Ministro da Justiça recebe últimos povos da Amazônia a entrar em “contato efetivo”

16 de Fevereiro de 2011  - Jaime de Agostinho

Indígenas da etnia Zo’é, que estão em Brasília tratando da relação política de seu povo com o Estado brasileiro, foram recebidos pelo Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na manhã de hoje (15). O grupo do Pará, que até o momento manteve o isolamento, solicitou apoio e compra de equipamentos para atividades de pesca do surubim, apreciado na culinária Zo’é. A perspectiva dos indígenas é de que, assim, possam auxiliar a Funai na fiscalização da Terra Indígena Zo’é, no município de Óbidos/PA. O desafio para os Zo’é é garantir que a Funai seja informada por eles sempre que constatarem a presença ilegal de garimpeiros, missionários ou outras pessoas que possam colocar em risco a política oficial para povos de recente contato.

Ministro José Eduardo Cardoso com indígenas da etnia Zo'é

O ministro José Eduardo Cardozo garantiu o empenho do MJ e da Funai para que se consolide a relação dos indígenas com o Estado e para que sejam garantidos os direitos indígenas, com a participação ativa dos membros das comunidades. “Precisamos da colaboração de vocês para garantir seus direitos. Vocês tem direito que os brancos não entrem na terra levando doenças e coisas ruins para a vida de vocês”, afirmou. O ministro foi presenteado pelo grupo com arcos e flechas característicos da cultura Zo’é e retribuiu com artesanatos da cultura Xinguana. “Gostaria de poder retribuir a visita indo na Terra Indígena”, disse José Eduardo Cardozo.

Na tarde desta terça-feira os indígenas participam de reunião na Funai, com a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) para desenvolvimento do Programa Zo’é, que deve prever um conjunto de ações voltadas à promoção de direitos e proteção física e cultural. No final do dia os Zo’é seguem para o Ministério da Saúde para audiência com o ministro Alexandre Padilha. A programação do grupo continua na quarta-feira, com visita ao Laboratório de Línguas da UNB, Fundação Darci Ribeiro e TV Universitária.

A comitiva Zo’é é composta por sete homens e uma mulher. M’Badjá, Ipó, M’Bóy, Sin’hú, Kurú, Namihít, Tor’ken e a índia Padj E’tarãndit estão acompanhados da professora Ana Suely Arruda, que estuda a língua desse povo do grupo linguístico Tupi há mais de 15 anos, e participa de todas as reuniões, fazendo a tradução. Também acompanham o Dr. Erik Leonardo Jennings Simões, da Funasa e o Coordenador da Frente Etnoambiental de Cuminapanema, João Carlos Lobato.

Histórico do Contato

Os Zo’é, inicialmente chamados “Poturu”, tornaram-se conhecidos pela mídia no final dos anos 80 como um dos últimos povos da Amazônia a entrar em “contato efetivo” com a sociedade ocidental. “Zo’é” significa “gente como nós”. Esta autodenominação apenas é utilizada por eles quando surge a necessidade de explicitar sua diferença com relação aos não-índios ou aos povos inimigos. A Funai teve conhecimento da existência do grupo no início da década de 1970, quando ocorreu o levantamento dos grupos isolados que estavam na rota da construção da rodovia Perimetral Norte (BR 210).

No início da década de 80, missionários da MNTB – Missão Novas Tribos do Brasil, braço nacional da New Tribes Mission americana, começaram a atraí-los com fins evangelizadores, à revelia de autorização da Funai. Diante do agravamento da mortalidade na população recém contatada, em 1989, o grupo solicitou auxílio do órgão indigenista. Em 1991, a Funai retirou legalmente a Missão Novas Tribos do território Zo’é, assumindo a assistência exclusiva dessa população. A partir daí, algumas ações começaram a ser realizadas, como interdição imediata do território, posteriormente demarcado como Terra Indígena Zo’é; aprendizado da língua nativa; valorização da estrutura sócio-econômica autônoma dos Zo’é; e ações de promoção à saúde.

O empenho no aprendizado da língua nativa e busca permanente pela valorização da estrutura sócioeconômica autônoma dos Zo’é, permite romper com práticas de assistencialismo que promovem a dependência. Concomitantemente à autonomia produtiva e alimentar, o diálogo em sua própria língua e o profundo respeito às suas formas sociais promovem a autoestima cultural e o reconhecimento coletivo da importância da perpetuação de sua autonomia produtiva e práticas milenares, como o cerne de sua sobrevivência e qualidade de vida, refletindo positivamente na saúde, nos padrões de ocupação territorial, na conservação ambiental e na centralização da forma de vida Zo’é como a essência de sua autonomia e direito étnico.

Cultura

Os índios possuem pele clara, estatura mediana e usam um adorno labial de madeira que mede de 15 a 20 cm por 2,5 cm de diâmetro no caso dos adultos. O adorno é colocado em torno dos 8 anos e chama “rebenpó”. Alguns homens e mulheres usam cabelo comprido amarrado tipo “rabo de cavalo”, enquanto outros mantêm o corte tipo cuia. Os homens usam um estojo peniano feito de palha. As mulheres também usam enfeite labial e uma tiara confeccionada com plumagem de urubu-rei. Ainda na cabeça, elas usam um aro confeccionado de olho de palha preta. Todas as mulheres, inclusive as meninas, usam uma tipóia de algodão. Dormem em redes confeccionadas da casca da castanha e croá, e suas armas são arco e flecha.

Cultura Religiosa

Os Zo´é – como outros povos Tupi – não dão muita importância à localização de seus antepassados longínquos. Tampouco se preocupam em estabelecer um “começo” na história da humanidade. Seu mito de origem descreve a recriação da humanidade por um herói que surge para intermediar, naquele momento, a relação entre grupos e seres distintos e para recolocar “em pé” os Zo´é. Essas narrativas contam os feitos de Nipuhan, que chega do sul e sobrevive ao cataclisma. Na paisagem desolada de uma terra destruída pelo dilúvio e pelo fogo, ele refaz a humanidade, juntando os ossos dos que haviam perecido, “engolidos” pelo dilúvio. Nas narrativas relativas a este episódio, semelhantes a outras tradições Tupi-Guarani, os Zo’é atribuem ao herói criador saberes e poder característicos dos “kirahi” (não índios).

Saúde

Como todo povo indígena de recente contato, os Zo’é são ainda bastante vulneráveis à contaminação e disseminação drástica de quaisquer patologias para as quais não tenham desenvolvido imunidade suficiente. Isto torna os contatos não controlados situações de alto risco e produtores de sérias demandas emergenciais. Em cooperação de instituições não governamentais realizou investimento em infraestrutura de atendimento de saúde na própria TI, com tecnologia em equipamentos, estoque atualizado de medicamentos, disponibilidade de profissional de saúde em tempo em tempo integral e estrutura de telecomunicações, promovendo a saúde indígena de forma holística: física, psicossocial e cultural.

Em janeiro de 2010, foram realizadas cirurgias por videolaparoscopia, na própria área indígena, para a remoção de colecistopatia, mais popularmente conhecida como pedra na vesícula. A necessidade cirúrgica foi inicialmente diagnosticada por ultrassonografias, feitas com equipamento portátil, o que indicou o problema em quatro mulheres Zo’é. O procedimento foi minimamente invasivo, o que permitiu um pós-operatório quase indolor e com pronto restabelecimento, possibilitando liberação dos pacientes em menos de 24 horas. Acredita-se que a alimentação, rica em castanha do Brasil e gordura animal, favoreça o aparecimentos das pedras, com mais frequência em mulheres. A doença, quando agravada, pode levar a óbito pela infecção na vesícula biliar ou obstrução da via biliar principal.

Isolamento

A política de afastamento coletivo desse e de outros povos configurou-se como uma tática de sobrevivência diante da violência que a sociedade ocidental lhes impôs nos processos de ocupação e expansão sobre suas terras ancestrais. A transformação das antigas Frentes de Atração em Frentes de Proteção Etno-ambientais, em 2000, resultou na mudança de diretrizes e conceitos de proteção territorial prévia, resguardo ambiental para segurança física e alimentar e, principalmente, no respeito à opção de não-contato.

Os Zo’é vivem a plenitude de sua cultura, de seus padrões de produção econômica de baixo impacto sobre o ecossistema, o que leva a uma reflexão sobre os aspectos das matrizes culturais nacionais; dos direitos sociais à diversidade; do patrimônio material e imaterial e da responsabilidade do Estado frente à diferença dos povos existentes no território brasileiro.

Fonte: FUNAI


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