Destino do lixo nuclear, herança para nossos filhos

28 de abril de 2011  - Jaime de Agostinho

A usina nuclear de Angra 1, no litoral do Rio, entrou em operação há 26 anos e a de Angra 2, há 9. O governo pretende inaugurar Angra 3 em 2015 e já concluiu estudos para a construção de mais quatro usinas, duas no Nordeste e duas no Sudeste. Mas ainda não sabe o que fazer com seu lixo nuclear, que permanece radioativo por cerca de 300 anos. 

“Existem algumas soluções, só que não temos a garantia de que sejam suficientes a longo prazo”, diz Ricardo Baitelo, engenheiro e coordenador de energia do Greenpeace. “O custo de construir os depósitos não está incluído nas tarifas da energia de Angra 1 e 2, mas teremos de pagar por ele de alguma forma.”

Infográfico sobre o caminho dos resíduos nucleares (Clique para ampliar)

A geração de energia por fissão nuclear deixa dois tipos de resíduo: os de baixa e média radioatividade e os de alta. Por enquanto, o Brasil estoca tudo em depósitos (lixo de baixa e média) e piscinas (alta) nos prédios das usinas de Angra 1 e 2.

Como condicionante para a licença de operação de Angra 3, o Ibama estipulou que o País deve iniciar o processo de licenciamento de um depósito definitivo de resíduos de média e baixa radioatividade e apresentar o projeto de um depósito de resíduos de alta radioatividade.

Este último é o nó da questão, embora especialistas afirmem que o Brasil pode esperar cerca de 30 anos até definir uma solução. O governo parece se inclinar por uma saída intermediária. “Ainda não decidimos se vamos comprar serviços de reprocessamento ou se vamos tratar o combustível como rejeito radioativo e estocá-lo do jeito que está”, diz Laércio Vinhas, diretor de Segurança da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão federal que supervisiona o setor nuclear. “A Eletronuclear (estatal que constrói e opera usinas) e a CNEN estão fazendo um projeto de depósito de resíduo de alta no Brasil, mas ainda não é o definitivo. É um lugar onde os elementos combustíveis poderiam ficar por 200, 300 anos até que as novas gerações decidam o que querem fazer: tratá-los como rejeito ou reprocessar.” A previsão é de que esse depósito intermediário esteja operando em 2026.

O reprocessamento é um processo de “reciclagem” do combustível já usado nos reatores. Os poucos países que têm essa tecnologia, como França, Reino Unido e Japão, conseguem reaproveitar 95% do combustível. “O reprocessamento é politicamente complicado porque um dos elementos obtidos é o plutônio, usado para confecção de armamentos nucleares”, afirma o físico Luís Antônio Terremoto, pesquisador do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), vinculado à CNEN e à Universidade de São Paulo.

Tanto para ser reprocessado como guardado a seco, porém, o combustível deve ser resfriado em piscinas por períodos de, em média, cinco a oito anos. “As piscinas de Angra conseguem estocar os elementos combustíveis até 2020”, garante Leonam dos Santos Guimarães, assessor da presidência da Eletronuclear. Pesquisador da CNEN, Rogério Pimenta Mourão revela que há planos de construção uma piscina extra no complexo.

“Algum dia, todo país que produz rejeitos de alta atividade vai ter de ter um depósito”, diz Mourão. A tarefa não é fácil mesmo no Primeiro Mundo. A Suécia foi o primeiro país a licenciar um projeto de depósito definitivo, com operação programada para 2015. Os Estados Unidos vêm há anos tentando construir um na montanha de Yucca, em Nevada, orçado hoje em US$ 100 bilhões. “A diferença é que o consumidor americano paga por ele desde os anos 80”, diz Baitelo.

Além dos resíduos de alta radioatividade, usinas nucleares produzem rejeitos de baixa e média intensidade. São resinas, elementos da água usada no circuito de resfriamento do reator, restos de luvas, filtros e tecidos que ficaram contaminados. Eles são geralmente acondicionados em depósitos e concretados. No Brasil, o Ibama estabeleceu que um depósito definitivo deve ser construído até 2018.

Depósito de média radioatividade tem de sair até 2018

“Existem cerca de 20 depósitos definitivos com esse perfil no mundo, entre eles o de Abadia de Goiás, onde estão resíduos do césio 137 que causou o acidente em Goiânia”, diz Leonam dos Santos Guimarães, assessor da presidência da Eletronuclear, referindo-se ao pior episódio de contaminação do País, que deixou 4 mortos em 1987. “Várias possibilidades estão sendo consideradas, inclusive a de aumentar o depósito de Goiás.”

O prefeito da cidade, Valdeci Mendonça (PMDB), diz que a população convive bem com o depósito, mas a ampliação terá de ser discutida. “Lutei para nos livrar do estigma de ‘Cidade do Césio’. Ainda somos preteridos por grande indústrias alimentícias por conta disso. Acabamos de perder uma de ração animal que optou por uma cidade vizinha.”

Até o ano passado, a cidade recebia pouco mais de R$ 5 mil mensais da CNEN para guardar os despojos. “Consegui aumentar o valor para R$ 24 mil, mas ele é decrescente: conforme cai o teor de radioatividade, cai também a contrapartida.”

Fonte: Estadão.com


Palavras-chave:


Deixe um comentário

*