Questão Indígena – A desconstrução de Almir Surui: Veja como age o indigenismo para manter os índios sob controle

Cerca de cinco ou seis anos atrás os índios suruí, ou paiter, como eles preferem ser chamados, viviam como quase todas as outras etnias do país: a margem da sociedade ocidental. Assim como as demais etnias, eram obrigados a recorrer a atividades ilegais para auferir alguma renda e acessar bens da cultura ocidental como roupas, biscoitos recheados, sandálias de borracha e calções com listras. Para além do ideário dos indigenistas de Copacabana, a vida dos índios na Amazônia não é nada fácil.

Os kayabi garimpam ou franqueiam suas terras a garimpeiros ilegais em troca de renda. Cinta-larga e munduruku fazem o mesmo. Os tenharim, enawenê-nawê e alguns akwen cobram pedágio ilegalmente em rodovias que cortam suas terras. Etnias menos afortunadas em cujas áreas não passam rodovias nem tem metal precioso, em geral, recorrem à venda ilegal de madeira. Era o caso dos paiter.

Até 2009, caciques das 25 aldeias paiter da Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia, viviam da venda ilegal de madeira para as cidades do entorno. Mas eis que surgiu uma novidade na tribo. Um jovem e articulado cacique que virou o “labiway esaga”, uma espécie de líder maior na língua dos paiter que unificou todas as aldeias sob sua liderança. Almir Narayamoga Suruí ganhou fama e respeito internacional. Participou de vários eventos mundo a fora, foi capa de revista internacionais, alvo de matérias da Veja e Época e eleito herói da floresta pela ONU em 2013.

Decidido a livrar seu povo da venda ilegal de madeira e bem orientado por ambientalistas e tecnicos internacionais, Narayamoga iniciou um projeto inovador de venda de Carbono. Fez todos os procedimentos necessários à certificação internacional dos créditos e vendeu-os à Natura por alguns milhões de dólares. Fez também um acordo com o Google para o monitoramento da floresta, e do carbono, através de satélites e das ferramentas de publicação da empresa.

O arranjo construído por Narayamoga livrou o povo paiter da dependência do comércio ilegal da madeira. Ano passado a Band fez uma reportagem sobre os efeitos do trabalho de Almir Suruí em benefício de seu povo. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=fMJOM_sB-RU

Mas a independência financeira dada aos paiter pelo trabalho de Narayamoga colocou o “labiway esaga” em rota de colisão com o indigenismo.

No final do ano passado o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) iniciou um processo deliberado de desconstrução da liderança de Almir Suruí entre os paiter.

Em dezembro passado o Cimi publicou em um de seus jornais, o Porantim, uma entrevista de duas páginas com Henrique Yabady Suruí, cacique de uma das 25 aldeias paiter da Terra Indígena Sete de Setembro.

Na entrevista conduzida pela jornalista do Cimi, Patrícia Bonilha, Henrique Suruí pede o fim do projeto de crédito de carbono construído por Almir Suruí e acusa Narayamoga de tentar controlar o povo paiter. “Descobri através de meus amigos e entidades de apoio que nós, um dia, ia perder a terra porque o recurso passado [pelo projeto de crédito de carbono] ia pagar o direito de viver em nossa terra e ia tirar o nosso direito”, disse Henrique na entrevista.

Perguntado pela jornalista se o projeto trouxe algum benefício à comunidade paiter, Henrique Suruí responde: “Nada, nada, nada. Só prejudicou a vida Suruí. A vida acabou, não tem mais nada. Não tem projeto como tinha antes. Acabou. Antigamente tinha projeto da Funai, da associação nossa pra dentro da comunidade e, agora, não tem mais.”

Almir Narayamoga Suruí reagiu. Publicou uma nota de esclarecimento em sua página no Facebook desqualificando as declarações do cacique Henrique Suruí e denunciando o indigenismo do Cimi. “Será que de fato o Cimi tem amor a causa indígena e quer a autonomia indígena?”, questionou Narayamoga em sua carta (veja íntegra aqui).
 

Outros cacique paiter, assim como líderes de outras etnias vizinhas à terra indígena Sete de Setembro, que também tentam se livrar do controle dos indigenistas através da independência financeira, se aliaram a Narayamoga. Líderes dos Arara-Karo, Gavião-Ikólóéhj e outros nove povos da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, divulgaram uma carta de repúdio à entrevista de Henrique Suruí e ao Cimi.

Apesar da reação dos índios em defesa de Narayamoga, o Cimi arregimentou outras lideranças paiter e encaminhou na semana passada ao Ministério Público Federal (MPF) de Rondônia uma carta na qual pedem o fim do projeto de crédito de carbono, o que significaria o fim da liderança de Almir Narayamoga Suruí e o retorno da dependência financeira dos paiter.

Veja também: O que querem os índios e o que os antropólogos querem que eles queiram?

No fundo, o alvo do Cimi é a independência dos índios. Almir Narayamoga Suruí se tornou um subversivo quando negociou seus projetos com as fundações internacionais diretamente, sem a intermediação de organizações indigenistas. Se todos os índios resolvessem seguir o exemplo de Narayamoga, o Cimi e outras ONGs indigenistas como ISA, IIEB e TNC perderiam poder, perderiam a própria a razão de ser.

Narayamoga ameaça um negócio bilionário que sustenta ONGs e indigenistas há décadas. Por enquanto a desconstrução do “labiway esaga” do povo paiter está restrita ao mundo das palavras e das redes sociais. Mas não é absurda a suposição de que ele pode ser morto. É de extrema importância que a Polícia Federal ponha Almir Narayamoga Suruí sob proteção o mais rápido possível.

Saiba mais sobre o descolamento entre o interesse dos índios e o interesse dos indigenistas na Questão Indígena:

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NOTA

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