Suiá Missú – No Mato Grosso, os novos problemas de uma velha disputa

25 de setembro de 2016  - Jaime de Agostinho

A luta dos índios xavantes para reocupar uma faixa de terra no centro do Brasil, que completou meio século neste ano, ganhou um novo capítulo com o processo de impeachment que tirou Dilma Rousseff (PT) da Presidência. Localizada no divisor das águas das bacias do Araguaia e do Xingu, no nordeste do Mato Grosso, a terra indígena Marãiwatsédé – que significa “mata densa” no dialeto xavante, derivado do tronco linguístico jê –, foi homologada há quase duas décadas, mas só desde o ano passado está sob a posse efetiva dos indígenas. A troca de comando no país, com a assunção do vice-presidente Michel Temer (PMDB), reacendeu um dos mais antigos conflitos da Amazônia.

Posseiros, produtores rurais e políticos retirados da região por forças federais, entre 2012 e 2013, se articularam pela terceira vez em meados de maio para reinvadir a terra de 165 mil hectares – área equivalente a 165 mil campos de futebol. O ressentimento com o governo Dilma fez com que Alto Boa Vista, município de 6 mil habitantes encravado no epicentro do conflito, se transformasse na cidade mais antipetista do país nas eleições de 2014, votando em peso no candidato derrotado do PSDB, Aécio Neves (ele recebeu 83% dos votos no primeiro turno).

A ação que retirou os não indígenas do local acabou com o Posto da Mata, distrito de quase 5 mil habitantes que tinha casas, escola, igrejas, hotel, além de silo e posto de pesagem de grãos.

Expulsos do local há 50 anos, os xavantes tentam manter o controle do território, que é cortado por duas estradas federais, no Vale do Araguaia, região ainda hoje conhecida como vale dos esquecidos – referência às áreas inacessíveis, agora cortadas por estradas de terra, mas ainda sem a presença do Estado. Uma das últimas fronteiras agrícolas do Mato Grosso, a área convive há décadas com o desmatamento ilegal, grilagem e venda irregular de lotes, crimes de pistolagem e seguidas violações aos direitos humanos.

A tentativa de reinvasão há três meses provocou a primeira crise do então governo interino de Michel Temer, constantemente pressionado pelos ruralistas do Congresso para promover mudanças nas regras de demarcação das terras indígenas. À época, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, recebeu em seu gabinete em Brasília representantes dos xavantes, que pediam ajuda federal. Agora efetivado no cargo, Temer ainda não definiu um nome para comandar a Fundação Nacional do Índio (Funai), cujas atividades estão praticamente paradas há meses.

O Ministério Público Federal, que investiga os crimes cometidos na terra indígena, pediu a prisão, em maio, de dois dos líderes da frustrada reocupação: o vereador Osvaldo Levino, conhecido como Nivaldo do Posto da Mata e o marido da vice-prefeita de Alto Boa Vista, Irene Maria Rocha Santos, Jovenil dos Santos, o Benil, detidos pela segunda vez.

Em 2014, eles já haviam sido presos após serem flagrados em interceptação telefônica tramando a reinvasão da terra. Num dos áudios obtidos pela Pública, um fazendeiro que tinha negócios no local comenta que ▶ “o Nilson Leitão [deputado federal] falou que é pro povo descer, e entrar pra dentro da área mesmo. Que é pra dar força. Para voltar com máquina, voltar com gado (…) e que ele [Nilson Leitão] pediu 30 escrituras para arrumar pra ele”. No caso de Benil, o áudio revela uma conversa dele com posseiros da região: ▶ “Nós tá grilando umas terra aqui” (sic), disse, referindo-se à Marãiwatsédé.

Nilson Leitão (PSDB-MT) foi quem presidiu a comissão na Câmara que propõe alterar a Constituição para transferir do Executivo para o Congresso a decisão final sobre a criação e a modificação de terras indígenas. Ele é investigado no Supremo Tribunal Federal por incitar a invasão e pela suspeita de negociar títulos de posse na reserva dos xavantes. Leitão nega os crimes e diz que a investigação contra ele é uma retaliação do PT e de indigenistas por ele apoiar a chamada PEC 215, ainda em trâmite na Câmara. Os ex-ocupantes da área alegam também perseguição política.

Em resposta ao plano de invasão mais recente, 130 xavantes acamparam por uma semana na encruzilhada, dentro da terra indígena, onde ficava o antigo Posto da Mata, que fora completamente destruído em uma nova desintrusão realizada em 2014 – a única construção que sobrou no distrito é uma imagem branca de um Jesus Cristo de 12 metros de altura que paira com os braços abertos em meio aos destroços.

O cacique Damião Paridzané, líder político da etnia, avisou às autoridades em maio: “Xavante, quando perde a paciência, perde o juízo, vai entrar na cidade, vai acontecer sangramento, morte, ninguém sabe”.

Reconhecidos pelo vigor físico e pela fama de guerreiros, os xavantes deram o recado: se houvesse uma nova reinvasão, eles iriam para a guerra.

 

ver texto completo, vídeos, fotos e links em:  http://politicaaplicada.com.br/2016/09/25/no-mato-grosso-os-novos-problemas-de-uma-velha-disputa-131/    

 

NOTA

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