Comércio ribeirinho transforma realidade social

Iniciativa promove geração de renda aliada à sustentabilidade

© Todos os direitos reservados. Foto: Acervo ICMBio e ASPROC

Em uma região historicamente dominada pelos chamados “patrões”, que se intitulavam donos das terras e controlavam os recursos naturais, a população do Médio Juruá conseguiu, com muita luta e organização social, transformar a realidade do lugar. Todo esse esforço coletivo resultou na bem-sucedida iniciativa Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário, sediada no município de Carauari, no Amazonas.

Criado em 2009 pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), o Comércio Ribeirinho tem como objetivo viabilizar a comercialização dos produtos agroextrativistas das comunidades ribeirinhas a preços justos, numa lógica de cooperação, autogestão e fortalecimento das comunidades locais. Desta forma, a iniciativa consegue romper o isolamento dessas populações – algumas levam até 48 horas de barco para chegar a Carauari, cidade mais próxima.

“Esse projeto foi uma demanda dos próprios comunitários. A transformação partiu da sociedade organizada, que idealizou o Comércio Ribeirinho. E de 2009 para cá, a iniciativa deslanchou, trazendo muitos resultados positivos”, conta o presidente da Asproc, Flávio do Carmo. “Nos últimos anos, conseguimos dobrar o poder de compra das famílias”, comemora.

Escoamento da produção e mercados comunitários

A cada dois meses, em média, o barco da Associação passa nas comunidades para coletar os produtos – açaí, farinha, borracha, frutas, sementes, pirarucu, entre outros – e levá-los a Carauari, onde serão vendidos ou enviados para compradores de outros municípios. Assim, pelas curvas do rio Juruá, considerado o mais sinuoso do mundo, a produção dos extrativistas escoa, fortalecendo a economia local.

Além disso, foram instalados pequenos mercados (batizados de “cantinas”) nas comunidades, onde os moradores podem adquirir itens básicos de alimentação e higiene. As cantinas são reabastecidas pelo mesmo barco que coleta a produção dos ribeirinhos. “Agora, mesmo aqueles que vivem nas localidades mais isoladas conseguem vender sua produção e acessar itens básicos sem precisar se deslocar até a cidade”, ressalta Flávio.

Ganhos sociais, econômicos e ambientais

No total, 500 famílias participam do Comércio Ribeirinho, que abrange as populações de duas Unidades de Conservação (UCs): a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, de âmbito estadual, e a Reserva Extrativista (Resex) do Médio Juruá, UC federal administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O ICMBio mantém uma relação de grande proximidade com as comunidades da Resex e com a Asproc, apoiando a iniciativa através da organização comunitária, das ações de fiscalização e do investimento em atividades de manejo. “Quando melhoramos a gestão da UC e reduzimos os conflitos sociais, o projeto acaba tendo mais êxito. Vale lembrar que a própria Reserva foi criada a partir dessa necessidade de autonomia”, argumenta Rosi Silva, chefe da Resex do Médio Juruá.

Para Rosi, além dos ganhos econômicos, o lado social tem se consolidado cada vez mais, por meio da ampliação do acesso a políticas públicas (moradia, saneamento básico, etc). “Com as assembleias e encontros realizados pela Associação, o Comércio Ribeirinho promove, ainda, importantes momentos de integração para as comunidades”, avalia.

Outro aspecto que merece ser destacado, segundo a chefe da UC, é a preocupação com o meio ambiente: após a implementação do projeto, houve redução do desmatamento e da pressão sobre os recursos naturais, que passaram e ser aproveitados de forma sustentável. “O Comércio Ribeirinho não trabalha com produtos que degradam o meio ambiente. Pelo contrário, a iniciativa busca fomentar as boas práticas e o manejo sustentável dos recursos”, aponta Rosi.

Comunicação ICMBio

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