“Somos nós que conhecemos nossos rios”, diz Ketty Marcelo Lopez, do povo Ashaninka

Tarapoto (Peru) –   Do que estamos falando? Os papéis dizem que não há contaminação da água, mas somos nós que conhecemos os nossos rios, e sim, vemos. Quem faz o questionamento é Ketty Marcelo Lopez, indígena Ashaninka de Pucharini, localizada na Selva Central, e presidenta da Organização Nacional de Mulheres Indígenas Andinas e Amazônicas do Peru (Onamiap).

Ketty Marcelo Lopez concedeu o depoimento abaixo ao antropólogo e jornalista Fábio Zuker, que viajou a Tarapoto para cobrir VIII Fórum Social Panamazônico (Fospa), que aconteceu entre os dias 28 de abril e 1º de maio. Ele está fazendo uma série de reportagens da cobertura exclusiva para a agência Amazônia Real sobre o Fospa. Serão publicadas entrevistas com personagens que resistem, de baixo, à destruição de seus territórios e modos de vida na Floresta Amazônica. 

Depoimento de Ketty Marcelo Lopez

Da região de onde eu venho, os rios estão sendo contaminados por uma mineradora. Além disso, o nosso território Ashaninka, está concessionado ao chamado Lote 108, que destina a região à exploração de petróleo, pela Pluspetrol. Essa questão nos deixa com demasiadas incertezas, com muitas dúvidas: não sabemos por onde passa a linha de estudos sísmicos e criou-se uma grande divisão também dentro das próprias comunidades Ashaninka.

Os maiores problemas que temos que enfrentar, na selva amazônica, que diariamente temos que resolver e que nos preocupam, são problemas territoriais. Sobreposição de territórios, arrendamento e usos indevidos da terra, as ameaças do extrativismo frente aos recursos naturais que temos em nosso território. “Essas são apenas algumas das ameaças terríveis que vivenciamos dia a dia.”

Enquanto mulheres, temos que lutar conjuntamente com os homens diante das inúmeras ameaças que nos rondam, mas também temos nossas particularidades, pois nós também queremos decidir, nos manifestar a respeito de outras problemáticas. E uma delas é justamente a participação das mulheres dentro das próprias comunidades, pois muitas vezes não somos consideradas como qualificadas, e quando surge um tema de negociação, não nos querem deixar participar. Apesar de todos esses impeditivos, quando falamos em efeitos das mudanças climáticas, as que mais sofremos somos as mulheres, pois somos nós que permanecemos trabalhando nas comunidades, enquanto os homens se vão.

Por isso as mulheres devem participar dos conselhos decisivos comunais. Não apenas em nossas próprias comunidades, mas também nas confederações. Estamos, por exemplo, trabalhando na modificação dos estatutos de organizações indígenas para que se incluam mulheres nos âmbitos decisórios. É um caminho difícil ir até uma assembleia comunitária e dizer que queremos que 40% da direção seja de mulheres.

Para mim mesma, quando comecei a assumir certas posições, tínhamos encontros com as autoridades e os homens não me deixavam falar. Diziam que eu não sabia nada e que nada tinha a dizer: “dedique-se à cozinha nos congressos…”, me falavam eles. Também me criticaram muito quando tive meu segundo filho, pois já ocupava um cargo nas organizações indígenas. Agora, finalmente, com o passar do tempo, consigo lembrar de um modo mais tranquilo desses episódios.

A luta é incansável. O olhar é firme. Caminhamos…”

Eu espero para meu povo, para meus filhos, para meus netos, que um dia eles também possam desfrutar da natureza, da relação que temos com nossa mata, com nossos rios. Quando eu era pequena, aproveitei muito do rio que estava próximo da minha casa. Era muito lindo. Mas agora já está poluído por uma mineradora. Hoje o rio está cheio de chumbo, e os peixes morreram. É uma maravilha insubstituível, da qual hoje eu só trago memórias de criança. Mas eu lembro bem, é uma conexão muito forte. E sempre que vou para alguma comunidade em que os rios não estão poluídos, fico pensando “tomara que esse mesmo processo não ocorra aqui”.

Nos documentos sempre dizem que o rio não está poluído, que não há contaminação por chumbo. Mas quando vamos ao rio, vemos que já não tem mais a mesma cor, e nem mesmo um peixe. Então do que estamos falando? Os papéis dizem que não há contaminação da água, mas somos nós que conhecemos os nossos rios, e, sim, vemos. Há uma grande sensação de impotência, de não poder fazer nada diante da morte de nossos rios.

O Peru é um país campeão em firmar acordos internacionais, de proteção aos direitos indígenas, de proteção à natureza…. Depois tudo isso é ratificado internamente… [Fala com tom de desdém, mas também resignada, enumerando a esmo tratados e convenções dos quais o Peru é signatário.]

Mas através do legislativo, e do executivo, vamos elaborando projetos que violam os direitos dos povos indígenas. Decretos que nos vão expropriar, que nos vão expulsar de nossos territórios, que dinamizam os investimentos sem consulta aos povos indígenas. Todas as riquezas da Amazônia estão sujeitas a esses decretos.

Existe uma grande incoerência em governar. Pois por uma parte se assinam acordos pelos direitos dos povos indígenas, e assuntos climáticos, e por outro lado se faz todo o oposto. É muito contraditório. Tenho muita frustração e sensação de impotência, ao ver como os políticos decidem por nós. Os parlamentares decidem pelo território dos povos indígenas, pelas nossas vidas, por nosso futuro e o de nossas gerações.

Mas seguimos sonhando [se coloca mais alegre, e seu rosto ganha um tom de entusiasmo que em muito difere do tom que marcou a entrevista como um todo], às vezes abre uma janelinha, e dizemos: “Bom, com isso recuperaremos alguma área indígena, com isso…”. Sim… Os sonhos nunca vão morrer. E espero seguir avançando, como mulher, e que meus filhos continuem com essa luta.

Uma vez, quando eu estava em Selva Central, estava com minha filhinha, de um ano. Estávamos fazendo uma paralisação, um protesto contra a mineradora que está poluindo o nosso rio. E bom… eu não sabia que os policiais estavam vindo nos atacar, que nos cercavam. Estava com a minha filha. E vejo que rapidamente meus irmãos Ashaninka também se posicionam, começam a apontar suas flechas. E diziam que eu escapasse rápido, em direção à montanha, carregando minha filha nos braços. Sozinha… Coisas assim, que se passam quando alguém assume uma posição de liderança, e nossos filhos são os mais sacrificados.

Enquanto isso, o estado nunca se preocupa com a gente. Temos que ficar plantados diante deles, para quem sabe ganhar o direito de fazer alguma sugestão. Conseguimos recentemente derrotar um decreto legislativo, que visava ameaçar ainda mais os nossos direitos territoriais. Foi um trabalho de insistência. Sem fim…

Mas tudo é muito difícil… Lutar contra o machismo dentro das próprias comunidades e confederações indígenas. Os homens riem e caçoam de nós: dizem que não faz sentido ter organizações apenas de mulheres, que também teriam que ter organizações só de homens; dizem que as mulheres são apenas um tema de discussão, para que se discuta violência; que não devem debater questões ligadas ao território… Mas nós insistimos. A luta dos mulheres é a luta da defesa dos nossos direitos enquanto povos indígenas, e também dos nossos direitos enquanto mulheres.

As ameaças são muitas. Tem uma história curiosa, referente a instalação de uma hidroelétrica em Pakitzapango. Um mito Ashaninka diz que quando os nossos barcos passam pelas colinas, a ave Pakitzapango os ameaça comê-los. E com o passar dos anos tivemos de fato uma grave ameaça, com a hidroelétrica, justamente a hidrelétrica chamada Pakitzapango. E vimos que de algum modo a ameaça se cumpriu: a ave que chamávamos Pakitzapango era a hidroelétrica, que ameaçava secar o nosso Rio Ene, mas à qual conseguimos resistir.

O que eu mais desejo compartilhar com os outros povos da Amazônia são os nossos sonhos. A recuperação ancestral de nossos territórios. Viver não com esse metro quadrado da titulação, mas com as liberdades de que eu possa ir caçar aqui, que eu possa ir pescar ao outro lado, sem ter que pedir permissão. A reconstituição de nossos povos indígenas. Um sonho muito, muito distante. Mas que pouco a pouco vamos entendendo o que pode ser essa vida plena, esse buen vivir.  

“Temos muitos sonhos, e é este nosso caminho.”

Acompanha a série lendo a primeira reportagem sobre o Fospa: 

Escutar o Chamado da Floresta: VIII Fórum Social Panamazônico 

http://amazoniareal.com.br/

VER FOTOS EM: http://amazoniareal.com.br/somos-nos-que-conhecemos-nossos-rios-diz-ketty-marcelo-lopez-do-povo-ashaninka/   

 

 

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