Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos do Inpa debate Terra-Preta-de-Indio

Este tipo especial de solo apresenta propriedades físicas, químicas e biológicas muito especiais e podem contribuir para resolver alguns problemas básicos da agricultura na Amazônia.                 

“Terra-preta-de-índio: origem, potencialidades e uso”. Este foi o tema debatido na reunião do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA) realizada na última sexta-feira (25), a partir da palestra do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) Newton Falcão. Didático e recheado de experiência própria, Falcão destacou a natureza desse tipo especial de solos, seu uso histórico e atual e também suas potencialidades para o futuro. 

O GEEA é um fórum permanente e multidisciplinar, formado por pesquisadores, professores, executivos e outros e que tem como objetivo debater temas relevantes sobre a Amazônia. Criado em 2007, o Grupo é coordenado desde então pelo pesquisador Geraldo Mendes, graduado em História Natural com doutorado em Biologia de Água Doce e Pesca Interior.

De acordo com o pesquisador, as terras-pretas-de-índio (TPI’s) ou terras pretas arqueológicas são solos antropogênicos, altamente férteis, ricos em matéria orgânica e encontrados em toda a Bacia Amazônica, em manchas que ocupam de um a 300 hectares. As terras-pretas-de-índio ocorrem aos milhares, do sopé dos Andes à Ilha do Marajó e estima-se que a área por eles ocupada corresponda de 6.000 a 18.000 km2, representando 0.1% a 0.3% de toda a Amazônia.

 

NewtonFalcaoFotoGeraldoMendesINPA 

“Elas ocorrem em manchas circulares ou faixas, geralmente paralelas aos grandes rios, como o Amazonas, Negro, Madeira, Trombetas, Tapajós e vários outros”, contou o pesquisador, que é engenheiro agrônomo com doutorado em Agronomia.

A origem desses solos ainda desperta certas controvérsias. Segundo Falcão, pensava-se inicialmente que eram decorrentes da sedimentação de terra fértil no fundo de antigos lagos e lagoas ou mesmo resultante da decomposição de cerâmica deixada pelos indígenas, mas pesquisas mais recentes indicam que eles resultam do processo de degradação de produtos naturais como ossada, sangue, gordura, fezes, carapaças de quelônios, conchas, galhos, cascas, sementes e outros produtos oriundos da floresta e da alimentação. 

“Curiosamente, todo esse material está associado a pedaços de cerâmica, o que indica claramente sua associação com as comunidades indígenas”, explicou.

Formação

O processo de formação da terra-preta-de-índio também dependeu do fogo, o que pode ser atestado pela presença de carvão pirogênico (restos vegetais que sofreram uma combustão incompleta, isto é, na ausência ou escasses de oxigênio). Conforme o pesquisador são as partículas de carvão as principais responsáveis pela sua estruturação e boa adequação para a agricultura, já que torna o solo bastante leve, poroso, permeável e bom conservador de água. “Daí que o solo resultante é riquíssimo em cálcio, potássio, manganês e outros elementos químicos sumamente importantes na agricultura”.

A ciência ainda não entende bem é como as TPI’s foram formadas e vários estudos investigam quais os fatores e processos pedogenéticos que estiveram envolvidos na sua formação e que são responsáveis pelas suas propriedades físicas, químicas e biológicas.

De acordo com Falcão, os estudos sobre as TPIs são importantes para entender esses processos, mas especialmente para oferecer subsídios ao bom manejo, aproveitamento e também à tentativa de replicar a produção desse tipo de solo para atender às demandas atuais na produção de alimento a baixos custos e qualidade elevada. “Isso é válido de modo especial para a Amazônia, onde a grande maioria dos solos, aproximadamente 75% da Amazônia brasileira, é constituída de latossolos e argissolos, muito pobres em nutrientes, especialmente fósforo e potássio, além de baixíssima acidez”, ressaltou.

Na oportunidade, Falcão citou as principais publicações sobre o tema e fez relatos de vários experimentos bem-sucedidos que ele desenvolve junto a pequenos agricultores da Amazônia com o plantio de frutos como o mamão e laranja, além de legumes e hortaliças, como berinjela, fejão-de-metro e a couve-flor. 

“Este tipo especial de solo apresenta propriedades físicas, químicas e biológicas muito especiais e por isso podem contribuir para resolver alguns problemas básicos da agricultura na Amazônia, como recuperar áreas degradadas, tornando-as produtivas e incorporadas aos sistemas produtivos regional e nacional, e contribuir para diminuir o desmatamento, por meio de uma agricultura familiar mais sustentável”, destacou Falcão. 

Ainda segundo o pesquisador, a terra-preta-do-índio poderia se constituir numa “fonte de inspiração e excelente modelo” para a construção de um solo-moderno e igualmente fértil, combinando os conhecimentos tradicionais com a tecnologia moderna e assim diminuir a taxa de desmatamento e aumentar o estoque de carbono no solo.

Da Redação – Ascom Inpa*

Foto: Geraldo Mendes

*Com informações do GEEA

 

 

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