Os impactos na saúde do povo Munduruku após séculos de invasões e violência

Com argumento e evidências contundentes, Daniel Scopel, Raquel Paiva Dias-Scopel e Esther Jean Langdon (2018) apontam que as políticas públicas que investem consideráveis recursos na atenção à saúde indígena são as mesmas que permitem agressões ao território indígena. Eles estudaram eventos e contextos, marcados por epidemias e violência interétnica além de estratégias de sobrevivência, cura e doença entre os Munduruku.

No artigo, “A cosmografia Munduruku em movimento: saúde, território e estratégias de sobrevivência na Amazônia brasileira” os pesquisadores apresentam o povo Munduruku, que vive em no Pará, Mato Grosso e Amazonas e, ainda que sejam um mesmo povo, possuem particularidades locais, que vão desde diferenças do ambiente que habitam e da memória construída até aos processos históricos vividos. Suas origens estão ligadas a territórios que cobrem desde o rio Tapajós até o Madeira.

 

Para Ytanajé Coelho Cardoso, mestre em Letras e Artes, pela Universidade do Estado do Amazonas, professor efetivo da Secretaria Estadual de Educação do Amazonas e professor substituto na Universidade Federal do Amazonas, pertencente ao povo Munduruku, e que estuda discurso indígena, o trabalho sobre a saúde dos povos Munduruku é de grande valia. “Os trabalhos dos professores Raquel e Daniel Scopel são de fundamental importância para a reflexão da própria comunidade”, explica. Ytanajé lembra que, antes dos trabalhos realizados pelos pesquisadores, não havia nenhum trabalho dessa natureza sobre os Munduruku. “Foi, assim, que eu percebi a importância desses trabalhos de campo sobre as reflexões, sobretudo, etnográficas do povo Munduruku, do Amazonas”.

 

Raquel Paiva Dias-Scopel, antropóloga da Fundação Oswaldo Cruz, no Mato Grosso do Sul, e uma das autoras do artigo, fala da relação ambígua das políticas nacionais (CARDOSO, 2015; LANGDON; GARNELO, 2017) com relação às populações indígenas.

 

Para Raquel, “Ela [a política] é ambígua porque, por um lado, é possível identificar o desrespeito e violência física estrutural dado que a longa história de contato dos Munduruku e dos invasores é permeada por mortes, epidemias e batalhas que deixaram marcas vivas na memória dos Munduruku do rio Canumã”.

 

Compreensão de saúde — A falta de diálogo, o desconhecimento dos protocolos indígenas e por ignorar a cosmologia desses povos, as práticas de autoatenção (MENÉNDEZ, 2017) que relacionam a saúde, o ambiente e o corpo, trouxeram diversas ações de desrespeito ao povo Munduruku, como também ocorreu em outro momento histórico, esse mais contemporâneo, durante a construção da usina hidrelétrica Teles Pires, localizada na divisa entre os estados do Mato Grosso e do Pará. Esse é um exemplo concreto da violência estatal contra os índios. “Esse comportamento replica o comportamento de mais de um século em que a violência do Estado foi usada contra os Munduruku para defender interesses alheios em nome de um projeto desenvolvimentista do Estado”, explica Raquel.

Entrevista com Ytanajé Coelho Cardoso

Entrevista com Raquel Paiva Dias-Scopel

A íntegra do texto pode ser encontrada em https://bit.ly/2TSaF0Q

Texto: Silvia de Souza Leão, jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (Unama), Belém, PA, Brasil.

Jimena Felipe Beltrão
Editora Científica
Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

 

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