Povo Baniwa e Coripaco comemora dez anos de escola própria

7 de maio de 2011  - Jaime de Agostinho

Pioneira no ensino escolar indígena diferenciado, a Escola Indígena Baniwa e Coripaco tem muito a festejar.  Fundada no ano 2000, tornou-se referência quando o assunto é educação diferenciada.  Localizada no Rio Içana, noroeste amazônico, a escola completou dez anos e as comemorações vão acontecer entre 25 e 27 de maio próximos.  Quem conta essa história e convida todos a participar da festa é André Baniwa, um dos principais idealizadores e coordenador de implantação do projeto que resultou na escola.  Liderança da etnia Baniwa é atualmente vice–prefeito do município de São Gabriel da Cachoeira.

Alunos da EIBC Pamaáli

A Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali (EIBC-Pamáali), criada no ano 2000 com o apoio do Projeto de Educação Escolar Indígena do Alto Rio Negro-Foirn/ISA, completou dez anos de vida em setembro de 2010.  Os Baniwa/Coripaco vão comemorar este mês, entre os dias 25 e 27, os avanços conquistados e avaliar os desafios ainda a serem superados.  São muitos os motivos para comemorar.

:: De 2000 a 2010, a escola formou cinco turmas, totalizando 105 jovens formados no ensino fundamental completo.  Seus ex-alunos e professores atualmente vêm participando da renovação dos quadros de gestores locais, ocupando postos de coordenação em outras escolas e associações, resultando num ambiente muito favorável ao envolvimento dessas organizações no processo de gestão territorial da bacia.

:: Todo aluno formado apresentou monografia com temas relacionados à cosmologia Baniwa e Coripaco, história, organização social e manejo ambiental.

:: As pesquisas da Escola Pamáali estão resultando numa base de diagnósticos socioambientais e na formação de uma equipe de agentes indígenas com experiência em diversas modalidades de pesquisa-ação consideradas importantes para o desenvolvimento de estratégias de manejo ambiental da bacia do Içana.

:: O sucesso dessas ações empreendidas pela EIBC Pamaáli afeta diretamente a gestão de um extenso território com cerca de 3.487.792 hectares, que compreende toda a bacia do rio Içana.

O início de tudo

A Escola Pamáali é um projeto pioneiro em valorizar as questões de sustentabilidade e o conhecimento ancestral no processo de educação.  A Pamáali está preparando os alunos para serem pensadores criativos e críticos para liderar a sustentabilidade no seu meio ambiente.  E inspirando e instruindo-os com apropriado e relevante conhecimento para que os Baniwa e Coripaco continuem cuidando bem da Bacia do Içana, e do mundo.

Existe uma grande diferença entre reivindicar e construir o próprio projeto.  Reivindicar é solicitar uma coisa já pronta para si e construir é pensar, elaborar, captar recurso e implantar o projeto.  O projeto para ser implantado é feito passo a passo, fazendo funcionar, ser reconhecido e se tornar realidade, e assim fazer parte da vida do povo que sonhou.

É assim que podemos começar a contar a história da construção até o funcionamento da Escola Pamáali, um momento importante para comemorar a merecida história.  Que se confunde com a retomada da organização social, que busca autonomia no sentido de construir seus projetos de futuro comprometido com o fortalecimento da identidade cultural.

Tudo começou quando os Baniwa entenderam a importância de se organizar dentro de seus direitos, os quais poucos conheciam.  A associação Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi) foi criada em 1992, como ferramenta de trabalho na relação com a sociedade envolvente e com o compromisso de elaborar seus próprios projetos, sendo que um importante projeto era a escola, que ofertasse ao menos o ensino fundamental completo.  Inicialmente, reivindicamos uma escola e depois, como não havia resposta, passamos a pensar, discutir a escola, o que resultou no projeto Escola Indígena Baniwa e Coripaco – EIBC Pamáali.

A comunidade acima de tudo

Assim a essência da razão da escola é acima de tudo a comunidade, ou seja, a escola só tem sentido quando está voltada para o fortalecimento do povo.  Na concepção e avaliação Baniwa, a escola não tem sentido se tiver como projeto o não fortalecimento do conhecimento tradicional Baniwa.

Numa comunidade Baniwa e Coripaco, encontramos todos os conceitos que o mundo do Ocidente oferece, com muitas nomenclaturas como: linguagem, matemática, ciência, estudos sociais, geografia, filosofia, química, física, arte, culinária, engenharia de pesca, engenharia florestal, administração, recursos naturais, agricultura, biodiversidade e muitos outros.

Entendimentos diferentes do mundo foram sentidos no contato dos Baniwa e Coripaco com essa outra sociedade, e como resultado num determinado período da história deixamos nossa forma própria de ciência e tecnologias, para aprender novas formas.  Não é que os Baniwa não tivessem a educação própria, ou que a outra forma de produzir conhecimento é melhor ou superior que a educação Baniwa.  Mas o fato é que a partir do contato surge a necessidade de relação com o Estado, que tem sistema próprio e define normas.  Por isso é que os Baniwa optaram pela educação escolar, mas fundamentada nos princípios Baniwa e Coripaco, direito adquirido com a Constituição Brasileira de 1988.

Consideramos os princípios que regem o Estado, mas também exigimos o respeito e reconhecimento dos nossos princípios, e deste modo, propomos construir um ambiente de interculturalidade de conhecimentos que promova a formação para desenvolvimento sustentável e bem estar das comunidades.  Este é o valor fundamental da Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali, que para ser realidade passou por várias fases de construção.  Atualmente tem bons resultados divulgados e reconhecidos, ultrapassando os limites nacionais e contínua projeção de avanços qualitativos de ensino.  Firmando a cada dia o seu objetivo de formar um cidadão Baniwa e Coripaco capaz de transformar sua realidade para melhor viver na sua comunidade e no seu território tradicional.

Dez razões para comemoração

Sustentabilidade – a Escola Pamáali não é mais um projeto, transformou-se numa instituição importante de ensino no município e estado.  É reconhecida pelo sistema municipal, tem Projeto Político Pedagógico (PPP) aprovado e recebe financiamento do governo, ainda insuficiente como todo o quadro da educação escolar nacional.  Mas diferente do início, que nem reconhecimento obteve, sem briga, hoje a Pamáali é referência, está consolidada e tem grande credibilidade.  E se não conseguimos a sustentabilidade da escola, incentivamos a formação dos alunos para o apoio à sustentabilidade em suas comunidades.

Gestão – a política de gestão está na mão das comunidades desde que foi pensada e cada ano através de um conselho é feita assembleia para acompanhar e avaliar os trabalhos planejando sempre junto o ano seguinte.  O gerenciamento e execução estão nas mãos de professores e dos próprios alunos que a frequentam.

Potencialidade – o mais importante desta escola é colocar o que se aprende na prática, sistematizar o que já se sabe.  Dar valor ao seu conhecimento e somar com os conhecimentos de fora.  Assim, cumpre o objetivo de formar o cidadão Baniwa e Coripaco na perspectiva de desenvolvimento da melhoria de vida consciente e responsável.

Gestão ambiental, cultural e territorial – A gestão ambiental do território está associada com cultura e conhecimento.  Significa patrimônio constituído milenarmente.  A escola promove junto aos alunos o saber e a importância do conhecimento tradicional existente no nosso território, e incentiva as práticas sustentáveis na região do Içana.

Impacto positivo na vida das comunidades – as comunidades ao iniciar a luta pela escola de ensino fundamental completo buscava ver seus próprios filhos ajudarem nas suas comunidades, reunindo os conhecimentos Baniwa e com conhecimento de fora.  A escola foi pensada para valorizar o conhecimento próprio e o conhecimento de fora, com tecnologias que facilitassem o acompanhamento dos acontecimentos do mundo.  Hoje as comunidades com ajuda da escola têm na sua totalidade professores de suas comunidades e falantes de língua.  As pessoas que saíram da escola tornaram-se referência para defesa do interesse das comunidades, ajudando a pensar não somente as comunidades, mas todo o território Baniwa e Coripaco.

Impacto nas políticas públicas – a experiência da Escola Pamáali revolucionou e influenciou a educação escolar, principalmente no que diz respeito a gestão participativa e no sistema de ensino; hoje todas as escolas estaduais e municipais são coordenadas pelos professores indígenas, discutem seus PPPs junto com suas comunidades e muitos aguardam sua aprovação no Conselho Municipal de Educação.  Hoje existem várias escolas Baniwa e Coripaco de ensino fundamental completo e ensino médio se organizando.  A Escola Pamáali dissemina sua experiência nos seminários e conferências, no âmbito do movimento indígena e de eventos governamentais estaduais e nacionais.

Tecnologias e Gestão de Conhecimentos Interculturais – laboratório de informática com internet através do Gesac (programa do Ministério das Comunicações) e laboratório de produção de alevinos de peixes nativos (mais de 2 milhões de alevinos desde o ano de 2003).  Radiofonia, energia com placa solar, televisão com parabólica, gerador funcionando com óleo vegetal (resíduos de óleo de cozinha coletado na cidade de São Gabriel da Cachoeira), sistema de manejo ambiental e criação de animais (galinhas caipiras, peixes nativos na escola e nas comunidades).  Todos envolvem conhecimentos de fora, porém fundamentados nos conhecimentos tradicionais como forma que possibilita aceitação e dá sentido às pessoas das comunidades.  Através de tecnologias de comunicação e informação, cada vez mais divulga a realidade indígena para o mundo através da internet.

Articulação Política – parcerias locais, regionais, nacionais e internacionais garantem e sustentam o desenvolvimento da ideia transformadora de um povo, devido a poderosa metodologia política de gestão, de ensino e construção de novos conhecimentos nas instituições de ensino e políticas públicas.

Desenvolvimento sustentável e responsabilidade social – entendemos por desenvolvimento aquilo que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras; e a responsabilidade social é um conjunto de ações tomadas pelos diversos agentes sociais com compromissos ao seu grupo social.  Esta é a política balizadora do processo de ensino da Escola Pamáali, que hoje é a principal articuladora da Rede de Escolas Baniwa e Coripaco, onde se dissemina sua experiência e troca de conhecimentos.

Perspectivas – um “Centro de Pesquisa e Formação de Desenvolvimento’’, está em processo de construção.  Começa no Ensino Fundamental Completo e se consolidará daqui a alguns anos com Ensino Médio Integrado e junto com Instituto do Conhecimento dos Povos do Rio Negro estabilizará como centro tecnológico e de desenvolvimento sustentável com estudo avançado ou superior do povo Baniwa e Coripaco.

A Escola Pamáali tem um blog próprio.  Para conhecê-lo, clique aqui.


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