transportar o irmão, portador de necessidades especiais, para tratamento médico longe da aldeia (foto: acervo pessoal)

Depois desse acidente eu acabei permanecendo na cidade, sendo criada por uma família. A pessoa que me criou era um professor, e ele me ensinou os primeiros caminhos da alfabetização. Quando eu fui para a escola, todo mundo vinha e perguntava:
“- Nossa, você é indígena?’.
E eu dizia: “- Sim eu sou”.

Eu lembro que eles se reunião naquela escola, que também para mim era um lugar fascinante. Essa descoberta de criança, de mundos diferentes. Eu lembro que naquela época as crianças colocadas todas em fileiras. E todos cantavam o hino nacional enquanto uma das crianças hasteava a bandeira do Brasil. Naquela época, o ensino de Moral e Cívica era muito forte. E eles falavam para mim que eu era a verdadeira brasileira.

E me ensinaram a cultuar aquela bandeira, a bandeira do Brasil, como o maior símbolo da minha identidade. Eu queria muito hastear aquela bandeira. Passei a minha infância inteira implorando, puxando a saia das minhas professoras e pedindo pelo amor de Deus para que eu hasteasse aquela bandeira. Mas só as crianças brancas e as crianças não indígenas que podiam fazer aquilo.

Eu passei a minha infância me perguntando por que diziam que eu era brasileira e eu não podia fazer aquilo como as outras crianças. Eu prometi ali para mim, dentro da minha dor, que custasse o que custasse um dia eu hastearia aquela bandeira e o meu país iria ter orgulho de mim. As dificuldades e os problemas foram o que me impulsionaram a conquistar as coisas. Tive muitas experiências desastrosas, muitos recomeços, muitos fins. Mas sempre com um sonho.

Em 2007, minha família foi vítima de uma violência muito grande no Rio de Janeiro. Meu marido foi sequestrado e assassinado. Dali eu passei a ter uma percepção maior sobre segurança pública, atividades de inteligência, segurança nacional. Então eu prestei um concurso e fiquei em 7º lugar. Na época concorri com mais de 5 mil candidatos e entrei para o Exército brasileiro me tornando a primeira mulher indígena a ser uma oficial das Forças Armadas.

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Foi assim que eu entrei para o Exército brasileiro na certeza de que a história iria cobrar isso de mim. Então eu me dediquei. Se uma pessoa chegava no hospital às sete horas da manhã, eu chegava às cinco. Era a primeira a chegar e a última a sair. Enquanto alguns tinham o seu final de semana, eu, por opção própria, passava o meu feriado, o meu final de semana dentro do hospital para cuidar daqueles pacientes, que eram os meus irmãos de farda, que era a família verde-oliva.

E ao mesmo tempo eu me questionava. A minha consciência me cobrava e dizia que eu ajudava a salvar o mundo. ‘Você salva o tempo inteiro, está brigando pela saúde desse povo e quando é que você vai lutar pelo seu?’, pensava. Eu sabia que eu tinha que me preparar para isso. Sabia que eu tinha que ser uma das melhores, eu tinha que ter o melhor currículo. Eu tinha que ter todo um esforço e dedicação. A minha vida inteira foi construída em cima dessas batalhas.

Chegou um momento em que eu me tornei a chefe do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Central do Exército, que é o maior e mais antigo hospital militar da América Latina. E foi aí que uma mulher indígena começou a trilhar novos passos. Eu já tinha trabalhado toda uma questão de formação como transporte aeromédico adulto, neonatal, pediátrico, resgate aeromédico. Tenho formação pela ONU em salvaguarda e segurança, formação básica e específica na minha área da saúde que é a fisioterapia. Sou formada em Política Estratégica pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Tenho formação em Liderança Estratégica pela Escola de Comando do Estado-Maior do Exército brasileiro.

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Em suas férias, Sílvia Waiãpi visita a família na Terra Indígena que fica no Amapá (foto: acervo pessoal)

Como disse, tenho uma vida toda voltada para me preparar para assumir essa função. Tenho bastante tempo de experiência em gestão pública, compliance, contratos. Fui fiscal de contratos, responsável pela pasta de segurança de equipamentos e materiais do núcleo de segurança de pacientes do Hospital Central do Exército. Então, uma vida bem voltada para a questão administrativa, para a área de saúde e para a área fim, que é o atendimento direto com o paciente também em emergência.

Eu me preparei para estar aqui, para fazer o melhor, e vai ser assim. O nosso serviço tem uma característica que é a formação em transporte e resgate aeromédico. Foi o primeiro serviço no Brasil que um hospital instituiu uma emergência. Pessoas foram responsáveis por isso. E dentre essas pessoas, meus colegas de farda. Em 2011 houve um acidente na estrada, onde vários oficiais faleceram. Um ônibus capotou e vários oficiais ficaram mutilados. Eu fui chamada para ajudar a receber esses militares na emergência. E ali ficou marcada uma história muito grande para mim. Quando eu me deparei com aquela praça de guerra, eu me questionei sobre tudo o que eu estava fazendo ali e sobre o que eu representava para aquelas pessoas. Então veio a importância da minha formação na área de emergência e na área do resgate.

A minha formação em transporte aeromédico se deu por conta de alguém lembrar para mim que nós havíamos recebido uma criança com um tumor na coluna e o sonho dessa criança era comer um Big Mac. E aí me perguntaram se eu poderia fazer com que aquela menina pudesse comer um Big Mac, porque na cidade dela não tinha. Eu pensei e disse: não é só um sanduíche. Com ajuda de alguns amigos da Marinha, consegui entrar em contato com o Instituto Ronald Mcdonald, e aquela menina recebeu a visita do próprio Ronald Mcdonald, o ator principal, dentro do Hospital onde ela realizou o seu sonho de comer um Big Mac.

Ela teve alta do Hospital, tirou o tumor na coluna, mas não podia mais andar. Então ela voltou para a cidade dela. Meses depois o pai entrou em contato comigo dizendo que ela havia tido uma infecção urinária e estava sendo transferida de UTI aérea para o Rio de Janeiro. E eu me preparei para esperar por ela. Horas depois eu recebi uma ligação de que a aeronave havia retornado e a menina havia falecido.

Eu me perguntei: quem segurou a mão dela enquanto ela morria? E a resposta foi bem clara: eu não tinha experiência nenhuma na área e jamais poderia estar ali. A partir de então, eu resolvi me preparar para que nesse momento tivesse alguém que realmente se importasse e segurasse a mão quando a família não estivesse ali. Então resolvi me formar em transporte aeromédico.

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Em 2013 houve o incêndio da boate Kiss, e uma amiga minha havia ido para Santa Maria para passar a Lua de Mel. Essa minha amiga, a capitã Daniele Matos, faleceu com o marido dentro da boate. Naquela época foi feita uma força-tarefa de fisioterapeutas que pudessem trabalhar com a questão do envenenamento por gases. Essa é uma das especialidades da fisioterapia, que é a fisioterapia intensiva.

A resposta novamente foi bem clara para mim: eu não tinha experiência na área. Pensei que o nome da capitã Daniele Matos não podia ser esquecido. Que o nome de todas aquelas pessoas vítimas daquela tragédia não poderiam ser esquecidas. Então, tentei convencer os meus superiores. Em 2013, eu não consegui. Em 2014, não tive sucesso. Em 2015 também não tive sucesso.

O ano de 2016 foi quando eu me tornei chefe do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Central do Exército, então eu tinha o poder da caneta. Novamente eu fiz uma proposta de que nós formássemos a primeira turma da América Latina de fisioterapeutas especialistas na área de defesa química, biológica, radiológica e nuclear. Em março de 2017 nós formamos a primeira turma no Brasil, formada só por mulheres.

Então cada paciente tem uma importância. Foram coisas muito importantes que fizeram com que nós déssemos um passo muito grande na história da saúde, na história dos povos indígenas do Brasil para mostrar para o mundo que nós somos competentes, nós temos todas as condições de nos desenvolver. Nós somos inteligentes. Numa possibilidade melhor, numa posição melhor para mudar todas essas estatísticas que estão aí. Essa é a minha função, esse é o meu compromisso. Hoje tendo assumido a Secretaria Especial de Saúde Indígena, para mim não é um cargo, é uma missão. É isso que eu levo comigo.

Pergunta: Quais são os principais projetos que a senhora tem para esta missão?

Os principais projetos é fazer com que lá na base, o povo que está lá dentro da aldeia receba o melhor atendimento. O Ministério da Saúde tem proporcionado isso, tem proporcionado todas as verbas e todos os meios. Enquanto gestão, é promover isso. Promover que essa assistência realmente chegue. Que não fique apenas na área meio. Eu sei o quanto é difícil remover alguém de dentro de uma aldeia. Eu sei o quanto é difícil ver um familiar seu gravemente doente, precisar de auxílio e não ter.

A dor de quem está lá dentro da aldeia, essa dor também é minha. Se eu errar, é o meu pai que vai morrer lá dentro. Essa gestão vai ser feita com muita fiscalização, com muita cobrança e responsabilização seja de quem for. Nós vamos mudar a história da saúde no Brasil. Mas antes nós temos que consertar e limpar a casa.

Funai: A Funai e a Sesai serão parceiras na gestão da senhora?

A Funai é um dos pilares para essa construção da história da saúde indígena no Brasil. A saúde indígena antes era uma responsabilidade da Funai, que passou para a Funasa em outubro de 2010. Nós somos parceiros. Nós temos que andar de mãos dadas. O meu problema é o problema da Funai, e o problema da Funai é o meu problema. Porque as duas instituições trabalham com o bem estar, a segurança e a promoção da igualdade dos povos indígenas. São duas instituições parceiras que se não estiverem juntas, os povos indígenas serão prejudicados.

A minha proposta, assim como a proposta do presidente da Funai, é de que nós estejamos bem alinhados. Tanto que, após a publicação [da nomeação] no Diário Oficial, a minha primeira agenda oficial foi com o presidente da Funai.

Pergunta: A senhora é a primeira mulher indígena à frente da Sesai. Na sua opinião, por que o presidente Bolsonaro lhe indicou para esse cargo?

O presidente Bolsonaro me indicou para esse cargo porque ele tem certeza, e é o sonho da vida dele, de que os povos indígenas sejam donos do seu destino. De que povos indígenas tenham a oportunidade de crescimento, como qualquer outro cidadão comum. Ele entende que somos especiais sim, mas não no sentido da fragilidade. Mas especiais como o maior trunfo da história do Brasil. Somos um país com várias línguas, várias etnias. E justamente por isso, ele confiou a mim esta missão. Confiou a mim e a outros indígenas também essa oportunidade de fazer parte da história do Brasil no sentido de um crescimento, de uma valorização muito maior do que já tivemos algum dia. Foi o primeiro presidente da República que convocou uma mulher indígena para integrar sua equipe de transição de governo. E é o primeiro governo que confia a indígenas secretarias e instituições estratégicas no governo.

A Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) é dirigida por uma indígena, que é a Sandra Terena. A presidência da Funai está na mão de um descendente indígena que é o Franklimberg de Freitas. A Secretaria Especial de Saúde Indígena está nas mãos de uma mulher também. Então tenho a certeza de que este governo foi o único que de oportunidade de crescimento e voz aos povos indígenas.

Assessoria de Comunicação Social/Funai

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